questões cinematográficas
Nov 2010 19h43
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Glaura Cardoso Vale, uma das organizadoras e coordenadoras do forumdoc.bh 2010, iniciativa da Associação Filmes de Quintal que segue até o próximo domingo, comenta a mesa redonda realizada sábado.
No catálogo disponível no site do festival, alguns textos apresentam um panorama deste cinema que segundo João Moreira Salles tem origem na curiosidadee, tendo aberto mão da narração, além da trilha musical, recorreu ao olhar: “olhar para o mundo e o que o mundo está significando. Isto é o mais importante”. Como exemplo claro da perda da necessidade de dizer aquilo que os olhos podem comprovar, João Salles relembra a sequência de “Primary”, de Robert Drew, quando Jacqueline Kennedy fala para uma platéia algumas palavras em polonês que havia decorado. Ao mostrar o detalhe das suas mãos voltadas para trás trançando os dedos, percebemos o nervosismo e insegurança de Jacqueline Kennedy diante da platéia, dada a gravidade do momento. Aqui, percebe-se a desnecessidade de uma narração que revelaria o que já está dado pela imagem. Nesse caso, é a imagem que tem que dar conta de narrar. “Você olha, não presume, você comprova”. João Salles insiste em dizer: “é a disciplina do olhar”.
A falsa ideia de que é possível mostrar o mundo sem que este seja contaminado pela presença da câmera, proposta que demonstraria certa ingenuidade deste procedimento iniciado na década de 1960, é desbancada pelos integrantes da mesa. A câmera é sempre uma presença e por mais ingênuo que pudesse ser o gesto inicial, os próprios filmes nos revelam que o mundo é representação. Para Pennebaker, as pessoas fazem performance mesmo sem a presença da câmera. Certo de que Bob Dylan imprime sua mise-en-scène em “Don’t Look Back”, não há como negar que este mundo se constrói para/com a câmera.
No caso de filmes como “Primary”, Ed Pincus observa que as pessoas estavam tão envolvidas com as eleições que a câmera podia transitar livremente. Mas o que não se sabia era que já havia microfones sem fio e que isso permitiu que fossem registradas conversas mais íntimas das pessoas filmadas sem que estas se dessem conta disso. A consciência disso provavelmente as inibiria, perdendo a naturalidade das cenas, porque haveria restrição daquilo que poderia ser dito. Pincus lembra que a câmera intervém, mas que depois de um tempo ela é insignificante. Mesmo assim, para ele, o que interessa é filmar as pequenas coisas, e reforça, “o próprio mundo é uma representação. Cabe captar isso e montar”. Ao mesmo tempo ele nunca pediu que as pessoas filmadas repetissem um gesto ou uma fala: “pedir para repetir é uma espécie de trapaça”.
“Diaries”, de Ed Pincus, mais de uma vez lembrado por Ruben Caixeta, foi filmado de 1971 a 1976 e representa um momento em que o diretor volta a câmera para sua família, registrando a própria intimidade. Rubinho diz que o documentarista está ali para acolher a voz das pessoas filmadas, com tempo de escuta para as crianças, colocando suas dúvidas, seguindo o fluxo da sua vida, não como certeza de uma ideia, mas como proposta de filmar a mudança e os processos de transformação. Isso faz lembrar uma cena exemplar do filme que mostra a relação da câmera com o mundo e sua presença nele. No mundo em miniatura, se assim podemos dizer, que Pincus registra, encontramos uma brincadeira da infância que nos é familiar. Seus dois filhos com dois outros amigos brincam de pegador. O caçula não quer ser o pegador e chora. A irmã mais velha diz para ele tentar senão nunca irá saber se é bom ou ruim: “tente, tente, você precisa tentar”. A complexidade desse diálogo que se dá entre crianças de cinco a oito anos é registrada por Pincus com uma ou outra intervenção, mas o que persiste é a relação entre elas e não a do pai intervindo. O cineasta deixa o mundo acontecer frente à câmera. Numa dada passagem, diante do choro do irmão, a filha diz a Pincus: “Ed, desligue a câmera porque ela dificulta as coisas”. Obviamente, Pincus prossegue na sua busca e consegue captar a solução da questão. Registra um momento belíssimo da filha ajudando o irmão para que ele crie confiança e se reintegre na brincadeira. O espectador pode compartilhar com o cineasta uma explosão de risos no desfecho desta micro-narrativa dentro do filme. Esses pequenos gestos permeiam “Diaries” e do particular seguimos para algo mais geral: os conflitos de uma família de classe média americana, revelando questões inerentes à época, como o aborto, relacionamento livre, drogas, mediados pela presença da câmera, sendo o próprio documentarista, sua família e amigos personagens da história. É claro que o filme é muito mais do que isso, pois revela algo fundamental para Pincus: “filmar sem saber para onde as pessoas iam se mover”.
Sem roteiros prévios, muitos desses cineastas descobriam o mundo e a si mesmos. O material traria algo diferente daquilo que se acreditava ser a realidade filmada e a montagem deveria, então, dar conta deste mundo que se fazia diante da câmera, um mundo que existe independentemente dela. Talvez, conforme Walt Whitman, todos acreditassem que existem muitas coisas invisíveis e por isso filmar o mundo era algo urgente. [continua]