10 Jul 2026
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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
'"You're fucking crazy": Trump fumes at Netanyahu in call on Lebanon', reporatagem de Barak Ravid para o Axios.
"How the Iran Deal is testing the US-Israel alliance", episódio do podcast The Daily do The New York Times.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista piauí.
Sonora: Resolvi ficar mais um dia aqui e nos Estados Unidos, exatamente pra fazer algumas conversas que vão ser importantes pra tentar mais uma vez influenciar aqui o governo americano.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Sonora: Canella, vamos com tudo. Amém. Eu que lhe agradeço, presidente. Pode ter certeza: estaremos juntos.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.
Celso Rocha de Barros: To me, I think it's over. I don't want to deal with them. They're scum... Do you know what scum is? They're sick people
Celso Rocha de Barros: Mais uma sexta-feira e antes dos assuntos da semana, eu quero dizer a vocês que teremos pela primeira vez Foro de Teresina ao vivo na Flip em Paraty. A gente vai falar na sexta-feira, dia 24 deste mês, às nove da noite, no Palco do Telão, na Praça da Feira. É de graça, aberto ao público. A gente espera contar com a presença de vocês. Além disso, vai estar em pré-venda na Flip, a antologia de 20 anos da piauí, que serão completados agora em outubro. Essa antologia tem seis volumes em parceria com a Companhia das Letras. E quem comprar ganha um pinguim. Eu vou comprar para ganhar o pinguim.
Celso Rocha de Barros: Boa!
Ana Clara Costa: Eu também.
Fernando de Barros e Silva: Além disso, para terminar o nosso pacote Flip, a gente vai ter um Jardim piauí na casa da Estante Virtual. E no sábado, às oito e meia da noite, 20:30m a gente vai ter uma edição do Clube de Leituras da piauí para os assinantes da revista. E a reportagem que vai ser lida se chama "O petróleo é nosso", da repórter Camille Lichotti, com mediação da querida Ana Clara Costa. A matéria fala da exploração do petróleo na foz do Amazonas e da ambição de transformar a distante Oiapoque, no Amapá, numa espécie de nova Dubai brasileira. É o que nos falta, Celso. É o que nos falta.
Celso Rocha de Barros: Opa!
Fernando de Barros e Silva: Bom, dados esses recados, vamos então aos assuntos da semana. A gente abre o programa com mais uma viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos neste ano. É a sexta. Ele falou por cinco minutos na última terça-feira, na audiência pública do escritório do representante comercial dos Estados Unidos. Deveria se ocupar das tarifas que devem ser impostas a produtos brasileiros, mas se desviou do assunto e usou o tempo para atacar seu rival político. Sugeriu que os Estados Unidos esperem a eleição para negociar com o novo presidente, ele próprio, já que Lula, segundo Flávio, lambe as botas da China. Logo ele, Flávio, lambedor de botas de dedos e etc de Donald Trump. Sua atuação foi tão dirigida à produção de frases de efeito e corte para as redes sociais que o Estadão publicou um editorial com o título "Flávio Bolsonaro desserve o Brasil". O texto diz que 01 perdeu a chance de provar que está interessado em servir ao país, coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais fez. E conclui dizendo que a reação do setor produtivo não poderia ser outra. Empresários presentes na audiência classificaram como deslocada e constrangedora a atuação de Flávio Bolsonaro na audiência pública. Enquanto isso, sua campanha segue sofrendo ataques em seu próprio campo político. O ex-secretário de comunicação de Bolsonaro, Fábio Wajngarten, escreveu no X, o Twitter, que, abre aspas: "A campanha de Flávio não existe, não tem agenda, não tem comunicação, não tem organização, não tem planejamento". Fecha aspas. A isso se soma uma relação de irmão com Daniel Vorcaro e a ficha corrida do senador, que envolve a prática de rachadinhas, indícios de lavagem de dinheiro por meio de lojas de chocolates, imóveis arrematados em dinheiro vivo e ligações promíscuas com a milícia do Rio de Janeiro. Ainda assim, e apesar de tudo e a despeito de tudo, Flávio segue sendo o preferido da Faria Lima e vai pontuando bem nas pesquisas. No segundo bloco, a gente fala da Operação Unha e Carne, que na terça-feira chegou ao palanque de quem? De quem? De Flávio Bolsonaro no Rio. A Polícia Federal prendeu Márcio Canella, o ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado na chapa apoiada por Flávio. Prendeu depois de encontrar um fuzil calibre 556, eu nem sei o que quer dizer isso, no carro de Canella. Ele é alvo da sexta fase da operação, que investiga uma organização suspeita de lavar dinheiro em uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio. Segundo o Coaf, o esquema movimentou mais de 7,6 bilhões de reais em seis anos. A investigação começou com suspeita de vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho e foi avançando sobre a Alerj, a contravenção, setores do Judiciário, igrejas, postos de gasolina. Nas fases anteriores já passaram pela mira da Polícia Federal, Rodrigo Bacelar, ex-presidente da Alerj, Macário Ramos Judice Neto, desembargador do Tribunal Regional Federal II, Thiago Rangel, deputado estadual pelo Avante, Márcio Poncio, que é dublê de pastor e empresário do tabaco, Adilsinho, contraventor ligado ao jogo do bicho e ao comércio ilegal de cigarros, e Marco Antônio Cabral, já que a família Cabral não pode estar fora de nenhuma mutreta no Rio. Pega mal. Marco Antônio Cabral, que é filho do ex-governador, o famigerado Sérgio. Para completar, Márcio Canella, esse do fuzil tinha Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, como suplente. Flávio não é alvo da operação, mas é unha e carne do mais novo investigado. No terceiro bloco, por fim, a gente vai falar do fim da trégua da guerra dos Estados Unidos de Israel contra o Irã e da retomada dos ataques ao país persa. Depois do cessar-fogo que não chegou a completar um mês, os norte-americanos realizaram uma nova rodada de bombardeios contra cerca de 90 alvos estratégicos ao longo da costa iraniana na última quarta-feira. O objetivo seria reduzir a capacidade do Irã de atacar navios comerciais no Estreito de Ormuz. O preço do petróleo subiu e voltou a crescer também a incerteza sobre o futuro da região. Estamos no planeta de Donald Trump e tudo pode acontecer. Da Copa do Mundo à estabilidade internacional, o negócio dele é avacalhar. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, vamos começar com você sobre esse convescote lá nos Estados Unidos, audiência pública que foi usada para o 01 fazer mais um dos seus... Dar mais um vexame, né?
Celso Rocha de Barros: É Fernando, no fundo é o seguinte: Flávio Bolsonaro, como todo corrupto, cria dificuldade para depois vender facilidade. Então o tarifaço foi organizado por ele, pela família dele. Convenceram o Trump de que era possível pressionar o Brasil para soltar o Bolsonaro e fazer uma série de coisas lá que eles queriam que o Brasil fizesse por pressão tarifária, por lei Magnistky, com aquilo tudo que a gente viu no ano passado e aquilo lá deu errado. Esse ano, Trump voltou à carga, agora com novas tarifas e o Flávio agora tá querendo posar, quando todo mundo já estava chamando a tarifa de tariFlávio, ele agora resolve posar como o cara que vai resolver esse problema. "Vou acabar com o tariFlávio". É mais ou menos como se o PT perdeu a eleição 2022... Digamos que o PT tivesse pedido para o Maduro invadir o Brasil por causa da vitória do Bolsonaro, o Maduro invadisse o Brasil. E aí, ele tira o Lula da cadeia e o Lula vai lá e fala "gente, calma aí, eu vou resolver essa coisa da invasão venezuelana. Eu vou convencer o Maduro a sair do Brasil". Cara, mesmo se desse certo, foi você que chamou o cara aqui, entendeu? Então, assim mesmo se o Flávio conseguir convencer o Trump agora a retirar o tarifaço, foram eles, a família Bolsonaro, que chamaram o Trump a intervir na política brasileira. O Trump não faria isso, mesmo ele tendo diversos outros interesses muito mais importantes do que o Bolsonaro, interesses econômicos muito mais sérios. Mas ele não viria para essa briga se ele não pudesse contar com uma quinta coluna dentro do Brasil, que são os bolsonaristas que vão interpretar tudo que o Trump fizer como algo em defesa do Ocidente, ou como alguma coisa que tem como alvo sobretudo o Lula, sobretudo o Alexandre de Moraes, etc. Como o Trump sabe que tem esses aliados aqui dentro, ele sabe que pode brincar com a gente desse jeito. Então, assim, o Flávio chegar agora e dizer "eu vou negociar para isso acabar", é o fim do mundo, porque mesmo se ele conseguisse, ele só estaria eliminando um problema que foi ele e a turma dele mesmo que criou. O Flávio foi lá nos Estados Unidos e apresentou lá um documento lá na comissão lá americana que está avaliando essa questão das sanções contra o Brasil. O documento começa com um certo ataque de sinceridade. Ele já começa avisando o seguinte: que o problema principal é que ele está atrás das pesquisas. Então, ele diz que as pesquisas nacionais publicadas mais recentemente colocam o incumbente com 39%, o Lula, contra o comentarista que é ele. Ele está lá como comentarista na comissão, com 29% no primeiro turno. Com a aprovação do governo subindo desde abril de 2026, e a vantagem do Lula, no segundo turno, crescendo. Aqui o Flávio está fazendo várias sacanagens, mas uma delas ele está fazendo com o Trump, porque ele está misturando duas coisas aqui. A vantagem que o Lula ganhou nas pesquisas do ano passado contra o Tarcísio por ter se mantido contra o tarifaço, foi por causa do tarifaço, entendeu? Então aquilo que o Trump fez realmente ajudou o Lula ano passado na disputa contra o Tarcísio.
