questões cinematográficas
Jul 2011 09h12
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Na cerimônia de posse da nova diretora da Ancine – Vera Zaverucha –, realizada segunda-feira (11/7), o diretor-presidente da agência destacou “o bom momento vivido pelo cinema brasileiro, que cresce no número de filmes, no volume de recursos investidos e na sua visibilidade pelo público, que prestigia cada vez mais os filmes nacionais”.
Aceitos os pressupostos que a fundamentam, a afirmação pode até ser verdadeira. Mas para quem não considera que sejam esses os parâmetros corretos para avaliar a situação atual do cinema brasileiro, a afirmação parecerá meramente retórica, típica de eventos políticos.
Se tentarmos pensar no cinema de um ângulo menos paroquial, talvez algumas afirmações publicadas esta semana nos jornais possam servir de referência.
Quem escreveu isso não fui eu, naturalmente. Foi Joseph E. Stiglitz, prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Columbia (O Globo, 12 de julho).
A grande dúvida é sempre como a crise externa vai bater em nós; e se vai. A pergunta deve ser feita sempre, para que o país saiba se fortalecer. […] Não há bons cenários. Haverá moratória de alguns países, e o projeto político da moeda comum está em xeque. A crise é deles e dos Estados Unidos, mas o mundo está todo ligado.
Quem escreveu isso também não fui eu, naturalmente. Foi Miriam Leitão na coluna “Panorama Econômico” (O Globo, 13 de julho).
A alternativa asiática de desenvolvimento é representada por valores compartilhados pelo governo e pelos cidadãos. O consenso de Pequim, baseado no apoio familiar, na edificação da nação e no governo central que interage com a população é a alternativa ao sistema ocidental, fundado no individualismo, no consumismo e no equilíbrio entre grupos de interesse.
Isso também não fui eu que escrevi, naturalmente. Foi Rubens Barbosa, diplomata aposentado, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, citando o economista Ping Chen (O Globo, 12 de julho).
O Brasil estaria imune a essas turbulências? O cinema brasileiro, por sua vez, estaria florescendo numa ilha de prosperidade? Na virada da década de 1960 para a de 70, a propaganda do regime militar procurou convencer os brasileiros de que o país era uma “ilha de tranquilidade”. A história estaria se repetindo?
Na sexta-feira passada, foi anunciado o cancelamento da edição 2011 do seminário Doc’s Kingdom, realizado anualmente em Serpa (Portugal) desde 2000, promovido pela Associação pelo documentário – Apordoc, tendo à frente José Manuel Costa. No comunicado em que dá conta do cancelamento, José Manuel lamenta anunciar “que, não estando asseguradas as condições mínimas que garantam a identidade do encontro, o Doc’s Kingdom não será realizado. Em vez disso, e em face da situação criada, optamos por reunir esforços para uma reformulação do seminário em 2012 num lugar e em moldes que preservem o seu caráter. A equipe que tem levado a cabo a iniciativa está assim empenhada em anunciar o mais rapidamente possível essa próxima edição, mantendo e desenvolvendo o que para nós é essencial: uma experiência coletiva, informal e cumulativa, baseada em três vertentes inseparáveis, que são os visionamentos, os debates em torno dos filmes na presença dos cineastas, e o encontro e partilha de ideias na sua expressão mais lata.”
Enquanto isso, aqui no Brasil, festivais se multiplicam. E a burocracia emperra o andamento dos projetos.
O cinema acabou. O que fazer?
Quem afirma e pergunta não sou eu, naturalmente. É Jean-Luc Godard, que repete a sentença que vem proclamando há 30 anos no artigo de Fiachra Gibbons, publicado terça-feira (12/7) no Guardian a propósito do lançamento de “Filme socialismo”.
A solução godardiana é simplória, mas deve ser entendida como uma ironia contraditória. Crítico do conceito de direito autoral, Godard ri da sua própria ideia. A crise financeira da Europa, segundo ele, poderia ser resolvida se fosse preciso pagar 10 euros cada vez que usássemos a palavra ‘portanto’, base da lógica aristotélica. Essa seria, para ele, a forma de resgatarmos nossa dívida com os gregos e livrá-los da fundura em que se meteram.
Fiachra Gibbons descreve Godard como “parecendo ter sido devorado pelo mito”:
Sentado diante de mim em um apartamento parisiense, usando uma camiseta tão apertada que lhe dá o ar de um buda hirsuto de óculos, despertado do seu cochilo vespertino, é tão mais humano, tão mais infantil do que a lenda. Ele tem um ligeiro ceceio. Ele é brincalhão e paciente. Ele tenta responder perguntas que outros considerariam um insulto. Ele faz sentido, a maior parte do tempo.
Para Godard, “já acreditamos que éramos autores mas não éramos. Não tínhamos nenhuma ideia, na verdade. O cinema acabou. É triste que ninguém o esteja realmente explorando. Mas o que fazer? E, de qualquer modo, com telefones celulares e tudo, todo mundo agora é um autor”.
Fiachra Gibbons tenta sem sucesso induzir Godard a responder à afirmação de Alain Fleisher de que quem se opõe à existência de Israel é antissemita (ver post “Godard antissemita? 5): “O homem disse isso, mas o homem e a obra são coisas muito diferentes.” Gibbons pergunta se isso quer dizer que “o homem pode ser antissemita e a obra não ser, mas Godard abana as mãos. ‘Não, não! É tudo ridículo’”.
Ao se despedir, Gibbons ganhou um roteiro de Godard com uma dedicatória: “ao guardian da cinematografia.” Comovido, mas triste por ver um grande pioneiro do cinema se fazer de camelô dos seus próprios projetos, Gibbons se pergunta se deveria, ele mesmo, filmar o roteiro que acabara de ganhar, chamado “Adeus à linguagem”, já que “copyright e direito de autor não tem mais nenhum sentido para Godard.”
“O roteiro”, escreve Gibbons, “é sobre um casal e um cachorro, e a vida e morte e tudo mais, embora o cachorro seja a verdadeira estrela. Sim, talvez eu devesse fazer o filme. Mas será que o mundo já está preparado para Lassie: A busca por finalidade de um cachorro em um universo existencial? Ou, mais doido ainda, um filme de Godard com um final feliz?”
No encerramento da sua brilhante palestra de abertura da Flip, dia 6, falando depois de Antonio Candido, José Miguel Wisnik disse, a propósito de Oswald de Andrade, que é preciso não colocar as obras dos autores “nem no trono, nem no patíbulo”.
Onde José Miguel terá ido buscar essa imagem, pela qual Godard daria um braço? Virá do cristianismo essa dupla negação? Não sei. Fica, de qualquer modo, o registro dessa lição de sabedoria dada em Paraty, enquanto mundo afora cineastas mercadejam seus próprios projetos.