caderno do repórter
Breno Pires, de Brasília 05 Nov 2026
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Na semana de 28 de setembro, o país respirava as tensões eleitorais, às vésperas do primeiro turno. Em um daqueles dias, meu compromisso mais importante era um jantar pessoal, mas desde cedo as horas passavam na velocidade x2, com o dia curto para tudo o que eu queria fazer no trabalho. Já era fim de tarde quando consegui algo que tentava havia tempo: a cópia integral do conteúdo do principal celular do banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal, de onde estavam saindo informações que ameaçavam algumas das mais altas autoridades da República.
Liguei para a minha colega Ana Clara Costa e combinamos que eu iria ao Rio de Janeiro o quanto antes. Comprei a passagem e, às 7 horas do dia seguinte, decolei do Aeroporto Internacional de Brasília para o Santos Dumont. Como já era tarde da noite, o repórter João Batista Jr. e o editor executivo Daniel Bergamasco, que ficam baseados em São Paulo, compraram passagens de ônibus para partir na madrugada e amanhecer no Rio, sem perder tempo. Chegamos todos muito cedo à redação, em Ipanema, e dividimos o trabalho de apuração entre os colegas (incluindo o repórter Allan de Abreu e o editor Luigi Mazza), e logo todos nos reunimos em torno do diretor de redação, André Petry, para traçar um plano de voo.
O objetivo dessa mobilização era trabalhar em equipe e com eficiência ao explorar aquele material bruto riquíssimo, com oportunidades extraordinárias de investigação. Eram cerca de 500 gigabytes de informação, com milhares de mensagens, fotografias, vídeos e registros de chamadas. Qualquer coisa poderia sair daquele oceano. Às vésperas de uma eleição, haveria algo fundamental a ser revelado?
A revista piauí já vinha investigando o Banco Master havia quase dois anos, desde a reportagem Alta tensão, de Consuelo Dieguez, publicada em outubro de 2024, que revelou que a instituição era uma bomba-relógio (mais tarde, soube-se que o site da piauí chegou a ser derrubado por algumas horas nos dias seguintes à publicação por hackers contratados por Vorcaro).
Outros repórteres da casa passaram a cobrir o caso do banco. Eu já havia publicado reportagens sobre as relações de Vorcaro com personagens da política. Uma delas, O amigo do crime, tratava da onipresença de Ciro Nogueira nos escândalos nacionais e trouxe a foto do senador abraçado ao banqueiro nos Alpes Franceses, em uma viagem bancada pelo segundo, com as respectivas companheiras – o que sacramentou a estreita parceria entre os dois. A imagem se espalhou rapidamente pela imprensa e pelas redes sociais. Depois da revelação do Intercept Brasil, quando se soube que Flavio Bolsonaro havia pedido dinheiro para o banqueiro, também foi grande a repercussão da reportagem sobre o caso que publiquei na edição do mês de setembro.
A cópia integral do celular abria uma nova etapa dessa cobertura, permitindo examinar diretamente um conjunto de comunicações muito mais amplo do que os fragmentos conhecidos até então.
Já por volta das 10 horas, estávamos quase todos na redação de facão nas mãos para desbravar o material, mas veio uma frustração: eu conseguia acessar o material no programa Iped, desenvolvido originalmente por um perito da Polícia Federal para organizar e pesquisar evidências digitais, mas não tivemos êxito em criar cópias para que os demais colegas também pudessem trabalhar no material. Foi um balde de água fria, que deu uma lentidão inicial ao trabalho, o que é aflitivo quando se tem um material rico nas mãos. Contratamos um doutorando de uma universidade americana, que conhece bem o Iped e estava em Campinas, para vir ao Rio nos ajudar. Uma diretora de tecnologia, que Bergamasco conhece de outros Carnavais, nos ajudou voluntariamente: ela própria fez um curso rápido de Iped pela internet apenas para nos auxiliar com o programa. Outros colegas, como o gerente de produto Pieter Zalis e a técnica de informática Elisangela Prado, também entraram em campo.