Fernando de Barros e Silva: Certo.
Celso Rocha de Barros: Mas o Flávio tá querendo jogar na conta do Trump o rolo dele com o Daniel Vorcaro, entendeu? Ele tá querendo dizer assim: "Não, não. Essa queda que eu tive agora também foi por causa do tarifaço". E, obviamente, não foi. A queda foi porque pegaram ele lá pedindo dinheiro para o cara que cometeu a maior fraude financeira da história brasileira. Então ele já começa jogando um papo furado pesado para cima dos americanos e torcendo muito para eles não estarem acompanhando o noticiário daqui. Se você achou isso ruim, depois o Master volta aqui para essa história, porque uma das acusações dos Estados Unidos contra o Brasil é a a corrupção generalizada do Brasil, que prejudicaria uma série de empresas americanas, daria vantagens para empresas brasileiras aqui dentro... E aí o Flávio vai dizer assim: "Não, mas se você fizer isso aí, você vai me prejudicar na eleição e vai ajudar o Lula, que é responsável por diversos escândalos de corrupção". E ele bota lá mensalão, petrolão e bota o Banco Master. E aí, ele vai listar os envolvidos com o Banco Master e os únicos envolvidos com o Banco Master, segundo o Flávio, são o Guido Mantega, o Lewandowski e o Jaques Wagner. E, bom, eu não sei nem o que dizer, sinceramente. O Flávio é muito mais envolvido com o Banco Master do que todos esses caras somados. E o cara tá aí amarradão falando lá para o Trump que não esse negócio de banco, mas é uma coisa seríssima, realmente, não sei como é que alguém pode se meter com uma coisa dessas. O Flávio também falou que vai entregar tudo que as big techs quiserem e diz que ao invés de tarifas contra o Brasil para punir o Brasil por regular as big techs, eles deviam voltar com a magnitude contra o Alexandre de Moraes, contra o STF, etc. Bom, aqui há várias objeções óbvias que a gente pode fazer sobre que direito tem os Estados Unidos de interferir na nossa política interna. Mas também o Flávio está mentindo, porque ele diz o seguinte: "essas tarifas vão punir todo mundo, inclusive o pessoal da direita do legislativo brasileiro, ele mesmo, como candidato e tal. Mas só quem tá fazendo essas medidas contra os big techs é o STF. Então a punição de ser pontual contra o caso do STF".
Ana Clara Costa: O que é mentira.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Celso Rocha de Barros: E aí o exemplo que eu acho bastante característico é a briga entre a Damares e o Mário Frias referente à regulação de internet. A Damares que precisa de voto de mulheres evangélicas que estão preocupados com o que os filhos delas veem na internet, com o risco dos filhos serem aliciados por pedófilos e coisas desse tipo... A Damares propõe uma regulação mais restrita da internet e o Mário Frias, que é dessa turma aí do Flávio, que está mais interessado em puxar o saco do Trump, quer deixar o bumba-meu-boi mesmo e dane-se.
Ana Clara Costa: E o próprio governo também entrou na OMC contra os Estados Unidos pela questão das big techs recentemente.
Celso Rocha de Barros: Pois é. Só quem de fato defende que as big techs devem ter o direito de fazer qualquer coisa, são esses bolsonaristas que estão lá pedindo favor para o Trump. Os evangélicos de direita não defendem isso. E aí, no caso do Pix, que, bom, todo mundo sabe, né? O Trump resolveu atacar o Pix dizendo que o Pix oferecia concorrência desleal contra os cartões de crédito americanos. A gente já falou aqui que isso é mentira. O Pix não é pago, o Pix não é uma empresa, o Pix é uma infraestrutura de pagamento. Bom, o que diz o Flávio? Ele diz o seguinte: "o Pix é legal, mas os Estados Unidos tem razão, que nós precisamos tomar alguma providências. Por exemplo, legislar que o Brasil não pode integrar o Pix a sistemas de pagamento não ocidentais". Não ocidentais, atualmente quer dizer China. Mas se a Europa quiser integrar o Pix, pode crer que esse não ocidentais vai virar não americanos em 15 dias. Bom, isso é uma proposta muito ruim para o Brasil. O Brasil perderia a chance de se tornar um centro de um sistema de pagamentos internacional, com todas as vantagens que adviria disso, e afastaria o Brasil do seu principal parceiro comercial, que são os chineses. Seria uma declaração de hostilidade brasileira aos chineses Porque uma coisa é você dizer assim: "a gente não tem que ser puxa-saco da China". Óbvio que não deve ser puxa-saco da China, mas a gente deve brigar com a China enquanto eles estão comprando tudo aqui? Obviamente não também, como também não deve brigar com os americanos gratuitamente. Mas o Flávio promete para o Trump que ele vai comprar uma briga gratuitamente contra os chineses. E ele promete, inclusive, baixar imposto das empresas de cartão de crédito que atuam no Brasil. Essas empresas injustiçadas que sofrem tanto com a miséria e enfim, estão sem dinheiro. E é bom sempre lembrar, baixar imposto quer dizer agravar a crise fiscal. Esse dinheiro que entrava de imposto de cartão de crédito...
Fernando de Barros e Silva: Sim...
Celso Rocha de Barros: Ou vai ter que aumentar imposto para algum outro brasileiro para pagar o que as empresas de cartão de crédito não vão pagar, ou ele vai ter que cortar programas sociais e outras coisas que o governo faz. O Flávio também propõe se livrar dos limites do Mercosul como Milei está se livrando. Isso aí é meio palhaçada. O Milei vive o dia inteiro falando que vai sair do Mercosul, mas não saiu até agora, até porque o Mercosul conseguiu um acordo com a União Europeia, que é cheio de problemas, está sendo negociado várias coisas ainda, enfim. Mas a Argentina jamais teria conseguido sozinha um acordo com a União Européia com termos tão favoráveis. Por isso que existe Mercosul, porque o acordo que o Mercosul consegue com esses grandes países, com esses grandes blocos, é melhor do que o que a Argentina, o Brasil, o Uruguai, enfim, conseguiriam sozinhos. O que seria equivalente aqui seria ficar xingando o Mercosul que nem o Milei fica o dia inteiro. Mas ele não diz que vai sair do Mercosul, o Flávio, mas ele dá a entender que o que ele quer mesmo é uma área de livre comércio com os Estados Unidos. Você pode ter várias opiniões sobre a área de comércio dos Estados Unidos, mas uma coisa é bom deixar claro: aquela proposta antiga da Alca que os Estados Unidos propunham, que já era bastante favorável aos Estados Unidos, isso aí já não está mais na mesa. Porque isso era na época do NAFTA, por exemplo. O Trump já matou o NAFTA. Trump está pedindo acordos absurdamente enviesados a favor dos Estados Unidos para todo mundo. Então, assim, o acordo de livre comércio dos Estados Unidos não seria de livre comércio do nosso ponto de vista. Eles poderiam vender tudo que eles querem aqui, mas ia ter certamente 1 milhão de restrições para a gente vender lá fora. Bom, o Flávio também fala do meio ambiente, aí cara, só para rir, né gente? Pelo amor de Deus! Assim, os Estados Unidos acusar o Brasil dizendo que vai botar a sanção comercial na gente por causa do meio ambiente... Donald Trump, cara, que acabou com toda a legislação ambiental americana, já é uma piada. Agora, Flávio Bolsonaro, filho do cara que levou o desmatamento da Amazônia a níveis recordes, desmontou completamente a política ambiental brasileira, muito mais do que o Trump está fazendo Estados Unidos, inclusive, eles virem agora dizer "não, realmente tem que fazer alguma coisa sobre isso". É simplesmente ridículo. Eu tenho seríssimas dúvidas se isso vai servir para ele fazer alguma coisa. Ele foi, basicamente, tentar apagar um incêndio, que foi aquela carta do Marco Rubio, secretário de Estado americano, em que ele deixa claro que o Flávio prometeu para ele uma comissão de transição caso o Flávio ganhe a eleição para negociar com os Estados Unidos. Se o Flávio foi eleito para, basicamente, dar o que o Estados Unidos quer. Então ficou claro ali que ele prometeu já coisas para o Marco Rubio, que ele não está contando pra gente. E ele foi lá agora nos EUA para tentar apagar esse incêndio.
