carta de kyiv

O CHEIRO DA FUMAÇA VAI SE DISSIPAR

A vida na Ucrânia ficou mais cara e mais perigosa neste ano, mas não parou
Em meio à guerra, cenas prosaicas como pessoas sentadas em uma estação de metrô de Kyiv - Crédito: Danylo Antoniuk/Anadolu via AFP
Em meio à guerra, cenas prosaicas como pessoas sentadas em uma estação de metrô de Kyiv - Crédito: Danylo Antoniuk/Anadolu via AFP

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Estamos em meados de 2026, e a guerra total entre Rússia e Ucrânia já completou quatro anos. O tempo não para. A linha de frente parece estagnada, mas, se é verdade que em algumas áreas o Exército russo avança lentamente, em outras, sobretudo no Sul, os militares ucranianos estão libertando territórios antes ocupados. Nas últimas semanas, a Ucrânia libertou mais territórios do que perdeu.

Desde o início do ano, drones e mísseis russos mataram muito mais civis ucranianos do que no semestre anterior. Nesse mesmo período, drones ucranianos passaram a alcançar com regularidade locais mais distantes, como São Petersburgo e os Montes Urais. Foram seis meses de investidas aéreas ucranianas que reduziram a cinzas dezenas de refinarias, fábricas de armamentos, depósitos de munição e centros de logística militar na Rússia. A vida na Ucrânia ficou mais cara e mais perigosa neste ano. Mas não parou. Continua.

O cheiro de fumaça – da guerra – marca as manhãs em Kyiv. Bombeiros são acionados quase diariamente para apagar incêndios causados por bombardeios russos. Moradores da capital ucraniana, a caminho do trabalho, conferem em seus celulares quais ruas estão fechadas e quais ônibus foram temporariamente desviados em razão das investidas russas. Serviços públicos de limpeza removem carros queimados e escombros de prédios desabados.

O Museu Nacional de Arte voltou a fechar – perdeu janelas e portas depois de mais um ataque às regiões centrais da capital. O edifício histórico da Biblioteca Parlamentar, ali nas proximidades, também foi danificado. Mas o Festival do Livro do Arsenal não foi cancelado. O evento internacional manteve a agenda e, de modo surpreendente, atraiu muitos escritores estrangeiros, que compareceram para lançar livros traduzidos para o ucraniano.

Um passatempo cada vez mais popular entre os moradores de Kyiv é nadar no Hydropark – uma ilha fincada entre as margens do Rio Dnipro, repleta de vegetação, e que oferece quilômetros de praia bem no centro da cidade. Conhecido ponto de lazer, o Hydropark está conectado às margens do Dnipro por duas pontes que podem ser cruzadas por carro ou metrô – na verdade, as únicas maneiras de acessar o lugar. Quando soa o alarme de ameaça de bombardeio iminente em Kyiv, o trecho subterrâneo do metrô segue rodando, enquanto a parte que trafega em via elevada interrompe o funcionamento, deixando presas na ilha as pessoas que estavam ali aproveitando um momento de descanso. Mas elas não entram em pânico. Continuam a nadar ou a tomar sol. De fato, nenhum míssil ou drone atingiu a ilha durante o conflito.

Por outro lado, mísseis e drones caem com frequência em outro destino de férias muito procurado pelos ucranianos – na costa do Mar Negro, em Odessa, e naquela região como um todo. Mas isso não afasta os ucranianos que gostam de nadar no mar.

Assim como, há um ano, Volodymyr Zelensky fala em acabar com a guerra e iniciar negociações de paz “até o fim do ano”, os ucranianos não acreditam muito nessas promessas. Nós, ucranianos, conhecemos bem Vladimir Putin e a Rússia. Sabemos que, enquanto a Rússia puder lutar, não abandonará seus planos de ocupar nosso país. Mas nós também não temos a menor intenção de abrir mão da nossa independência, da nossa soberania, do nosso desejo de tirar férias de verão mesmo durante uma guerra. Não desistiremos dos nossos projetos pessoais de futuro.

Sim, a agressão russa obriga muitos ucranianos a mudar de planos o tempo todo, mas não tolhe nossa força de vontade e autoconfiança. A agressão russa não paralisou a história ucraniana nem a história da Ucrânia independente. Apenas nos lembrou que nossa liberdade e nossas crenças têm um preço. Às vezes muito alto, às vezes alto demais.

Há poucos dias, caminhei até o Mercado Lukyanivskyi, recém-destruído por mísseis russos. Fica a 20 minutos a pé do nosso apartamento. Produtores ucranianos de morango vendiam suas frutas, vermelhas e bonitas, no chão, em meio aos destroços das barracas destruídas e aos trabalhadores que recolhiam cacos de vidro e restos carbonizados.

Sei que em um mês ou dois o mercado estará aberto novamente. O cheiro de fumaça vai se dissipar. Os agricultores voltarão a vender damascos e ameixas atrás de longas fileiras de barracas reformadas com urgência. As mães comprarão frutas e pensarão no futuro da família, pensarão na guerra. Porque o futuro da Ucrânia e de suas crianças depende dessa guerra, de quando e de como ela vai terminar.

*

O texto acima, traduzido por Jayme da Costa Pinto, foi escrito em junho deste ano, especialmente para a reedição do livro Ucrânia: diário de uma guerra, pela Editora Carambaia, a ser lançada neste mês de julho (em tradução de Marcia Vinha e Renato Marques).

O escritor Andrey Kurkov é um dos autores convidados da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa no dia 23/7/2026, quinta-feira, às 12 horas, da Mesa 3: Não vim. Não vi. Não havia guerra alguma, junto da escritora canadense Maria Reva e da jornalista brasileira Laura Capelhuchnik. No dia 27/7, às 19 horas, ele conversa com a jornalista Patrícia Campos Mello, no auditório da Folha de S.Paulo, na Alameda Barão de Limeira, 425, Campos Elíseos.


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É escritor, autor de Abelhas cinzentas (Porto Editora), A morte de um estranho (A Girafa) e Ucrânia: diário de uma guerra (Editora Carambaia), entre outros