As primeiras reportagens vieram aos poucos. A piauí tem um processo cuidadoso de edição e uma checagem rigorosa dos textos (nessa temporada eleitoral, quase sempre feita por Gilberto Porcidonio). Em 1º de outubro, quinta-feira, publicamos as 96 mensagens preservadas no celular entre o senador e então candidato a presidente Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, que ajudaram a esclarecer a relação entre os dois e os pagamentos feitos a pretexto do financiamento do filme Dark Horse. Os colegas Fernanda Catunda, coordenadora de narrativas visuais, que fica no Rio, e Pedro Moro, estagiário baseado em Santa Maria (RS), criaram rapidamente um recurso visual imitando um celular interativo, para que o leitor tivesse a sensação de ter o aparelho de Vorcaro nas mãos, com os áudios, fotos e figurinhas trocados com Flávio, material esclarecedor sobre a intimidade entre os dois.
Publicamos também o vídeo de Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira dançando com suas companheiras no luxo alpino de Courchevel — seus olhares e dedos apontando para a câmera pareciam conversar com os brasileiros escandalizados. Era o aprofundamento, agora audiovisual, daquela foto do abraço em Courchevel que correu pela imprensa e pelas redes sociais. Ciro era candidato a continuar no Senado pelo Piauí, mas acabou perdendo a cadeira três dias depois.
Isso foi o que publicamos antes de as urnas apontarem que Flávio Bolsonaro foi o mais votado no primeiro turno, em 4 de outubro. Nesse dia, João Batista viajou para Minas Gerais e eu voltei para Brasília para votarmos. Daí em diante, passamos a trabalhar remotamente.
Tínhamos linhas de apuração que foram sendo definidas e redefinidas com o passar dos dias, à medida que cada conversa levava a um personagem, um negócio, um episódio desconhecido, desdobrando-se, assim, em nova hipótese de pauta, quase sempre melhor que a anterior. Mas, conforme avançávamos na exploração do material, investigando as relações do banqueiro com figuras-chave da política, ia aumentando o meu interesse em enxergar além das partes e ter, dentro do possível, uma visão mais ampla da história.
Havia uma limitação nessa busca. Muitas conversas de WhatsApp estavam configuradas para que as mensagens desaparecessem depois de 24 horas, ou sete dias, ou noventa dias. Não tínhamos ideia de quantas mensagens haviam se perdido em razão desse instrumento. No caso de Flávio Bolsonaro, por exemplo, as mensagens disponíveis para leitura começavam precisamente noventa dias antes da apreensão do celular de Vorcaro. Daí decorreu uma pergunta que representou um divisor de águas nessa apuração: seria possível obter os dados perdidos do chat de Vorcaro devido à configuração de mensagens temporárias?
Foi essa indagação que levei ao Claude Code, ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pela Anthropic. Não sou programador, mas, com ela, conseguimos executar análises que antes dependeriam de conhecimentos de linguagens como Python. Eu explicava o que queria investigar, e o programa elaborava e executava os códigos necessários.
Descobrimos que, embora o conteúdo de muitas mensagens não estivesse mais disponível, era possível extrair certos tipos de informações a partir dos registros técnicos do iPhone 17 Pro do banqueiro. Era possível saber, por exemplo, quantas mensagens e chamadas trocadas sumiram do chat do WhatsApp por serem temporárias. Isso mudava nossa compreensão do material. Foi com esses dados que conseguimos identificar, por exemplo, que Fabio Wajngarten, ex-secretário especial de Comunicação do governo Bolsonaro, apesar das pouquíssimas mensagens legíveis com Vorcaro, manteve com o banqueiro um total de 1.151 interações. Dessas, 1.071, aproximadamente 93% do total, já não podiam ser lidas.
Apesar da frustração de não conseguirmos ler os conteúdos que haviam sumido, a descoberta da quantidade de mensagens e chamadas perdidas abriu uma possibilidade de mapear, com uma clareza até então impensada, o conjunto das relações políticas do banqueiro. As reportagens já indicavam uma presença recorrente de personagens da direita, especialmente de ex-integrantes do governo Bolsonaro. Faltava, porém, dimensionar essa predominância. E com os números totais de interações – mensagens de texto, áudio, vídeo, fotografia, figurinhas e chamadas – era possível tentar apreender o todo.
Passamos então a contabilizar as interações, para medir a frequência das comunicações. Organizamos os contatos do banqueiro do maior para o menor volume. Os primeiros eram familiares, advogados, sócios e executivos. Sua então noiva, Martha Graeff, liderava a classificação geral.
