questões elucubrativas
João Batista Jr. e Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, e Breno Pires, de Brasília 09 Out 2026
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Com o celular apreendido de um investigado, e aqui o caso é o de alguém preso preventivamente por ter aplicado um dos maiores rombos financeiros da história do país, a polícia tem acesso a um banco de dados que permite obter provas e contraprovas, como a galeria de fotos, a caixa de e-mails e as conversas de WhatsApp, além de dados de geolocalização. Agora, um novo e promissor recurso se integra ao big data apreendido: o histórico de pesquisas feitas nos aplicativos de inteligência artificial. O mais popular de todos, o ChatGPT, foi lançado em novembro de 2022 e, desde então, passou a ser consultado por 1,2 bilhão de pessoas toda semana. Daniel Vorcaro era uma delas, até ser detido pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025, ao tentar deixar o Brasil com destino a Dubai.
O iPhone do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal quando ele passava pela segurança do Aeroporto de Guarulhos, registra 151 perguntas feitas ao ChatGPT entre 19 de maio e 16 de novembro de 2025. As principais dizem respeito ao Banco Central, à crise do Banco Master e ao mercado, com um total de 57 interações. Depois vêm as perguntas sobre lazer e viagens (33), saúde e medicamentos (29), mundo árabe e Dubai (12), religião e Bíblia (11) e imagem e reputação (9).
A primeira pergunta feita ao ChatGPT foi às 23h57 de 19 de maio, escrita em inglês: “How to take out an oura ring that is stuck in the charger?” Ele queria saber como tirar do carregador o Oura, anel inteligente que virou febre entre os faria limers e mede o sono e sinais de bem-estar 24 horas por dia. O tema saúde é bastante frequente. “O que fazer de modo caseiro quando acontece um fechamento de glote”, ele quis saber no dia 29 de maio. Em 14 de junho, perguntou: “Qual diferença ozempic e mounjaro.” No dia 5 de junho, quis saber qual seria o melhor anti-inflamatório para estiramento muscular. (Nas conversas de WhatsApp com o cunhado, Fabiano Zettel, os dois falam do uso de GH, um hormônio usado como anabolizante.) Das perguntas sobre longevidade, a mais curiosa foi feita em 9 de outubro: “Qual média idade pessoas muito altas morrem.” (Não existem dados públicos sobre a altura de Daniel Vorcaro; Martha Graeff, sua então noiva, mede 1,78 metro.) Vorcaro também fez uma pergunta que mostra a sua preocupação com o corpo: “Charuto engorda?”, escreveu em 19 de agosto, quando pôde aprender com o ChatGPT que a fumaça do tabaco não fornece calorias. Há também mais de uma pergunta sobre surfe, como “quais melhores locais com condições climáticas boas para surfar na primeira semana de outubro no mundo" (resposta: Bali, Costa Rica e Nicarágua).
Ainda em maio, no dia 23, quando estava vendendo ativos pessoais, entre eles o tríplex onde vivia no Itaim Bibi e fazia festas cheias de garotas de programa, comprado pelo empresário Ricardo Faria, conhecido como Rei do Ovo, Daniel Vorcaro perguntou ao ChatGPT: “Qual cotação Hapvida hoje.” A resposta foi 2,82 reais. Vorcaro detinha 18.736.489 ações ordinárias da Hapvida, recebidas como contrapartida de uma transação pessoal no valor de 151,6 milhões de reais. No mês seguinte, junho, Vorcaro passa a fazer perguntas sobre potenciais parceiros comerciais para salvar o Master do abismo. No dia 2 de junho, mandou a foto de um homem e perguntou “Quem é esse”, depois escreveu “Shaik al mahktoum.” Meia hora antes, havia recebido de um intermediário a cópia do passaporte do xeique Suhail Mohamed Buti Al Maktoum, membro da família real de Dubai. Nos dias 25 e 26 de junho, quando estava em Dubai e Abu Dhabi, recorreu à IA para saber quem são os principais xeiques de Dubai, quem é Suhail al Maktoum e qual era a sua posição na família real.
Em 14 de agosto, ele escreveu o seu nome. Não pediu uma avaliação específica nem notícias relacionadas: apenas digitou “Daniel vorcaro.” Fazer pesquisas sobre si mesmo nas redes e no Google não é incomum, seja para pessoas públicas ou não. O termo usado para esse tipo de pesquisa é ego searching. A resposta confirma que não podemos confiar totalmente no ChatGPT. Primeiro, a IA explicou a origem e a formação acadêmica do banqueiro mineiro, com negócios em áreas como banco e investimentos nos setores farmacêutico, tecnológico e esportivo. A conclusão sobre ele ignora o momento conturbado: “[conhecido por] tomar decisões ousadas e transformadoras, ganhando notoriedade pela velocidade e impacto de suas ações.”
Assim como boa parte das pessoas, o banqueiro também utilizava o ChatGPT para saber qual série assistir (“Melhores séries lançadas recentemente”, perguntou no dia 7 de setembro), decidir onde jantar (“Quais restaurantes em Coconut Grove abrem as 7am”, no dia 31 de outubro, sobre o bairro boêmio de Miami) e checar a temperatura do lugar para onde viajava (“Temperatura Taormina em 17 de junho”, no próprio dia mencionado na mensagem).
