questões cinematográficas

“DIÁRIO DE UMA BUSCA” – NOTÍCIAS DO SUL

Depois de exibido e premiado durante um ano em diversos festivais pelo mundo – de Gramado, em 2010, ao Rio e Biarritz onde recebeu o prêmio de melhor documentário, além de Punta del Este, onde obteve o prêmio de melhor filme –, “Diário de uma busca”*, dirigido por Flavia Castro, chegou a Porto Alegre na semana passada, antecedendo a abertura do Festival de Gramado, ocasião que parecia propícia, não só pela proximidade do Festival como pelo fim das férias e início do semestre escolar.
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Depois de exibido e premiado durante um ano em diversos festivais pelo mundo – de Gramado, em 2010, ao Rio e Biarritz onde recebeu o prêmio de melhor documentário, além de Punta del Este, onde obteve o prêmio de melhor filme –, “Diário de uma busca”*, dirigido por Flavia Castro, chegou a Porto Alegre na semana passada, antecedendo a abertura do Festival de Gramado, ocasião que parecia propícia, não só pela proximidade do Festival como pelo fim das férias e início do semestre escolar.

Considerando os prêmios e a recepção crítica que “Diário de uma busca” vem tendo, seria razoável supor que a estreia na cidade onde viveu e morreu Celso Guy de Castro, pai da diretora e personagem deflagrador do documentário, fosse evento capaz de mobilizar interesse e provocar debate que se traduzissem em boa frequência de público ao cinema.

Em Paris, por exemplo, onde “Diário de uma busca” foi lançado comercialmente há dois meses, em três cinemas, e continua em cartaz em uma sala, foi visto por cerca de 1.500 espectadores, segundo informação da própria Flavia.

A sessão de pré-estréia em Porto Alegre foi promissora. Cinema de 200 lugares lotados, com cerca de 50 pessoas de fora, sem poder entrar. Flavia fez depois o penoso périplo de entrevistas no rádio e na tevê. E os jornais foram generosos, dando amplo espaço ao filme.

Com tudo isso, porém, na primeira semana “Diário de uma busca” foi visto em Porto Alegre por apenas 294 (duzentas e noventa e quatro) pessoas, o que representa média de cerca de 20 espectadores por sessão! Como explicar semelhante desinteresse a metrópole tida como sendo das mais politizadas do país, com contingente numeroso de universitários, além de profissionais e estudantes de cinema?

Uma conclusão lógica é que nem carreira premiada em festivais, nem recepção crítica positiva, nem ampla cobertura da imprensa – nada disso – levam público ao cinema. Por quais mecanismos, então, excluindo as campanhas de âmbito mundial dos blockbusters, pode ser despertado o interesse do espectador? Devemos mesmo concluir que mesmo o público potencial de um filme como “Diário de uma busca” não lê ou não leva em consideração o que o jornal publica?

Com incompreensível atraso, publicou dois dias depois da estreia artigo em que “Diário de uma busca” é considerado “uma das melhores e mais emocionantes crônicas do exílio produzidas pelo cinema nacional”, atribuindo ao filme cotação de quatro estrelas. No parágrafo final, “Diário de uma busca” é descrito como um “testemunho completo e comovente de toda uma trajetória de luta política marcada por uma trágica derrota final”.

Com atraso ainda maior e mais injustificado, o próprio Zero Hora publicou no domingo (7/8), quatro dias depois da estreia, capa de suplemento e três páginas sobre “Diário de uma busca”. Como a matéria anterior, o artigo trata menos do documentário em si do que da mal explicada morte de Celso Castro e seu companheiro Nestor Herédia. Com manchete sensacionalista e texto de reportagem policial, a matéria começa endossando a tese impossível de comprovar, segundo a qual Celso e Nestor estariam praticando um assalto quando morreram. Só nos parágrafos seguintes esclarece que “os dois mortos não tinham o perfil de assaltantes comuns” e faz referência a um “suposto assalto”.

Depois de ligeira menção ao documentário em si, restringindo injustamente o âmbito de “Diário de uma busca” à investigação das circunstâncias das mortes, a matéria adota estilo de relatório descrevendo fatos inequívocos. Fazendo isso, comete dupla traição, uma à história, outra ao filme. E chega ao cúmulo de trocar “amargo” por “mau” ao reproduzir carta de Celso Castro em que, na verdade, ele escreveu: “[…] E me transformaram num cara amargo, cético. […]”

O box assinado por Daniel Feix se concentra em comentar “Diário de uma busca”, assinalando com razão a maior abrangência do documentário: “O que faz o longa tão interessante é sua capacidade de discutir o país se concentrando numa história aparentemente única. Em segundo [lugar], o equilíbrio da diretora que não se sente à vontade nem para inocentar o pai, nem para condenar alguém pelo episódio […]”.

Para Feix, “Diário de uma busca” é “muito bom” por que consegue “aproximar o espectador da viagem de sua realizadora, fazendo-o compartilhar de sua dúvida nos momentos em que ela fica em dúvida, emocionando-o quando ela se emociona, sentindo de perto a dor que ela sente ao ficar cara a cara com os policiais da investigação”.

Quatro dias depois da estreia, em matéria não assinada, o Correio do Povo foi mais preciso do que ao elogiar “Diário de uma busca”: “Flávia roteirizou e dirigiu o documentário com um olhar afinado, uma generosidade presente e uma narrativa fluente. É um documentário que conquista por sua narrativa. O foco no personagem não ultrapassa os limites necessários para capturar a atenção de um espectador que se interessa pela história, pela trama e pelos seus importantes desdobramentos.[…] Flávia se dá bem retratando, de forma compreensível, a complexidade de um período conturbado na história latino-americana e mundial. […] Jornada pessoal muitas vezes dolorosa, a trajetória da própria diretora é rico material para uma compreensão humana, social e política daquele universo pessoal, familiar, nacional e mundial.”

Pois nem esse amplo espaço na imprensa, nem esses elogios todos, nem mesmo o sensacionalismo do , foram capazes de mobilizar mais do que 294 portoalegrenses para verem “Diário de uma busca”.

No próximo dia 26, “Diário de uma busca” estreia em São Paulo e no Rio. À medida que a data se aproxima, o que pode ser feito? Devemos recorrer a medidas extremas, como o personagem John de “Melancholia”? Ou ficar desarvorados com o cataclismo anunciado? Ou aceitar o inevitável com resignação e melancolia?

Haverá alternativas possíveis?

* “Diário de uma busca” é distribuído e coproduzido pela Videofilmes, empresa da qual é sócio o editor e redator de “piauí” João Moreira Salles.

Flavia Castro, por sua vez, colaborou comigo escrevendo o roteiro da série de cinco documentários em finalizacão “1937-45 Imagens do Estado Novo”. Além disso, assisti algumas versões de “Diário de uma busca” durante a montagem.


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