Mas quem eram os políticos que mais se comunicavam com Vorcaro? Essa foi a pergunta que se impôs, afinal, no meio das eleições. O mais urgente era examinar o conjunto das relações políticas do banqueiro.
A piauí contratou uma perita independente do InterSecLab, organização especializada em segurança digital, para analisar o material. Apresentamos as perguntas que queríamos responder e a lista dos políticos identificados pela redação. A especialista fez sua própria avaliação e produziu as contagens que serviram de base à reportagem publicada em 19 de outubro, com um título bem direto ao ponto: Mais de 70% das interações do celular de Vorcaro com políticos eram com membros do governo Bolsonaro. O Claude Code havia permitido explorar possibilidades novas; a perícia ofereceu a verificação necessária para publicar os resultados.
Estabelecemos critérios para essa contagem. O celular continha contatos de ministros do Supremo Tribunal Federal, dirigentes do Banco Central e outras autoridades que não poderiam ser classificadas da mesma maneira que parlamentares e ex-ministros de Estado. Depois de sucessivas revisões, chegamos a 56 políticos, divididos entre direita, centro e esquerda, conforme suas trajetórias e atuações públicas.
Foi assim que elaboramos o ranking em que Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro, aparecia em primeiro lugar, com 19.293 interações. Depois vinham Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União, com 4.782, e Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil, com 3.967. Faria, sozinho, concentrava quase metade das interações que acabaríamos identificando com os políticos incluídos na reportagem.
E então chegamos à visão do todo que buscávamos. Das 41.659 interações de Vorcaro com esses 56 políticos, 90% eram com personagens classificados à direita, 9% com o centro e apenas 1% com a esquerda. Sete ex-integrantes do governo Bolsonaro — Fábio Faria, Bruno Bianco, Ciro Nogueira, Fabio Wajngarten, Mário Frias, João Roma e Ronaldo Bento — respondiam, sozinhos, por 71% do total.
Os números davam uma dimensão concreta a uma predominância que, até então, conhecíamos sobretudo pela sucessão de episódios individuais. Mas não seria possível publicar estatísticas dessa importância confiando apenas nos resultados de uma inteligência artificial.
A análise também rendeu uma curiosidade que batizamos de Brotherômetro. Intrigado com a frequência de expressões como “irmão”, “irmãozão”, “mano” e “brother” nas conversas do banqueiro, resolvi contá-las usando o Claude Code. Fábio Faria liderou o ranking: nas mensagens preservadas, chamou Vorcaro por essas expressões 176 vezes. A contagem era uma maneira irreverente de retratar a linguagem das relações políticas do banqueiro. (Embora essas informações específicas não fizessem parte do escopo original, pedimos à perita que validasse a análise que havíamos feito no Claude.)
Então era hora de pôr a mão na massa e fazer a reportagem. Dessa vez a força-tarefa não foi no Rio, mas em Brasília. No sábado, 17 de outubro, meu apartamento na Asa Norte se transformou numa extensão da sucursal da piauí. Recebi pela manhã Camille Lichotti e Pedro Tavares, meus colegas da revista baseados na capital federal, para produzirmos a matéria juntos. Nós nos propusemos a procurar cada um dos 56 políticos citados. Começamos a trabalhar antes do meio-dia e seguimos até pouco antes da meia-noite, quando entregamos a primeira versão do texto.
Pedro se dedicou especialmente aos pedidos de manifestação dos 56 políticos. Camille trabalhou na estruturação do texto e nas checagens. Eu fiquei concentrado nos dados e nos critérios da análise — e, enquanto isso, apurava paralelamente com Allan de Abreu uma outra reportagem, publicada mais tarde sob o título A bet de Flávio Bolsonaro. Na cartografia do celular de Vorcaro, era necessário conferir nomes, revisar percentuais e verificar cada classificação ideológica. João Doria, por exemplo, pediu para ser identificado como um político de centro, e não de direita. Fizemos o ajuste.
Depois de semanas examinando arquivos digitais, utilizando inteligência artificial e discutindo métodos com uma perita, o fechamento exigia atividades conhecidas de qualquer repórter: conferir informações, ouvir os personagens envolvidos e encontrar a maneira mais clara de contar uma história complexa.