Fernando de Barros e Silva: O que é por si só uma aberração.
Celso Rocha de Barros: Já é uma aberração.
Fernando de Barros e Silva: Tudo é uma aberração. Ele é.
Celso Rocha de Barros: Tudo é uma aberração. Isso é uma coisa que a gente precisa bater muito nessa tecla. Isso é completamente inédito na história brasileira. Nunca teve, em nenhuma época, um partido, um candidato que tenha pedido ajuda a uma superpotência para ganhar a eleição no Brasil. Isso, aliás, é raro ao redor do mundo, cara. Você tem que ir para um país muito esculhambado para você ver uma coisa desse tipo. O nível de degradação geral da política brasileira que acontece quando o bolsonarismo traz uma superpotência para intervir dentro da política interna brasileira é absolutamente bizarro. E, assim, o fato de que ainda tem militar que apoia isso, por exemplo, é absolutamente vergonhoso, né, cara? Ou você defende soberania nacional ou você apoia esse negócio aqui.
Fernando de Barros e Silva: Ele está atualizando a velha definição de lacaio do imperialismo, né? Como diria Leonel Brizola.
Celso Rocha de Barros: É, e ele tem uma dificuldade grande, cara, porque a concorrência do Milei é muito difícil.
Fernando de Barros e Silva: Sim.
Celso Rocha de Barros: Para você puxar mais o saco dos EUA do que o Milei.. Não lembro se foi o Sensacionalista ou foi o piauí Herald , não sei que depois da desclassificação dos EUA, falou: mas não tem problema que agora o Milei vai dar a seleção da Argentina para os Estados Unidos, né? Então, assim, para ele conseguir ser mais puxa saco do que o Milei, é complicado.
Fernando de Barros e Silva: A melhor cena da semana na Copa do Mundo é a dancinha do Lukaku imitando Donald Trump depois dos 4 a 1.
Celso Rocha de Barros: E eu não vi isso, rapaz.
Fernando de Barros e Silva: Sensacional. O Lukaku, de quem eu já gostava, agora virou meu ídolo.
Celso Rocha de Barros: Não sabia dessa. Vou procurar depois.
Fernando de Barros e Silva: Eu vi umas 50 vezes essa dancinha. Tô até fazendo aqui em casa. Então, vamos lá Ana. Para além de Flávio Bolsonaro, a relação do Brasil com os Estados Unidos que você apurou...
Ana Clara Costa: Bom, essa audiência pública que aconteceu, na qual o Flávio fez questão de estar presente, eu acho que vale a gente colocar aqui um pouco em perspectiva, que nunca o governo brasileiro participou de audiências públicas pessoalmente, quando há ou Seção 301, que é o caso agora, ou qualquer outra divergência comercial. Assim, o Itamaraty tem por prática padrão enviar cartas defendendo os pontos do Brasil. Mas não é um ambiente de tratativa de governo ou tratativa diplomática, que é uma das coisas e que o governo acha que é uma exposição desnecessária ir a esse tipo de audiência. E outra, porque o governo acha que local de audiência para técnicos do governo é a OMC não é uma audiência pública do USTR. Essas audiências públicas, elas são audiências em que setores da economia americana que se sentem prejudicados pelas importações brasileiras vão lá para defender os seus setores. E os setores brasileiros que estão fazendo essas exportações para os Estados Unidos, vão lá para defender os seus produtos. E aí os técnicos da USTR, que é o Departamento de Comércio, o órgão, na verdade, para o comércio nos Estados Unidos, eles avaliam o que vale, o que não vale. Então, é uma discussão técnica em que se produz um relatório. Então, não faz o menor sentido. E não existe precedente de uma politização dessas audiências públicas, como Flávio fez agora, indo até lá. E tanto que, em razão da presença dele lá, o governo destacou dois diplomatas para acompanharem a audiência pública, algo que nunca aconteceu, porque não é um papel de diplomacia ali. Para vocês terem uma ideia, assim, vão cooperativas de produtores rurais dizer que a carne brasileira tá pegando nosso mercado... E até uma fonte minha que estava presente lá essa semana me disse que num desses episódios dessa semana, o próprio técnico americano, quando ouviu de um produtor rural as queixas sobre a presença da JBS nos Estados Unidos, por exemplo, falou assim: "Ah, então tá. Então, por acaso vocês têm carne para alimentar todos os Estados Unidos para querer que a JBS não esteja aqui?". Então, assim, a discussão é muito, para não dizer baixo nível. É um nível muito local ali, né? Que vai a dona Mary ali do Kentucky, entendeu?
Celso Rocha de Barros: Grande Dona Mary.
Ana Clara Costa: Só pra gente entender assim a que ponto a gente chegou, assim, do Itamaraty ter que participar desse tipo de convescote para fazer frente a essa, essa palhaçada, para não dizer outra coisa do Flávio Bolsonaro ali, né? Então, é uma politização inédita desse evento. Uma outra coisa que eu queria dizer é eu acho que faz tempo que a gente não fala disso aqui, sobre como que estão essas tratativas do Brasil com os Estados Unidos na questão das tarifas e da Seção 301. Eu acho que a gente narrou isso ao longo de vários programas, né? Que as coisas avançaram em determinado momento. O encontro do Lula com o Trump na Malásia foi um marco, depois da visita de Estado do Lula aos Estados Unidos também trouxe avanço nas negociações, mas houve um momento em que a coisa degringolou e eu vou falar disso daqui a pouco. Mas antes eu quero dizer o seguinte: os Estados Unidos não dizem o que eles querem do Brasil. Você quer maior acesso ao mercado no caso das terras raras? Você quer o quê, né? Laranja? O que, para vocês, interessaria? Os Estados Unidos, eles falam: "não, façam vocês a proposta de vocês". Mas para o Brasil fazer uma proposta, ele precisa saber qual é o interesse, porque a nossa balança com os Estados Unidos é deficitária, né? Então, como a gente vai fazer uma proposta para dar ainda mais acesso a mercado a eles, entendeu? Essa discussão não tem lógica, já que eles continuam tendo superávit em relação ao Brasil. Então, assim, se eles querem maior acesso ao mercado, eles que têm que dizer exatamente o quê. Eles chegaram a dizer recentemente um ponto que talvez pudesse interessá-los. E, assim, é bem chocante vindo de uma turma que, em tese, deveria entender de comércio exterior. Eles queriam que o Brasil derrubasse o imposto de importação sobre os automóveis, porque a gente tem a alíquota máxima ali de 35% de importação sobre automóveis e eles queriam que o Brasil derrubasse. Aí o Brasil falou: "Tá bom, a gente pode negociar isso, mas se a gente derrubar, vocês vão quebrar, porque a China também vai ficar sem". Aí eles falaram: "Ah, não, mas a gente quer que você derrube só para os Estados Unidos, então tire o imposto". Só que isso, isso é inaceitável do ponto de vista da OMC.
Fernando de Barros e Silva: É um disparate.
Ana Clara Costa: E, obviamente, a negociação não avançou. Então tá nesse impasse em que eles não dizem o que eles querem e o Brasil está de mãos atadas, sem poder também oferecer qualquer coisa. Dado que a gente tem um déficit comercial, essa é a situação. E aí, conversando, enfim, com pessoas que estão por dentro desse assunto e estão circulando em Washington, o que eu ouvi é o seguinte: na verdade, os Estados Unidos não querem nada. O que eles querem é que o Lula perca. É isso, entendeu? A percepção lá dentro é : a gente não pode dar nenhum tipo de refresco para aliviar a vida deste governo. Então, se é Seção 301, vai ser. Se é tarifa, vai ser. Não existe vontade da parte deles de chegar a qualquer acordo. O Departamento de Estado está completamente contra qualquer tipo de diálogo com o Brasil nesse momento. E por que isso está acontecendo? O que aconteceu do começo do ano para cá, para a coisa ter degringolada a esse ponto? O que aconteceu não é Flávio Bolsonaro ter ido aos Estados Unidos. O que aconteceu foi com a vitória desses nomes da direita, entre o final do ano passado e o começo desse ano e mês passado na Colômbia, no caso, o que o Departamento de Estado está vendo e, por consequência, a Casa Branca também, é que a direita se fortaleceu muito na América Latina, o que é o interesse muito específico do Marco Rubio, diga-se de passagem. E que, dada essa evolução da direita na América Latina, por que o Brasil seria diferente? Por que a gente vai dar essa colher de chá para o Lula? Apesar de o Lula ter se mostrado forte quando houve o tarifaço no ano passado, é possível que ele caia também. É possível que ele não se reeleja e entre um candidato da direita. Então, assim, a questão regional pesou muito para os Estados Unidos mudarem essa postura deles em relação ao Brasil. E, há uma percepção em Washington de que eles vão fazer tudo o que for possível para prejudicar. O governo brasileiro está ciente disso e também deu uma desacelerada ali nas tentativas de diálogo com os Estados Unidos, porque o quadro está dado, o cenário está dado. O governo americano não quer que o Lula se reeleja. O governo americano acha que há a possibilidade de ele não se reeleger pelo exemplo latino americano. E o Flávio Bolsonaro é o candidato da vez, é que se mostra super submisso à Casa Branca e a tudo que acontece por lá. Então ele é oportuno, né? A existência dele é muito oportuna para os Estados Unidos nesse momento.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ótima explicação disso tudo. A gente conclui que a ideia de fundo do poço foi abolida do horizonte da política. Do mundo, né, eu acho. Do Brasil, especificamente. Não tem mais fundo de poço. A gente encerra o primeiro bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo e na volta vamos descer mais um pouquinho no fundo do poço falar desse sujeito Marcio Canella. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Tava querendo fazer um powerpoint sobre as conexões dessa corrupção das investigações no Rio. PowerPoint borgiano, infinito, né? Os pontos iam se ligando...
