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CALOR EXCESSIVO ASSOMBRA COPA DO MUNDO

Como os efeitos da crise climática rondam atletas e torcedores
De calorão em calorão: no Mundial de Clubes de 2025, que serviu de ensaio para a Copa, o nordeste e o centro dos Estados Unidos foram atingidos por uma onda de altas temperaturas - CRÉDITO: CRIS VECTOR_2026
De calorão em calorão: no Mundial de Clubes de 2025, que serviu de ensaio para a Copa, o nordeste e o centro dos Estados Unidos foram atingidos por uma onda de altas temperaturas - CRÉDITO: CRIS VECTOR_2026

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Durante a Copa América de 2024, o guatemalteco Humberto Panjoj, árbitro assistente da partida entre Canadá e Peru, desmaiou na beira do campo. A causa foi desidratação, causada pelo calor intenso. A partida tinha começado às 17 horas, sob temperatura de 34ºC e umidade de 53%, na cidade americana de Kansas City, que estará entre as dezesseis cidades que sediarão jogos da Copa do Mundo. Depois que Panjoj foi retirado do campo, a partida transcorreu normalmente. O Canadá venceu por 1 a 0.

O desmaio do guatemalteco é um sinal dos tempos. Naquela mesma semana da Copa América, o zagueiro uruguaio Ronald Araújo foi substituído no intervalo da partida em que seu país venceu o Panamá por 3 a 1. De novo, por causa dos efeitos do calor. Araújo disse que sentiu tontura e, quando chegou no vestiário, sua pressão baixou. O médico constatou que ele estava desidratado e não poderia continuar no segundo tempo. No fim da partida, Araújo deu uma entrevista. “A verdade é que ainda estou um pouco tonto”, disse. O jogo aconteceu na Região Metropolitana de Miami e começou às 21 horas, sob temperatura de 28°C e umidade de cerca de 70%.

Os dois episódios chamam a atenção para um fantasma que ronda a Copa do Mundo. Os três países que sediarão a competição – Estados Unidos, México e Canadá – de 11 de junho a 19 de julho estarão entre o fim da primavera e o início do verão. A expectativa é de que atletas, árbitros, torcedores e todos os profissionais envolvidos nas partidas terão de enfrentar temperaturas altas, como mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí

Mais recentemente, no fim de março, o meio-campista James Rodríguez, capitão da seleção colombiana de futebol, foi hospitalizado por 72 horas depois do amistoso em que seu país enfrentou a França, atual vice-campeã do mundo. O atleta do Minnesota United atuou por 63 minutos em partida vencida por 3 a 1 pelos europeus e teve seu desempenho criticado por torcedores e comentaristas. Rodríguez foi internado com um quadro de desidratação severa, conforme comunicado da Federação Colombiana de Futebol. A entidade esclareceu que o quadro não estava relacionado com qualquer lesão muscular do atleta e nem às suas atividades futebolísticas, e que a internação tinha a finalidade de “monitoramento clínico preventivo e recuperação”.

O amistoso foi realizado no começo da primavera no estado de Maryland, no nordeste dos Estados Unidos. As condições de temperatura e umidade não estavam particularmente preocupantes e não podem explicar o quadro de desidratação do atleta colombiano, mas o episódio reacendeu os temores de que incidentes parecidos aconteçam durante a Copa.

Uma Copa com temperaturas altas já era algo de se esperar neste ano, a julgar pelo calor que caracterizou as duas edições mais recentes do torneio realizadas na região na mesma época do ano – no México em 1986 e nos Estados Unidos em 1994. A diferença é que, desde então, a humanidade continuou acelerando a emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, aumentando a temperatura média do planeta e agravando a crise climática, que tem aumentado a frequência e a intensidade de ondas de calor e tempestades.

Examinar a história do Brasil nas Copas à luz de alguns marcos da emergência climática ajuda a dimensionar a rapidez do aquecimento global. Quando a Seleção Brasileira entrou em campo para defender o bicampeonato, em 1966, na Inglaterra, a temperatura média global estava 1ºC mais baixa do que hoje. A concentração de gás carbônico na atmosfera aumentou mais de 15% desde que o Brasil perdeu a final para a França em 1998. E os dez anos mais quentes já registrados na história do planeta aconteceram todos depois do fatídico 7 a 1 contra a Alemanha no Mineirão, em 2014.

Os riscos que as condições climáticas trazem para a Copa vêm sendo alardeados pelo menos desde novembro de 2024. Um estudo publicado na revista Scientific Reports, assinado por um grupo de cinco cientistas da Polônia e da Alemanha, avaliou se o calor e outros parâmetros climáticos poderiam representar uma ameaça aos atletas, levando em conta as condições meteorológicas das cidades que sediarão jogos do torneio. A análise mostrou que 10 dos 16 estádios da Copa “têm risco muito alto de apresentar condições de estresse térmico extremo”, a depender do horário do dia, conforme concluiu o estudo.

O perigo é mais elevado no período entre 14 e 17 horas, quando a radiação solar e as temperaturas são mais intensas. De acordo com o estudo, as condições climáticas mais extremas apareceram nas cidades de Arlington (na Grande Dallas) e Houston, ambas no Texas, e de Monterrey, no México. Nessas cidades, o índice de estresse térmico usado pelos cientistas – que leva em conta o calor, a umidade, a radiação solar e o esforço físico dos atletas – pode alcançar um patamar que os autores consideram inaceitável. Nessas condições, os jogadores têm a sensação térmica equivalente a uma temperatura de 49,5°C e podem perder uma quantidade muito grande de água durante a partida. Mas o trabalho foi criticado por não levar em conta que alguns estádios – incluindo os de Arlington e Houston – têm cobertura retrátil e sistemas de climatização, o que deve reduzir o risco de estresse térmico para os atletas.

Em dezembro do ano passado, a Fifa anunciou que todas as partidas da Copa de 2026 terão pausa para hidratação aos 22 minutos de cada tempo de jogo, independentemente das condições meteorológicas do dia. “A utilização de pausas para hidratação faz parte de um esforço direcionado para garantir as melhores condições possíveis aos jogadores, com base na experiência de torneios anteriores, incluindo o recente Mundial de Clubes”, afirmou a entidade no comunicado em que anunciou a novidade. A medida é salutar, como mostra a reportagem da piauí, mas talvez insuficiente para os atletas enfrentarem o desafio fisiológico provocado pelo calor e a umidade.


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