As interações de Vorcaro com o ChatGPT mostram o agravamento da crise do Banco Master. Há um fator curioso. O Master gastou 543 milhões de reais com advogados entre 2022 e 2025, até ser liquidado. O maior negócio foi com o escritório de Viviane Barci de Moraes: 80 milhões de reais (o contrato previa 131 milhões, mas o contratante foi preso). Depois vêm 76,6 milhões com Walfrido Warde e 27,5 milhões com Marcus Vinicius Furtado Coêlho, entre muitos outros. Ainda assim, cercado de bancas de advogados caríssimos, Vorcaro recorria ao ChatGPT para obter respostas triviais. No dia 30 de agosto, vendo que sua situação não tinha horizontes melhores, ele quis saber: “Quais requisitos e regulamento para pedir impeachment de diretor banco central.” Quarenta minutos antes, à 1h44, tinha feito a mesma pergunta ao advogado Marcel Mascarenhas, em uma mensagem de WhatsApp: “Marcel, se puder passar quais condições pode se fazer pedido impeachment de diretor do banco central.” No dia seguinte, 31 de agosto, perguntou ao ChatGPT: “Quais banqueiros brasileiros foram presos.”
Semanas depois, em 4 de outubro, a assombração da prisão voltou. Vorcaro perguntou ao ChatGPT sobre um caso específico: “Por onde anda Índio da Costa [do banco] Cruzeiro do Sul.” O aplicativo observou que havia mais de um Índio da Costa e respondeu sobre o político carioca e sobre o ex-banqueiro. Vorcaro especificou: “Luis Octavio.” Depois da resposta, mandou uma nova pergunta: “Onde mora.” (Luís Octávio Índio da Costa chegou a ficar preso por dezoito dias, em 2012, e depois passou a responder em liberdade por diversos crimes, como lavagem de dinheiro. Em 2024, foi condenado a cinco anos de prisão por gestão fraudulenta, mas, por ser réu primário, responde em liberdade até o trânsito em julgado.) O ChatGPT se recusou a informar o endereço, mas citou Cidreira, no Rio Grande do Sul, como a localidade que aparece no perfil dele no LinkedIn.
No dia 21 de agosto, ele perguntou à IA: “Quais são os diretores banco central.” Na véspera, havia pedido uma audiência com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para esse dia. A reunião não aconteceu. Dias depois, a secretária de Galípolo avisou que ele estava em missão no exterior. Naquele momento, Vorcaro usava uma estratégia de mídia intensa, com o objetivo de disseminar que a economia iria sofrer caso o Master não pudesse vender alguns de seus ativos. Não só. Entre agosto e setembro, Vorcaro trocou 228 mensagens com Thiago Miranda, o lobista e articulador que fazia pressão nos bastidores sobre o diretor do BC Renato Gomes, se oferecia para “minar” posts críticos ao Master - e intermediava os pagamentos pedidos por Flávio Bolsonaro. A rede de sites e perfis que publicava textos aprovados por Vorcaro e derrubava links negativos era operada por Luiz Felipe Mourão, o Sicário. Entre 19 e 20 de agosto, quando a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou a compra do Master pelo BRB, Vorcaro orientou seu capanga a atuar nas redes. Mourão respondeu: “Vamos produzir positivas... E estão em cima para derrubar todos os links negativos.”
Com o agravamento da crise, ele quis saber, em 14 de outubro, a data da aplicação da Lei Magnitsky contra Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. No dia 22 do mesmo mês, perguntou sobre o volume diário histórico das ações do BRB. No dia 3 de setembro, o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB.
Ele passa vários dias sem consultar o ChatGPT, até que vêm perguntas em sequência. Na noite de 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, o banqueiro escreveu: “Quem são os juízes das varas criminais de Brasília.” Nesse mesmo dia, no grupo de WhatsApp “Daniel e os Leões”, cujos integrantes eram ele e os advogados Marcel Mascarenhas e Walfrido Warde, escreveu: “Na iminência da solução de tudo estou percebendo comportamentos estranhos.” No fim da tarde do dia seguinte, 16 de novembro, voltou ao ChatGPT: “Quais são as varas criminais federais de Brasília.” Foi a última pesquisa registrada no aplicativo.
No dia 17 de novembro, Daniel Vorcaro organizou a sua saída do Brasil com David, um dos pilotos de seus jatos, que cuidava também da logística dos voos. Às 14h49, o banqueiro escreveu: “Coloca saída pra 20:30.” Às 19h15, mudou de ideia: “Vai ter que sair meia noite.” David informou que o Aeroporto de Guarulhos tinha restrição de operação depois das 23 horas e que a decolagem teria de ser até às 22h59. Recomendou que o banqueiro chegasse às 22 horas para fazer a imigração. Às 22h27, Vorcaro escreveu para David: “To na porta aqui / Gat gru / Nao tem ninguem portao.” David respondeu: “Ligando aí. Estão indo.”
Logo em seguida, Daniel Vorcaro foi preso.