Celso Rocha de Barros: Tem que ser um troço 3D, todo...
Ana Clara Costa: Olha, nem 15 Claudes conseguiriam.
Celso Rocha de Barros: É, exatamente isso.
Celso Rocha de Barros: Esse aí não dá pra mim, não.
Ana Clara Costa: Essa aí você ferraria o algoritmo do Claude, eu acho.
Fernando de Barros e Silva: Situação é difícil... Vamos lá. Ana, você apurou coisas aí também a partir da prisão desse Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré candidato ao Senado, né?
Ana Clara Costa: Exato. Mas antes da gente chegar no Marcio Canella, Fernando, eu queria só fazer um mapa. Não é um PowerPoint. Eu não quero antagonizar aqui com os fazedores de PowerPoint deste Brasil.
Fernando de Barros e Silva: Olha, eu nem sabia que você tinha um mapa.
Ana Clara Costa: Mas só para nortear um pouco o nosso ouvinte, o ouvinte que não é tão versado sobre a política fluminense, que imagino que devam ser muitos deles.
Celso Rocha de Barros: Que é a esmagadora maioria da população do Rio de Janeiro, inclusive.
Ana Clara Costa: Exato. Exato.
Fernando de Barros e Silva: Ouvintes que preservam o mínimo de sanidade...
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Mantenha-se assim, ou vintes. Confia na Ana. Vamos lá, Ana. Mapa.
Ana Clara Costa: Bom, o que está acontecendo hoje no Rio é uma tentativa de tocar em figuras até então intocáveis. Por inúmeras razões, uma delas é porque elas estavam totalmente envolvidas com o grupo que governava o Brasil até 2022. E talvez essas figuras tivessem continuado intocáveis se o caso não tivesse subido para o Supremo por meio da ADPF das favelas. E o que essas operações têm em comum, essas operações que têm acontecido no Rio de Janeiro, é o fato de elas revelarem os elos que a gente sempre soube que existiam, mas a gente não tinha materialidade, que são os elos entre o poder público do Rio e o crime. E aí, vale dizer, todo tipo de crime milícia, tráfico, máfia dos cigarros, jogo do bicho...
Fernando de Barros e Silva: Gasolina.
Ana Clara Costa: Exato. Tudo que há de basilar, inclusive na política do Rio de Janeiro, porque é uma política que tem como base fundamental as organizações criminosas. Também vale a gente dizer que esse poder público é a base do ex-governador Cláudio Castro no estado. É a base do PL no estado. E é a base do bolsonarismo no estado. Porque todos os alvos, sem exceção, são aliados declarados do Jair Bolsonaro, defensores do Jair Bolsonaro e dos seus filhos, inclusive o Marcio Canella, nosso homem aqui, é pré-candidato ao Senado, tendo a Rogéria Bolsonaro como suplente. Rogéria Bolsonaro, que é a primeira mulher do Bolsonaro.
Celso Rocha de Barros: A mãe do Flávio.
Ana Clara Costa: A mãe do Flávio.
Celso Rocha de Barros: O Carlos Bolsonaro estreou na política com recurso na Justiça para poder concorrer a vereador, para tirar a mãe da Câmara de Vereadores, porque ela tinha parado de seguir as ordens do Bolsonaro na votação.
Ana Clara Costa: Pois é, essa família muito unida. Bom, e eu acho que para esclarecer um pouco para o nosso ouvinte, eu queria passear um pouco pelos alvos dessas operações nas últimas semanas e mostrar como é que eles se interligam. O primeiro a gente já falou aqui várias vezes, que é o Rodrigo Bacelar, do União Brasil, que era presidente da Alerj, até ele ser preso no ano passado e voltar a ser preso esse ano. E se ele não tivesse sido preso, ele poderia ser o governador do Rio de Janeiro neste momento. Prestem atenção nisso.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Mas ele foi preso para cumprir uma pré-condição para governar o Rio de Janeiro atualmente.
Celso Rocha de Barros: Porque, em geral, é depois, né? Primeiro ser governador, depois ser preso. Ele queimou etapas ali.
Ana Clara Costa: Ele foi preso, porque descobriu se que ele estava alertando o Comando Vermelho de investigações que estavam sendo feitas sobre o Comando Vermelho.
Celso Rocha de Barros: Mas fora isso...
Fernando de Barros e Silva: Fora isso, está tudo bem, né Celso?
Celso Rocha de Barros: Era isso mesmo.
Ana Clara Costa: Ele vazava informações sobre investigações, sobre operações que aconteceriam e tal, e a robustez das provas dessas operações sobre o Bacelar, que começaram no ano passado, resultaram inclusive num novo pedido de prisão preventiva nas últimas semanas. Bom, outro alvo dessa operação que aconteceu na semana passada, na verdade, foi o bicheiro, Adilsinho, que é um dos reis da contravenção que está preso desde fevereiro. E Adilsinho é hoje talvez o principal herdeiro da contravenção no Rio. E a certeza de impunidade dele era tanta que ele foi preso na própria casa, sendo que ele estava foragido há dois anos. Ele estava foragido dentro de casa, ou seja.
Celso Rocha de Barros: Não procuraram direito, né?
Ana Clara Costa: Ele estava na casa dele em Cabo Frio. Vocês talvez se lembrem bem do Adilsinho na época da pandemia, porque ele deu o que falar. Em maio de 2021, quando a Covid estava matando ali mais de mil pessoas por dia, ele deu uma festa de arromba no Copacabana Palace para comemorar 51 anos com o show do Gusttavo Lima, show da Ludmilla, presença de celebridades, presença de filhos de políticos, como por exemplo, a Duda Nogueira, empresária de sucesso, filha do Ciro Nogueira.
Celso Rocha de Barros: Opa!
Ana Clara Costa: Que é aquela que tem uma loja de motos que fatura milhões. Enfim, uma grande empreendedora Duda Nogueira. E ela tava na festa do Adilsinho, acabou vazando o convite para a festa e o convite para a festa era uma imagem que aludia ao Poderoso Chefão.
Celso Rocha de Barros: Oh, que beleza!
Ana Clara Costa: Outro alvo, Pastor Márcio Poncio, que é um pastor e empresário bolsonarista do ramo de cigarros. Só que não é qualquer cigarro. Segundo a investigação, ele, o Adilsinho e essa turma fazem parte da máfia dos cigarros no Rio de Janeiro. Na verdade, comandam a máfia dos cigarros. E é o que eles fazem? Eles acabaram, de certa forma, com a hegemonia do PCC e do Comando Vermelho na venda de cigarros do Paraguai no Rio. Eles, na verdade, substituíram a quadrilha porque esses cigarros falsificados eram vendidos, sobretudo na Baixada Fluminense e em comunidades. E aí, eles pegaram e decidiram que esse cigarro não seria mais vendido. Aí eles trouxeram os paraguaios para o Rio de Janeiro, abriram uma fábrica de cigarro ilegal na Baixada. Várias fábricas. E esses paraguaios passaram a fazer os cigarros paraguaios no Rio de Janeiro. Made in Duque de Caxias Paraguaios.
Fernando de Barros e Silva: Paraguaios made in Bajada. Cigarrilhos made in Bajada.
Ana Clara Costa: E aí, eles decretaram que a Baixada e as comunidades no Rio só poderiam vender cigarros produzidos por eles. E quem desobedecesse assim, ambulante, enfim, vendedor de bar e tudo mais, corria risco. Como a investigação mostra que várias pessoas foram assassinadas por vender cigarro paraguaio que não era o paraguaio deles. Então essa é a máfia do pastor com Adilsinho e uma turma ali de gente da melhor qualidade. Para vocês terem uma ideia, o pastor era chamado de pastor do cigarro.
Celso Rocha de Barros: Pastor do cigarro é sensacional.
Ana Clara Costa: É, e ele não negava não. Ele dizia que ele era mesmo.
