questões cinematográficas

CAI, CAI – CINEMA BRASILEIRO E MONARQUIA

Depois de ter assistido a transmissão do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, evento promovido pela Academia Brasileira de Cinema, em 31 de maio, esperei seis dias por algo momentoso, mas nada aconteceu. Duas semanas depois da festa de gala no Teatro João Caetano, no Rio, o cinema brasileiro continua na mesma – o que me leva a especular sobre a razão de ter me sentido diante de um evento anacrônico enquanto via a entrega dos prêmios.
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Depois de ter assistido a transmissão do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, evento promovido pela Academia Brasileira de Cinema, em 31 de maio, esperei seis dias por algo momentoso, mas nada aconteceu.

Duas semanas depois da festa de gala no Teatro João Caetano, no Rio, o cinema brasileiro continua na mesma – o que me leva a especular sobre a razão de ter me sentido diante de um evento anacrônico enquanto via a entrega dos prêmios.

Durante a transmissão, não pude deixar de pensar no Baile da Ilha Fiscal, luxuosa celebração da monarquia, organizada enquanto o fim do regime era planejado por oficiais do Exército.

Seis dias antes da proclamação da República, Benjamin Constant, grande articulador do golpe militar, não deixou de levar a família para ver o baile de longe. Embora convidado, o convite não teria chegado a tempo das mulheres da família fazerem seus vestidos, só restando assistirem de uma pequena embarcação o que acabou sendo a grandiosa festa de despedida do Império.

Nas duas vezes que fui ao Grande Prêmio, senti estar participando de um evento farsesco. Constrangido, fui embora antes do coquetel que se seguiu à entrega dos troféus, sem escapar, porém, de aparecer na “Caras”.

Este ano, a frieza própria da tevê, o amadorismo da mal iluminada transmissão ao vivo, as frustradas tentativas feitas pelo casal de apresentadores de serem informais e engraçados etc. – tudo isso talvez tenha agravado meu malestar. Vi colegas, além dos presidentes da RioFilme e da ANCINE, celebrarem o que, segundo eles, é “o bom momento do cinema brasileiro”, enquanto as notícias que me chegam são de insatisfação generalizada do setor, produções interrompidas, filmes passando pelo mercado em alta velocidade – muitos fazendo menos de cinco mil espectadores –, burocracia emperrando o andamento de projetos etc.

Cinema e ilusão, é sabido, convivem lado a lado, a ponto de poderem ser considerados termos análogos. Mas não haverá algo patético nessa contrafação anual do Oscar, da qual participam produtores, diretores, atores, técnicos, e também espectadores? Palavras, posturas e figurinos soam e parecem postiços. Há lugar e hora adequados para fazer de conta. Mas nessa auto-celebração o que salta aos olhos são sinais de decadência.

No dia 15 de novembro de 1889, Benjamin Constant disse a um grupo de oficiais: “Meus senhores, preparemo-nos para vencer ou morrer; mas guardemos o último cartucho para fazermos saltar os miolos, caso sejamos infelizes na luta contra esse governo infame!”* Antes do meio-dia, a República fora proclamada.

Cineastas, por sua vez, capazes de festejar como poucos, parecem ter perdido a capacidade de redefinir o modelo de produção ao qual estão submetidos.

*Referências e citação de Benjamin Constant colhidas em Renato Lemos, Benjamin Constant Vida e Obra. Rio: Topbooks, 1999.


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