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Bernardo Esteves e João Felipe Carvalho 24 Jun 2026
7 min de leitura
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Como já era previsto, o clima virou notícia na Copa do Mundo. Na segunda-feira (22), vimos dois exemplos. De um lado, a tempestade que causou a interrupção da partida entre França e Iraque. Do outro, o calor excessivo que fez com que o apresentador Alex Escobar, da TV Globo, tivesse um pico de pressão e passasse mal durante uma transmissão ao vivo. É provável que casos parecidos ocorram nos próximos dias. O verão no Hemisfério Norte começou oficialmente em 21 de junho, e as autoridades climáticas nos Estados Unidos já alertaram que vem por aí uma combinação de calor extremo com fortes tempestades.
Cada vez mais, a crise climática dá as caras no futebol, impactando a vida de jogadores, torcedores e jornalistas. Em campo, tivemos alguns exemplos contundentes nos últimos anos. O árbitro assistente Humberto Panjoj, da Guatemala, desmaiou durante uma partida da Copa América de 2024. O jogo aconteceu em Kansas City, nos Estados Unidos, sob temperatura de 34ºC e umidade de 53%. Mais recentemente, no fim de março, o meio-campista James Rodríguez, capitão da seleção da Colômbia, foi hospitalizado por 72 horas depois de um amistoso contra a França. Estava com desidratação severa.
Praticar futebol e outros esportes em condições extremas de calor e umidade é um desafio fisiológico, como detalhou uma reportagem publicada pela piauí em maio deste ano. “Nessas condições o atleta sua muito, mas o suor não evapora e não retira o calor do indivíduo, e com isso ele se desidrata”, diz o pesquisador Samuel Wanner, um estudioso da regulação térmica em esportistas na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casos mais sérios de desidratação podem provocar câimbras. “Depois disso pode ocorrer uma certa confusão mental e a perda de coordenação motora, até chegar a casos mais graves, em que o indivíduo pode ter um quadro de inflamação sistêmica severa, que pode levar à morte.” Wanner ressalta que casos extremos são muito incomuns no futebol profissional, já que os atletas são bem condicionados e diminuem a intensidade do esforço em condições de extremo calor e umidade.
Os riscos, no entanto, existem – e há muito tempo vêm sendo alardeados por especialistas. Em novembro de 2024, a revista Scientific Reports publicou um artigo que tratava do assunto. Assinado por um grupo de cinco cientistas da Polônia e da Alemanha e liderado por Marek Konefał, pesquisador da Universidade de Ciências do Esporte e da Saúde de Wrocław, o estudo avaliava se o calor e outros parâmetros climáticos poderiam representar uma ameaça aos jogadores, levando em conta as condições meteorológicas das cidades que sediariam os jogos da Copa do Mundo de 2026. A conclusão? Dos 16 estádios da Copa, 10 “têm risco muito alto de apresentar condições de estresse térmico extremo”, a depender do horário. Segundo os pesquisadores, o risco é mais elevado no período da tarde, entre 14 e 17 horas, quando a radiação solar e as temperaturas são mais intensas.
De acordo com o estudo, as condições climáticas mais extremas apareceram nas cidades de Arlington (na Grande Dallas) e Houston, ambas no Texas, e de Monterrey, no México. Nessas cidades, o índice de estresse térmico usado pelos cientistas – que leva em conta o calor, a umidade, a radiação solar e o esforço físico dos atletas – pode alcançar um patamar que os autores consideram inaceitável. Nessas condições, os jogadores têm a sensação térmica equivalente a uma temperatura de 49,5°C e podem perder uma quantidade muito grande de água durante a partida. Mas o trabalho foi criticado por não levar em conta que alguns estádios – incluindo os de Arlington e Houston – têm cobertura retrátil e sistemas de climatização, o que ajuda a reduzir o risco de estresse térmico para os atletas.
Um outro estudo com objetivos similares, de janeiro do ano passado, chegou a conclusões muito parecidas, mas dessa vez considerou os estádios cobertos e climatizados. O trabalho, assinado por dez cientistas do Reino Unido e do Canadá, saiu na revista International Journal of Biometeorology, e usou um outro índice. Os cientistas analisaram as condições climáticas das dezesseis sedes da Copa nos meses de junho e julho entre 2003 e 2022. Constataram que, em 14 das 16 sedes, esse índice ultrapassou o patamar considerado seguro para a prática do futebol por algumas federações nacionais do esporte. Excluindo-se as quatro cidades com arenas cobertas e climatizadas – Los Angeles, Houston, Dallas e Atlanta –, são seis as sedes que apresentam maior risco para os atletas, e três delas vão receber jogos do Brasil na primeira fase do torneio – Nova Jersey (na região de Nova York), Filadélfia e Miami (a lista se completa com Monterrey, Boston e Kansas City).