Celso Rocha de Barros: No seu estado tem o pastor do cigarro?
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Ana Clara Costa: Quer outra? Ele tem autorização da Anvisa para operar. A fábrica de cigarro dele tem autorização da Anvisa. Tá lá Philip Morris, pastor do cigarro. Tá todo mundo na mesma lista. Bom, o pastor do cigarro tem uma filha que foi eleita deputada estadual no Rio de Janeiro pelo Solidariedade, chamada Sarah Poncio, que é uma jovem de 29 anos com milhões de seguidores nas redes, que prega ali Deus, Pátria, Família e tal. Conta que obrigou o namorado a votar no Bolsonaro em 2022 porque ele não tava querendo muito. E ela, Sarah Poncio, quando o Rodrigo Bacelar foi preso e a Alerj teve que votar, se autorizava a prisão dele ou não, porque como ele era um deputado a Alerj precisa chancelar a prisão, a Sarah Poncio, adivinha? Votou para não prenderem o Rodrigo Bacelar.
Celso Rocha de Barros: Olha só!
Ana Clara Costa: A família Poncio, que fabrica esses cigarros e faz parte da máfia do cigarro, segundo a investigação, eles devem 3 bilhões em impostos para o governo.
Celso Rocha de Barros: Rapaz...
Ana Clara Costa: O próximo da lista é o Marcio Canella, o nosso personagem.
Fernando de Barros e Silva: O Breno Pires, repórter da Piauí, até gravou um áudio para gente que a gente vai exibir daqui a pouco sobre esse novo capítulo da investigação.
Celso Rocha de Barros: Grande Breno!
Ana Clara Costa: Breno tem altas apurações. O Marcio Canella, que é ex-prefeito de Belford Roxo e que seria, a gente não sabe se vai se manter como candidato do Flávio ao Senado esse ano no Rio. Considerando que o Flávio não será mais senador, a vaga do Flávio basicamente seria do Márcio Canella. E a mãe dele, Rogéria, seria a sua suplente. O Márcio Canella é um ex-PM, né? Agora tá preso, porque foi pego com fuzil. Bendito fuzil porque talvez se ele não tivesse com fuzil não ia ter conseguido prender em flagrante e aí o cara ia ficar aí.
Celso Rocha de Barros: O cara, ia fugir, né?
Ana Clara Costa: No mínimo. E qual é a história do Márcio Canella? Bom, como eu falei, esse PM da Baixada Fluminense, a biografia já não precisa de mais muita coisa, né? Mas enfim, ele cresceu na política da Baixada, dando apoio ao Waguinho de Belford Roxo, que foi também prefeito de Belford Roxo, que hoje está no Republicanos e que também era do União Brasil, assim como o Márcio Canela. O Márcio Canella, ele foi vice do Waguinho quando ele foi prefeito. E eles sempre foram aliados, mas aí, por divergências políticas, eles acabaram rompendo. Uma dessas divergências políticas foi o fato de o Waguinho apoiar o Lula em 2022 e o Canella apoiar o Bolsonaro. Esse rompimento do Waguinho e do Canella na Baixada deu origem a uma guerra política em que várias pessoas foram assassinadas ali por questões de tráfico, de milícia. Vereadores, vereadores de Belford Roxo passaram a andar com carro blindado. Você teve corte de energia na Câmara de Vereadores e uma série de assassinatos e de crimes que nunca foram verdadeiramente investigados ali. Reportagens do jornal O Globo vêm documentando bem essa briga e como a vida da população de Belford Roxo foi afetada por apagão de serviços em razão dessa disputa de grupos que já não são mais grupos políticos, são grupos criminosos, aparentemente. No final dessa guerra, o Waguinho acabou saindo do União Brasil e indo para o Republicanos. E o Canella ficou na União Brasil e se fortaleceu com o apoio do Flávio e com o apoio do Antonio Rueda, presidente do União Brasil. Vale deixar claro que a gente não está falando de um santo e outro bandido. A gente está falando de Belford Roxo, uma das áreas mais perigosas da Baixada, dominada pelo crime organizado por agremiações evangélicas e pelo bolsonarismo. E mesmo o Waguinho pedindo voto para o Lula na eleição de 2022, o Bolsonaro ganhou em Belford Roxo. E a mulher dele, Daniela Carneiro, acabou se tornando ministra do Turismo do Lula, mas acabou sendo substituída porque o casal saiu do União Brasil e aquela vaga de ministro era para o partido União Brasil, aquele partido que não dava um voto para o governo no Congresso, mas tinha os seus ministérios. Esse é basicamente o quadro dos principais personagens dessas operações mais recentes. E o que eu acho que é mais importante de tudo isso, além das conexões do Marcio Canella, é o fato de que essas pessoas estariam governando o estado, não fosse essa ADPF das favelas.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Uau! Celso, depois desse PowerPoint da Ana Clara, o que te resta dizer?
Celso Rocha de Barros: Bom, já puxando do final do que a Ana Clara disse, é importantíssimo a gente lembrar que essas operações todas que estão desvendando os vínculos do crime organizado com a política do Rio de Janeiro só foram possíveis por causa da ADPF das favelas. O que é a ADPF das favelas? É uma Arguição de Descumprimento de Preceito fundamental proposta por um grupo de juristas ligados ao PSB, Partido Socialista Brasileiro, que entrou no noticiário como alvo de críticas de toda essa turma que está sendo presa, do Cláudio Castro, do Bacelar, todos esses bolsonaristas, porque eles diziam que a ADPF impossibilitava as operações em favelas. E por isso que ela ganhou esse apelido de "ADPF de favelas". Se vocês pegarem aquela operação lá do Alemão, matou um monte de gente, o Cláudio Castro estava lá dizendo "Não, não, é difícil fazer por causa da ADPF e tal". E muita gente comprou isso. Muita gente acreditou que a polícia não estava conseguindo combater o crime organizado por causa da ADPF das favelas. Mas na verdade, esses caras todos que estavam se pronunciando contra a ADPF das favelas, estavam com medo do fato que ela poderia servir para investigá-los, porque ela autorizava a investigação de autoridades vinculados ao crime organizado. E o mais interessante dessa história toda é que se você pegar todos esses caras que Ana Clara falou, eu te garanto que eles se elegeram com um discurso de linha dura na segurança pública, a começar pelo próprio Cláudio Castro. Esse era o plano do Bacelar, que teria sido o candidato do Flávio Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro se não tivesse sido preso. Esse era o que o Márcio Canella dizia. Se você mora no Rio de Janeiro, você talvez conheça o Márcio Canella. Ele usava todo o horário eleitoral gratuito do União Brasil aqui no Rio, passava no intervalo de jogo, intervalo de novela, intervalo do Jornal Nacional, com os comerciais dele dizendo: "Eu expulsei o crime das comunidades de Belford Roxo", não sei o quê. E o pessoal que mora no Rio já é tão calejado que quando você vê uma autoridade pública dizendo que expulsou uma facção, não passa.
Ana Clara Costa: Ela faz parte da outra.
Celso Rocha de Barros: Exato. Não passa pela sua cabeça que ele possa ser um servidor público abnegado que de fato implementou boas políticas públicas. Na hora você pensa: o cara é da facção rival.
Ana Clara Costa: E ele foi o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro em 2022, com 181 mil votos.
Fernando de Barros e Silva: O Canella.
Celso Rocha de Barros: E tá nesse centro dessa briga lá por Belford Roxo, que é importante. O Waguinho foi o único prefeito da Baixada que apoiou o Lula na última eleição. E numa eleição decidida por tão pouco voto, pode ter sido um apoio que ganhou alguma coisa para o Lula, porque mesmo o Lula perdendo em Belford Roxo, a perspectiva era de uma surra total na Baixada, onde esses bolsonaristas, todos enrolados no crime organizado, são absolutamente hegemônicos. Então, assim, o Flávio está diretamente envolvido no apoio ao Canella, em grande parte por causa disso, porque ele quer fechar a Baixada de novo, porque na última eleição houve uma rachadura nesse paredão do bolsonarismo na Baixada, com o apoio do Waguinho ao Lula.
Ana Clara Costa: Agora, eu vou antecipar uma apuração do Breno de que a ideia, a articulação toda, seria o Flávio ganhar, o Márcio Canella virar ministro e a Rogéria virar senadora.
Celso Rocha de Barros: Olha só que coisa maravilhosa, hein? Então prenderam agora o ministro Márcio Canella, que é a minha aposta e que seria ministro da Segurança Pública. Cravo, sem medo de errar, que se ele fosse ministro do governo Flávio, ele chegaria lá com o slogan "Tirei as barricadas de Belford Roxo" e viria ministro da Segurança Pública.
Fernando de Barros e Silva: Isso não está ainda sendo o Brasil que é, não está descartado ainda que o sujeito seja solto e possa...
