newsletters da piauí
16 Set 2026
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Texto publicado na newsletter Caderno do repórter, exclusiva para assinantes da piauí. Para receber quinzenalmente as próximas, inscreva-se aqui. Para ler a série especial As 196 páginas de sigilo, tema desta edição, clique aqui.
Em fevereiro deste ano, dias antes do Carnaval, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório que tratava das relações entre o ministro Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro. Ninguém, além dos envolvidos, conhecia o conteúdo daquele documento. Sabia-se apenas que era algo grave o suficiente para pôr em xeque a imparcialidade de Toffoli, então relator do inquérito sobre o Master. Na época, o repórter Breno Pires revelou no site da piauí que não se tratava de um mero conflito de interesses: o relatório apontava, na verdade, indícios de crimes do ministro.
Que indícios eram esses, ninguém esclareceu. Toffoli, sob pressão, se afastou do inquérito naquele mesmo mês – e, com a anuência de seus colegas do tribunal, o documento da PF foi varrido para debaixo do tapete. A crise do STF, de lá para cá, se agravou. No final de agosto, André Mendonça pediu à Polícia Federal um relatório sobre os vínculos de Vorcaro com Alexandre de Moraes – e, dias depois de receber o documento, decidiu torná-lo público, revelando novas informações comprometedoras sobre o ministro. Moraes, por sua vez, revidou, pedindo uma investigação contra Mendonça por supostas irregularidades cometidas na relatoria do caso Master. Vendo que os dois ministros se engalfinhavam e tomavam conta do noticiário, Breno pensou: “Mas e o Toffoli?” Dos ministros do Supremo, ele era o único que havia sido objeto de um relatório feito por iniciativa da própria PF.
Breno voltou, então, a tentar acesso ao relatório. Finalmente, no dia 5 de setembro, um sábado, o documento chegou em suas mãos. Não era um fim de semana comum: toda a redação da piauí estava participando do 10º Festival piauí de Jornalismo, que acontecia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Depois de constatar que o relatório continha informações inéditas, Breno conversou com os repórteres Ana Clara Costa e João Batista Jr., para que os três se dividissem na leitura daquelas 196 páginas. No domingo, o trio informou o diretor de redação da piauí, André Petry, sobre o material que tinham em mãos – e, ao receber sinal verde, definiram quem escreveria sobre qual parte do relatório.
Breno ficou encarregado das revelações mais graves. Uma era a suspeita, por parte da PF, de que Toffoli pode ter sido “beneficiário final” ou “proprietário de fato” de um fundo que recebeu 35 milhões de reais de Vorcaro, cujos ativos foram parar nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal do Caribe. A outra era a suspeita de que o banqueiro possa ter influenciado o ministro num julgamento de uma tema no qual o Master tinha interesses bilionários. João Batista mergulhou nos detalhes sobre a “festa das suíças”, um evento de Halloween promovido por Vorcaro em São Paulo, em 2023, com muitas mulheres e algumas poucas autoridades (todos homens). Ana Clara, por sua vez, tratou de uma contradição que, naquele momento, se tornou evidente: se André Mendonça tornou público o relatório sobre Alexandre de Moraes e pediu a investigação do ministro, por que nada fez a respeito do relatório sobre Toffoli, que estava em posse do tribunal desde fevereiro?
A apuração começou ali mesmo, na Cinemateca. Sentados numa mesa reservada à equipe da piauí, ao lado do auditório principal, os três repórteres – que, por diferentes ângulos, já haviam coberto o escândalo do Master em reportagens da piauí – esquadrinharam o relatório. Ana Clara e João Batista fizeram um esforço redobrado, já que, dali a poucas horas, teriam de entrevistar no palco a jornalista ucraniana Olga Rudenko, do The Kyiv Independent, uma das convidadas internacionais do festival, e precisavam se preparar.
As reportagens começaram a ganhar forma no feriado de Sete de Setembro – dia em que, na Avenida Paulista, uma multidão de bolsonaristas homenageava Mendonça com palavras de apoio e um boneco inflável. Mas a apuração ainda se estendeu por dias. Breno, Ana Clara e João Batista ouviram dezenas de fontes presencialmente e por telefone. O maior desafio era compreender o intrincado fluxo financeiro montado por Vorcaro e descrito no relatório, e dar contexto às informações da PF, deixando clara a linha do tempo de decisões tomadas tanto por Toffoli quanto por Mendonça e as perguntas que continuavam sem resposta. João Batista se esforçou para reconstituir detalhes da festa que não estavam no relatório e ouvir todos os políticos convidados por Vorcaro e Fábio Faria.
Depois de entregues pelos repórteres, os textos foram editados por Petry e enviados para dois checadores da piauí, Gilberto Porcidonio e Ethel Rudnitzki, que se dividiram na tarefa de confirmar cada informação usada pelos repórteres. Luigi Mazza, editor do site da piauí, aplicou os ajustes finais e, com o auxílio de Pedro Moro e da diretora de arte da piauí, Cecília Marra, preparou as fotos, vídeos e infográficos que ilustrariam as reportagens.
O dia de fechamento foi quinta-feira, 10 de setembro. Reunidas sob o título 196 páginas de sigilo, as reportagens foram concluídas tarde da noite, quando chegaram as notas oficiais de Toffoli e Mendonça. Diante da urgência do assunto, a piauí decidiu publicá-las naquela hora mesmo. Já passava das onze horas. A repercussão, apesar do horário, foi imediata.
E a apuração continuou. No dia seguinte, João Batista descobriu, por meio de uma fonte, que Vorcaro havia se fantasiado de Drácula na “festa das suíças”. A informação foi incluída no texto.
Leia aqui essa e as demais reportagens.