Os autores de ambos os estudos trouxeram recomendações similares. Para os cientistas que assinaram o artigo de 2024, as condições climáticas das sedes da Copa deveriam ser levadas em conta pela organização para não prejudicar a saúde e o desempenho dos atletas. “Vale a pena repensar o calendário dos eventos esportivos”, declarou Marek Konefał, quando o trabalho foi publicado. Nos dois casos, os autores recomendaram que os organizadores da Copa evitassem as partidas no meio da tarde, quando o calor aumenta.
Mas a Fifa ignorou o apelo. Das 104 partidas da Copa, 22 foram agendadas para horários que, ao menos parcialmente, coincidem com a janela que vai das 14 às 17 horas, período de maior risco de estresse térmico nos atletas. Isso inclui a final e as duas semifinais do torneio. (Se a conta incluir os jogos iniciados ao meio-dia, o número chega a 45.) Parte desses confrontos está sendo disputada em cidades que não têm estádios climatizados listadas pelos pesquisadores entre aquelas que representam maior risco para os atletas.
A escolha não é aleatória: as partidas no começo da tarde na América do Norte passam no horário nobre da tevê na Europa, continente que é o centro geopolítico do futebol mundial, onde são fechados os maiores contratos de publicidade e de direitos de transmissão. Ou seja: a tabela foi definida em função dos interesses do mercado europeu, mesmo que os horários impliquem maior risco para a saúde dos jogadores, da torcida e dos jornalistas.
A medida mais efetiva implementada pela Fifa foram as pausas para hidratação, que acontecem aos 22 minutos de cada tempo de jogo, independentemente das condições meteorológicas do dia. “A utilização de pausas para hidratação faz parte de um esforço direcionado para garantir as melhores condições possíveis aos jogadores, com base na experiência de torneios anteriores, incluindo o recente Mundial de Clubes”, afirmou a entidade no comunicado em que anunciou a novidade, em dezembro passado. Procurada pela piauí, a Fifa não se manifestou sobre as demais medidas que pretendia tomar para minimizar o risco térmico para todos – de jogadores a torcedores – durante a Copa.
Uma Copa com temperaturas altas já era algo de se esperar neste ano, a julgar pelo calor que caracterizou as duas edições mais recentes do torneio realizadas na região na mesma época do ano – no México em 1986 e nos Estados Unidos em 1994. A diferença é que, desde então, a humanidade continuou acelerando a emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, aumentando a temperatura média do planeta e agravando a crise climática, que tem aumentado a frequência e a intensidade de ondas de calor e tempestades.
Examinar a história do Brasil nas copas à luz de alguns marcos da emergência climática ajuda a dimensionar a rapidez do aquecimento global.
- Quando a Seleção Brasileira entrou em campo para defender o bicampeonato, em 1966, na Inglaterra, a temperatura média global estava 1ºC mais baixa do que hoje.
- Desde o tetracampeonato de 1994, liderado por Bebeto e Romário, o número de desastres ligados ao clima aumentou quase 35% – ainda que parte dessa alta se explique pela melhoria dos registros desses eventos.
- A concentração de gás carbônico na atmosfera aumentou mais de 15% desde que o Brasil perdeu a final para a França em 1998.
- E os dez anos mais quentes já registrados na história do planeta aconteceram todos depois do fatídico 7 a 1 contra a Alemanha no Mineirão, em 2014.
Como se a crise climática não fosse um problema grande o suficiente, as previsões dos cientistas indicam que 2026 deve ser um ano de El Niño, o que pode influenciar as condições meteorológicas na Copa. Esse fenômeno é causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na região equatorial, o que altera os padrões climáticos em várias regiões do planeta. Na América do Norte, o El Niño pode levar a temperaturas acima da média, embora haja variações de uma região para outra. Em uma análise produzida antes do começo da Copa, a Noaa – agência do governo americano responsável por monitorar os oceanos, a atmosfera e o clima – estimou em 60% a probabilidade de que o fenômeno ocorresse durante os meses de junho e julho.