Celso Rocha de Barros: Ah sim, ainda pode ser. Claro, exatamente. Agora você vê, não basta o Flávio brigar com a madrasta dele, ainda enfiou a mãe para ser suplente do cara ligado a miliciano da Baixada Fluminense. Realmente é uma família cheia de peculiaridades a família Bolsonaro. Bom, é triste, mas a gente ainda não tem certeza se a candidatura do Márcio Canella ao Senado morreu. Deve morrer. Mas é meio chocante que não seja automático que um cara que foi alvo dessa operação, que está preso por carregar um fuzil ilegalmente, não possa ser senador pelo Rio. Mas na hipótese mais provável que ele deixar de ser candidato, isso cria uma briga grande na escolha de quem vai ser o candidato do Flávio ao Senado no Rio de Janeiro. Porque você tem uma briga entre vários aliados aqui do bolsonarismo. O Rio de Janeiro é cheio de bolsonaristas. Então você tem, por um lado, o Carlos Portinho, que é atualmente senador e que assumiu como suplente depois da morte do Haroldo de Oliveira, que foi eleito em 2018. E é um cara que entrou como suplente, então ele tem uma base política mais tradicional ali, de política mais padrão. Os bolsonaristas mais raiz querem o Carlos Jordy, que é um desses caras aí, quem acompanha bolsonarismo na política nacional, conhece ele. É um dos caras mais radicais do bolsonarismo, próximo do Eduardo e do Carluxo, etc. E enquanto o Flávio não decide isso, fica uma pequena suspeita de que o Flávio ainda está com medo de não conseguir ser candidato a presidente, pode vir a ser candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, que é improvável. Ninguém acha que isso vai acontecer, mas os aliados dele no Rio de Janeiro já começam a pensar "Não era já para ele ter escolhido esse cara? Não era para ele ter já batido o martelo de quem vai ser o candidato ao Senado aqui? Por que que ele tá demorando tanto para isso?". Entendeu?
Fernando de Barros e Silva: A Convenção Nacional do PL, se não me engano, é dia 25 agora, de julho.
Celso Rocha de Barros: Pois é.
Fernando de Barros e Silva: Quer dizer, depois da convenção ainda tem um período que você pode até mudar, mas a convenção é o momento em que a coisa se oficializa, né? Não perante a Justiça Eleitoral, mas se oficializa politicamente. Daí você só tem que ratificar depois na Justiça Eleitoral. Vamos ouvir então o que diz o Breno, que andou apurando coisas a respeito da prisão do Márcio Canella.
Celso Rocha de Barros: Saudações, Fernando, Ana, Celso e pessoal do Foro! A Operação Unha e Carne talvez seja a melhor janela já aberta para entender como funciona o sistema de poder no Rio de Janeiro. Poucas investigações tiveram um raio de alcance tão amplo no Rio. As operações mostram que deputados estaduais nomeavam delegados, comandantes de batalhão, dirigentes do Detran e outros cargos estratégicos. Um caso de destaque é o do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, ligado à milícia. Investigadores veem nele um caso modelo por reunir vários elementos desse sistema no Rio: poder político, lavagem de dinheiro, ocupação da máquina pública e influência eleitoral. O processo está sob sigilo, mas nós apuramos uma informação inédita que emendas parlamentares foram usadas no esquema de lavagem de dinheiro, que somou 7,6 bilhões de reais em postos de combustível. Segundo a PF, organizações sociais, ONGs, recebiam emendas, sacavam dinheiro em espécie e entregavam valores a postos de combustível ligados a laranjas de Canella. Outro dado simbólico é a prisão do ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Marcos Amim, apadrinhado por Canella Ou seja, o comando da corporação responsável por investigar o crime organizado estava comprometido com o crime organizado. Mas talvez a peça mais sensível da investigação seja a chamada lista do Adilsinho, o bicheiro mais violento do Rio. Na verdade, são três listas de propina do Jogo do bicho apreendidas pela PF. A primeira reúne policiais da ativa e aposentados, tanto da Polícia Civil quanto da militar, de diferentes hierarquias. A investigação descreve, inclusive, que dentro de algumas delegacias, o rateio da propina tinha um nome "Ratatá". A segunda, relaciona quatro partidos e diretórios partidários mantidos em sigilo até agora. E a terceira, traz 28 políticos, segundo apuramos. Os nomes ficarão em sigilo por um bom tempo, por decisão do ministro Alexandre de Moraes. Mas um deles é conhecido, o governador Cláudio Castro. Seu nome é um dos 28 políticos na lista de Adilsinho. Castro não é investigado na Unha e Carne, mas em outra frente da Missão Redentor, relacionada ao RioPrevidência, Caso Master. Como a PF já acessou o conteúdo de seu celular, investigadores trabalham com a possibilidade de conexões entre os casos. Como ele, ainda tem mais gente que pode aparecer. Depois de divulgar as decisões das primeiras fases da Operação Unha e Carne, o ministro Alexandre de Moraes determinou o sigilo total, dada a sensibilidade. Em suma, essas investigações em andamento no Rio são muito maiores do que um caso de corrupção. A hipótese dos investigadores é que, durante anos, o crime organizado não apenas conseguiu corromper agentes públicos do Rio, mas tomar conta de parte da própria estrutura do Estado. Retirar o crime das entranhas do sistema no Rio é um desafio gigante para a operação Unha e Carne.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Depois dessa participação do Breno, a gente agradece muito. E eu vou encerrar então esse segundo bloco do programa. Vamos ao fundo do poço internacional agora para o terceiro bloco. A gente faz um rápido intervalo e fala do retorno da guerra no Irã. Vamos falar de Donald Trump. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. O cessar-fogo, que foi um cessar-fogo mais ou menos, ficou para trás já.
Celso Rocha de Barros: É isso mesmo, Fernando. A gente não sabe até onde vão as hostilidades, mas o cessar-fogo morreu. Já era um cessar-fogo bem precário. Porque se vocês pensaram mem, isso é uma guerra dos Estados Unidos aliada Israel contra o Irã e esses grupos que o Irã apoia em outros países, como Hezbollah, enfim, Hezbollah, no Líbano. E o cessar-fogo já começou mambembe, porque Israel não entrou. Israel continuou a sua guerra no Líbano contra os aliados do Irã. Então o Irã já não estava levando muito a sério isso, porque falou "Cara, vocês não estão me entregando o cessar-fogo". Então, desde o início o cessar-fogo já estava com cara de que era uma questão de semanas para ele ir para o buraco. Só não se sabia se ia ser duas semanas, três semanas, dez semanas. Enfim, não deu nem quatro semanas direito. Ele foi tendo cada vez mais buracos nesse muro, até o ponto em que o negócio desmoronou porque não tinha mais sustentação, não tinha mais nem por que continuar fingindo que existia um cessar-fogo. E qual é a grande, o grande impasse aqui? O Irã conseguiu bloquear o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos não estão oferecendo muito o que interessa para o Irã, para o Irã desbloquear o Estreito de Ormuz. E até que isso aconteça, seja os Estados Unidos oferecer pelo menos uma proposta crível de que não vai mais bombardear o Irã, nem Israel vai bombardea o Hezbollah, nem nada. Até que isso aconteça, o Irã não tem muito estímulo também para mudar a configuração estratégica de um conflito que ele está levando a melhor até agora. Não dá para dizer que o Irã ganhou a guerra porque a guerra não acabou. E, obviamente, se os Estados Unidos resolver entrar com tudo e mandar tropas a coisa toda, os EUA vai ganhar a guerra. Mas do jeito que a coisa está, não vai. A coisa está bem mais complicada. Eu conversei com o Maurício Santoro, que é especialista em relações internacionais, para entender justamente isso. Como é que o Irã conseguiu bloquear os Estreito de Ormuz? Porque, a princípio, a primeira coisa que me ocorre é por que o Trump simplesmente não bombardeou absolutamente tudo que o Irã tem em volta dos Estreito de Ormuz e abriuo Estreito de Ormuz? Por que a marinha americana não conseguiu simplesmente destroçar completamente todo poder naval iraniano? E o Maurício me explicou o seguinte: o Irã já está em conflito com os Estados Unidos há muitos anos, já se prepara para uma possível invasão dos Estados Unidos há muitos anos. Assim, se você é um oficial iraniano, o exercício que você vai estudar na escola é: o que fazer se os Estados Unidos invadirem a gente? Eles desenvolveram uma estratégia de guerra barata que pode ser implementada no Estreito de Ormuz. Desenvolveram a estratégia em caso eles venham para cima da gente, a gente fecha o Estreito de Ormuz, que é, número um. Vamos lá. Estreito, certo? E, além disso, é raso. Então, o pedaço do Estreito, que de fato é navegável por grandes navios, é pequeno. Como é uma área pequena, o Irã consegue bloquear inclusive por terra, atirando mísseis da terra. Mesmo os Estados Unidos conseguisse destruir completamente a marinha deles. E finalmente, o Irã investiu muito numa marinha barata e adequada a esse tipo de operação. Lanchas que lançam mísseis que não é o suficiente se você quiser afundar o porta avião americano. Mas não é isso que você quer fazer. Você só quer ficar ali atacando navios que eventualmente tentem atravessar o Estreito de Ormuz sem você autorizar. Então ou os Estados Unidos mobiliza permanentemente a sua marinha no Estreito de Ormuz para escoltar todo mundo que queira passar para um lado para o outro, o que seria um golpe duríssimo na capacidade dos Estados Unidos levar a guerra para outros lugares do mundo, que é um dos grandes diferenciais do poderio militar americano. Ele tem porta avião, tem base em tudo que é lugar, mas também seria caríssimo, né? Eu perguntei pro Maurício: mas não tem como os Estados Unidos simplesmente destruir toda essa estrutura do Irã? Bom, é possível eventualmente que eles consigam fazer, mas para fazer isso definitivamente, no curto prazo, eles teriam que desembarcar tropas. E é isso que o Trump não quer fazer de jeito nenhum. Ele se elegeu dizendo que ele não ia mais levar os Estados Unidos para a guerra em país que ninguém sabe o que é e que você vai lá depois tentar construir uma democracia para os caras. O Trump não se interessa com democracia nem nos Estados Unidos, quanto mais em outro lugar. Então, o que ele prometeu foi: "Eu não vou ficar enfiando tropa americana em qualquer lugar que depois a gente não sabe como tirar. Uma das coisas que o Trump se elegeu foi dizendo que não ia fazer isso. E é exatamente isso que ele está fazendo. Ele fez exatamente o que ele acusou os adversários dele de fazer. Ele começou uma guerra que ele não sabe terminar.