O editor Guilherme Henrique trabalhou no conteúdo no domingo e na segunda-feira, com Fernanda Catunda cuidando da elaboração das artes com os principais achados.
Começamos com 500 gigabytes de informação, à procura de histórias escondidas entre milhares de mensagens, fotografias e documentos. A descoberta que deu origem à reportagem, porém, veio quando resolvemos investigar não apenas o que estava no celular de Vorcaro, mas também o que havia desaparecido dele.
A temporada eleitoral na piauí foi intensa. Do celular, saíram nove reportagens. Entre as que mais repercutiram nas redes sociais, estão os bastidores de duas viagens a Londres bancadas por Vorcaro com altas autoridades da República, como os ex-ministros de Jair Bolsonaro Ciro Nogueira e Fábio Faria e o atual presidente da Câmara, Hugo Motta. O vídeo com cenas inéditas da farra foi o mais visto no TikTok da piauí (edição de Fábio Brisolla e Giovanna Silveira). Um outro texto de bastante repercussão foi uma sacada de João Batista: ele obteve, a partir do celular, o histórico de pesquisas de Vorcaro no ChatGPT. Havia algumas apenas intrigantes, como “charuto engorda?”, e outras que permitem acessar suas preocupações, como “quais banqueiros brasileiros foram presos?”.
Em relação às suspeitas sobre as autoridades, publicamos em 15 de outubro a reportagem que reconstituiu a festa privada oferecida por Vorcaro ao ministro do STF Kassio Nunes Marques com a participação de prostitutas (cinco delas foram para o quarto com ele, segundo as conversas). A apuração avançou em relação ao que já havia sido divulgado e deu um retrato definitivo do que o celular de Vorcaro permitia conhecer dessa festa, unindo trechos de diálogos com oito pessoas que Daniel Vorcaro manteve naquela semana relacionados ao evento. Entre as mensagens, duas imagens enviadas a ele por seu mordomo chamaram a atenção: a de uma calcinha preta revirada sob um travesseiro e a de três camisinhas usadas jogadas em um tapete, que o empregado teve o cuidado de recolher, para poupar a faxineira. Optamos por descrever as imagens, sem mostrá-las. Bergamasco, que editou o texto, deu um título que fazia referência a essas pistas, mas sem vulgaridade: Os vestígios da noite, lembrando o romance inglês Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro, que traz um mordomo (no cinema, interpretado por Anthony Hopkins) leal e com algum senso de moral (em um contexto completamente distinto, diga-se).
O ministro Nunes Marques foi o personagem central de mais de uma matéria. Publicamos uma reportagem que revelou as reuniões de seu filho, Kevin Marques, com Daniel Vorcaro, antes de o banqueiro iniciar pagamentos mensais à empresa de consultoria de um amigo do ministro; bem como que o ministro deu um despacho retirando seu impedimento para julgar um caso de interesse de Vorcaro no mesmo dia em que o banqueiro se reuniu com a “turma do KN” — para, ao final, mudar de entendimento em um caso que já havia julgado como desembargador federal na segunda instância.
Algumas matérias da temporada não vieram de conteúdos do celular de Vorcaro, mas de outras fontes, como Uma tarde no lago, uma das mais importantes publicadas na cobertura das eleições. Esta última foi outro caso de título mais sóbrio para texto inflamável. No auge da pandemia de Covid, Flávio Bolsonaro passou horas em um passeio de lancha do Lago Paranoá, em Brasília, com dois lobistas interessados em emplacar a vacina indiana Covaxin no programa de vacinação do governo Bolsonaro, e mais três garotas de programa. Flávio foi presenteado com um Rolex ao fim do passeio.
João Batista Jr. tinha ouvido falar sobre o passeio havia algumas semanas, e dividiu a história comigo e com Ana Clara, para que a história pudesse ser apurada em detalhes, sob orientação e edição do diretor André Petry. Puxando o fio da meada, João e Ana conseguiram cruzar uma série de informações e detalhes que embasaram a reportagem, enfim publicada no dia 21 de outubro, a quatro dias do segundo turno. O caso foi citado por Lula duas vezes no debate da TV Globo, o último antes da votação, e virou tema de cartazes dos atos que tomaram as ruas. O texto se tornou, até o momento, o segundo mais lido deste ano no site da piauí.