Ana Clara Costa: Agora tem uma coisa que o próprio Irã fez também depois do início dos bombardeios, que foi se apossar de fato do Estreito, porque era algo que eles não tinham se apossado tanto anteriormente. E eu acho que isso também não era algo que os Estados Unidos estavam esperando que acontecesse, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. E agora que o Irã se apossou, ele tá falando "cara, por que que eu vou devolver isso aqui também? Eu posso cobrar pedágio aqui o resto da vida, entendeu? Posso, inclusive, ganhar dinheiro com isso". Então, assim, os Estados Unidos precisa fazer uma jogada nesse xadrez que crie incentivos para o Irã parar de fazer isso, que tá funcionando e tá dando dinheiro para ele. E os Estados Unidos não está conseguindo fazer isso. Obviamente, o que eu disse se os Estados Unidos mobilizar todo o seu poder militar para tentar desbloquear o Estreito de Ormuz, vai desbloquear de um jeito ou de outro, mesmo que matando milhões de pessoas. Enfim, mas desbloqueia, mas seria caríssimo, o Estado teria que tirar tropas de outros lugares do mundo que ele não quer tirar, então seria um negócio muito custoso para os americanos.
Fernando de Barros e Silva: Tem um custo político muito alto.
Celso Rocha de Barros: E um custo político muito alto, especialmente se tiver que mandar tropas. E uma outra coisa que o Maurício me alertou é o seguinte. Guerra sempre tem um elemento surpresa. Você não sabe exatamente que armas o adversário tem, né? E o fato é que o Irã conseguiu atingir a base americana de Diego Garcia no Oceano Índico. Se vocês olharem no mapa onde é Diego Garcia, é muito no meio do nada, é bem longe. Então, se você simplesmente projetar essa distância para cima, o Irã já tem míssil que acertaria o sul da Europa. Isso era uma coisa que ninguém tinha muita certeza se isso já estava disponível para eles em grandes quantidades, até eles começar a brincar de atirar em base americana no meio do Oceano Índico. E há uma outra coisa, aparentemente a mira dos iranianos melhorou bastante desde o começo da guerra, o que faz com que os americanos suspeitem que a China está ajudando eles com GPS, com sistema de orientação de armas ou qualquer coisa desse tipo.
Fernando de Barros e Silva: Interessante.
Celso Rocha de Barros: Então, assim, o Trump de fato se enfiou num buraco que ele não sabe sair, entendeu? Porque novamente, se ele virar para os americanos e falar: "gente, olha só, tudo bem, eu cortei imposto de todo mundo, vou ter que subir de novo, porque eu vou ter que pagar agora uma guerra cara pra cacete pra gente ir lá derrotar o Irã". Se ele fizer isso e se ele mobilizar todo o poder de guerra Estados Unidos, ele pode conseguir. Mas os americanos vão topar isso? E enquanto isso, o preço do petróleo vai subir. A gente ficou falando no primeiro bloco da interferência direta do Trump na eleição brasileira, com essas coisas de tarifa e tal.
Ana Clara Costa: Agora ele está com um problema maior.
Celso Rocha de Barros: Não, não. Mas por outro lado, tem uma influencia indireta que ele tá tendo na eleição brasileira, que pode ser até pior para o Lula, que ele está aumentando o preço do petróleo no mundo. Então aquele subsídio ao diesel que o governo fez e que estava pensando em tirar, talvez não dê mais para tirar. Os planos todos da equipe econômica ficam mais difíceis, do Banco Central, inclusive, porque o preço provavelmente vai impactar na inflação. Então, assim, é um negócio que tem consequências para o mundo inteiro e é difícil imaginar uma saída para isso que não seja uma versão um pouco melhor desse cessar-fogo mambembe que teve.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana, deixa eu te ouvir então.
Ana Clara Costa: Bom, uma coisa que a gente falou aqui, Fernando, quando os Estados Unidos atacaram o Irã e foi algo que eu ouvi de muitos analistas de política externa, foi que o Trump imaginava, vislumbrava aplicar o modelo Delcy no Irã. O que ele fez na Venezuela. Então você saca o regime vigente, deixa alguém ali que pode ter a intenção de compor com você. E aí a gente não está falando de democracia, pode ser alguém do regime, a manutenção do regime, enfim, não é um problema. E aí essas pessoas vão fazer o serviço. Você não vai precisar colocar tropa. E foi o que aconteceu na Venezuela. E ele achava, segundo essa avaliação geral de quem acompanha o tema, que talvez isso funcionasse no Irã também. Não aconteceu. E eu acho que o funeral do Ali Khamenei, que aconteceu nesses últimos dias, apesar dele ter morrido no início do ano, o funeral foi só agora. É um emblema de como o regime ainda é forte e talvez tenha se fortalecido mais nesses meses de guerra, justamente em razão da guerra. Então, se o objetivo do Trump era enfraquecer o regime, esse objetivo não foi alcançado. O Trump criou um problema que não havia, que é justamente a questão do Estreito, né? Então, outra derrota do Trump em relação a isso. Aí tem a relação com Israel. É muito difícil dizer quem é mais submisso a quem nessa relação maluca entre o Trump e o Netanyahu, né? Mas havia ali um alinhamento inegável entre eles sobre o que fazer com o Irã, sobre como lotear o território iraniano, como lotear o Oriente Médio em favor dos interesses deles. E isso começou a se desfazer nesses últimos meses, porque Israel quer, de toda forma, que o Irã seja ocupado, que o regime caia e que Israel inclusive possa ocupar o Irã e que o Hezbollah seja aniquilado. E que o Líbano... Eles querem, na verdade, enfim, hegemonia total na região. E aí, como o Trump não está entregando isso para Israel, a relação entre eles também está enfrentando algumas turbulências. O site Axios, o site americano de notícias, revelou um diálogo que o Trump teria tido com Netanyahu, em que ele chama o Netanyahu de louco, em que ele diz para o Netanyahu que ele iria para a prisão se não fosse o Trump. Ele fala a frase "I'm saving your ass", ou seja, eu to te salvando, de uma forma chula. Ele fala, né?
Celso Rocha de Barros: Olha, tudo verdade gente, posso falar mal do Trump sobre muita coisa, mas nesse caso aí...
Ana Clara Costa: Então, assim, a relação entre eles tá super estremecida. E segundo o podcast The Daily, no episódio publicado em 24 de junho, eles relatam que um canal de TV israelense, em um determinado programa, os comentaristas se referem ao Jared Kushner, genro do Trump, e ao Steve Witkoff, enviado do Trump para o Oriente Médio, e que ajudaram ali, informalmente, a costurar esse cessar-fogo que depois acabou caindo por terra. Eles estavam sendo chamados de judeus de forma pejorativa na TV israelense, como se isso fosse um xingamento, porque eles estavam ajudando a costurar um acordo. Então eles se referiam a eles com uma gíria anti-semita para judeu na própria TV israelense, israelenses falando. Então, a situação é muito bizarra, né?
Celso Rocha de Barros: E a gente falando mal da política do Rio, né?
Fernando de Barros e Silva: Exato. Exato.
Ana Clara Costa: Pois é. Então, a sobrevivência do regime é uma vitória do Irã. A ocupação do Estreito, é uma vitória do Irã. A dependência do Trump em relação ao petróleo, que é controlado em parte pelo Estreito, é muito grande. Eles têm esse ano eleição as mid terms, as eleições para a Câmara e para o Senado, em que o Partido Republicano pode perder tanto a Câmara quanto o Senado. É possível que isso aconteça. E o preço do petróleo? Enfim, a gente sabe. Já falou aqui várias vezes o quanto que o Trump é sensível a inflação. Ele se movimenta muito ao sabor desses indicadores e o aumento do preço do petróleo pode impactar diretamente na inflação. Então, ele está politicamente muito preso nessa situação. Ele não tem muito pra onde ir, ele não pode colocar as tropas lá porque isso é altamente impopular dentro do eleitorado dele. Então o que aconteceu foi que o Irã, mesmo sem todo esse aparato bélico que os EUA têm, que Israel tem, ele conseguiu virar essa guerra em favor dele. E vamos supor que os Estados Unidos consigam nos próximos meses, não sei, um desdobramento positivo. O que seria esse desdobramento positivo? Reabrir o Estreito, que é algo que já estava aberto de antes, ou seja, não é uma vitória. Você só está recuperando o que já existia antes. Você pode conseguir algum tipo de concessão do Irã em relação ao programa nuclear, que era algo que também já existia antes, que o Irã só passou a descumprir depois que os Estados Unidos saíram do acordo, já no governo Trump, que era na verdade o acordo do Obama. Ou seja, um dos desdobramentos positivos seria voltar para o acordo do Obama, que seria uma humilhação para o Trump. E uma outra questão seria, vamos supor que eles consigam derrubar o regime e, enfim, aniquilar tudo ali. Eles teriam que gastar bilhões e bilhões de dólares na reconstrução do Irã.
Fernando de Barros e Silva: É, isso tá meio fora de cogitação, eu acho.
Celso Rocha de Barros: Eu não sei não.
Ana Clara Costa: Mas assim, falando do que poderia ser positivo para eles, não existe nada que não seja.
Celso Rocha de Barros: É difícil uma saída.
Ana Clara Costa: Exato.
Celso Rocha de Barros: O negócio que ele bolou.
Fernando de Barros e Silva: O Irã não é o Gianni Infantino. Não adianta. O Gianni Infantino é o presidente da FIFA. Desculpa Ana Clara por fazer isso.
Ana Clara Costa: Obrigada pelo disclaimer. Eu não conheço essas figuras. Tô brincando.
Fernando de Barros e Silva: É que o Trump passou a mão no telefone e ligou para o Gianni Infantino para que ele anulasse a punição de um jogador dos Estados Unidos que tinha levado cartão vermelho no jogo contra a Bósnia. O juiz era brasileiro e o Trump disse que o juiz é um pouco suspeito. O Klaus, brasileiro.
Celso Rocha de Barros: Lei Magnistky contra o Klaus.
Fernando de Barros e Silva: Magnistky no Klaus. Exato. Magnistky no Klaus, né?
Celso Rocha de Barros: É sempre bom lembrar que a FIFA criou o Prêmio FIFA da Paz só para dar para o Trump.
Fernando de Barros e Silva: Para dar para o Trump.
Ana Clara Costa: Não só para dizer, gente. As pessoas vão achar que eu sou alienada. Óbvio que eu sei que tudo isso aconteceu. Só não associava o nome que o Fernando disse à FIFA porque eu não lembrava o nome do presidente da FIFA.
Celso Rocha de Barros: Faz muito bem em não lembrar.
Ana Clara Costa: Mas eu sei de toda a história. Tô informada, tô informada.
Fernando de Barros e Silva: Não, mas é até frívolo falar disso diante da guerra do Irã. Mas é que esse esse capítulo é vexatório, né? Bom, então a gente encerra o terceiro bloco do programa. Vamos para um rápido intervalo e na volta Kinder Ovo. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Diretora Mari Faria, Vamos ver o que você reservou para nosotros. Pode soltar o Kinder.
Sonora: E já que estamos em Copa do Mundo, vamos falar esses termos que falam no meio do futebol: manter a nossa torcida aquecida, o nosso time entrosado. E eu acredito que o meu nome tenha causado esse impacto positivo na nossa base.
Celso Rocha de Barros: Carol de Toni.
Fernando de Barros e Silva: Caraca!
Celso Rocha de Barros: É aquela de Brasília?
Ana Clara Costa: A Priscilla Costa? Não, não pelo sotaque, não poderia ser.
Fernando de Barros e Silva: Não vale ver no computador, Celso.
Celso Rocha de Barros: É, como é que é o nome? Aquela amiga da Michelle lá, que é de Brasília?
Ana Clara Costa: Bia Kicis? Não.
Fernando de Barros e Silva: Não, a Damares não também.
Sonora: Aqui entrou no lugar do Ivani.
Ana Clara Costa: Ah, Celina Leão. Não, não é a voz dela.
Celso Rocha de Barros: Rosângela Moro?
Ana Clara Costa: Não, não.
Fernando de Barros e Silva: Mari Faria... A deputada federal Júlia Zanatta, do PL.
Ana Clara Costa: Eu já acertei a Júlia Zanatta. Que raiva! É que eu não achei que ela está com sotaque catarinense, por isso eu nem pensei nela.
Fernando de Barros e Silva: Nossa equipe não estava muito aquecida para esse Kinder Ovo. Ao contrário da Júlia Zanatta e da Seleção Brasileira, a gente não tá muito bom. Nem a Seleção brasileira tá muito aquecida aqui. Puta que pariu. Eu queria fazer um bloco só para falar mal do Neymar, mas Ana Clara vetou bloco sobre futebol. Bom, depois deste Kinder ovo humilhante, perdemos para a Julia Zanatta. Vamos encerrando o Kinder Ovo e vamos para o Correio Elegante, o momento das cartinhas, o momento de vocês, o melhor momento do programa. E eu já vou começar a ler o recado de vocês. O Lucas, que é só Lucas mesmo, sem sobrenome, postou o seguinte: "Estava com preguiça de arrumar a casa, quando vejo que lançou Foro, já animo. Obrigado por me fazerem companhia todas as sextas na limpeza e organização da casa. A minha esposa agradece". É isso aí, Lucas. Manda bala aí na...
Ana Clara Costa: Olha, a gente ajudando ele a manter o casamento, hein?
Celso Rocha de Barros: Olha só, hein? Isso aí.
Fernando de Barros e Silva: Esfregão na mão e Fogo na cabeça.
Celso Rocha de Barros: Isso aí. Exatamente.
Ana Clara Costa: A Patrícia Faria de Jesus, escreveu: "Celso para presidente, Ana para vice, Fernando para a Casa Civil. João Batista para o Ministério da Comunicação. Pronto. O governo dos sonhos".
Celso Rocha de Barros: Excelente!
Fernando de Barros e Silva: Olha, eu na Casa Civil. Não sei se vai ficar...
Celso Rocha de Barros: Eu ainda tô articulando aqui a Ana Clara para governadora do Rio. Mas calma aí, é cedo para anunciar.
Fernando de Barros e Silva: Quero o Ministério da Pesca, não Casa Civil.
Ana Clara Costa: Eu quero a embaixada de... Nova York.
Celso Rocha de Barros: Pô, embaixada é bom né?
Ana Clara Costa: Não, eu quero embaixada de..
Celso Rocha de Barros: Maldivas, né? Uma coisa dessas.
Ana Clara Costa: É uma embaixada boa.A Croácia, a Grécia.
Celso Rocha de Barros: Ô... Aí sim!
Fernando de Barros e Silva: Muito bom!
Sonora: O Rui Moura nos escreveu: "A extrema-direita brasileira é uma espécie de Emirados Unidos da Tijuca. Não que a Portuguesa seja melhor". A extrema direita portuguesa. "Saudações desse português laico e republicano que vos ouve religiosamente do outro lado do mar. Abraços a toda a equipa. Vocês são excelentes". Rui, que legal sua mensagem. Um abraço para você e um abraço para todo mundo aí em Portugal que ouve o Foro.
Fernando de Barros e Silva: Abraço, Rui.
Ana Clara Costa: Rui, obrigada por ouvir a gente.
Fernando de Barros e Silva: Que mensagem simpática, muito legal!
Ana Clara Costa: Nós temos muitos ouvintes portugueses, tá? Eu já...
Fernando de Barros e Silva: Isso é incrível.
Celso Rocha de Barros: Muito legal mesmo.
Ana Clara Costa: Mas ouvintes portugueses mesmo, não brasileiros em Portugal. Também temos.
Sonora: Mas muito legal!
Fernando de Barros e Silva: Eu adorei a equipa, vou falar só equipa daqui para frente.
Celso Rocha de Barros: Adorei a equipa! Equipa é muito bom. Equipa é mais legal que a equipe.
Fernando de Barros e Silva: É mais legal que a equipe. Bom, nossa equipa está muito bem, mas o programa de hoje vai se encerrando por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir dar Five Stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitsky. A edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no estúdio do Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Tchau, amigos. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!