vultos da política
Matheus Pichonelli 11 Jun 2026
9 min de leitura
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A vida do cardiologista Célio Morais mudou radicalmente quando ele vestiu uma camisa amarela com a palavra Brasil, uma bandeira nacional nas costas fazendo às vezes de capa e um chapéu verde e amarelo e viajou centenas de quilômetros para participar de uma manifestação em defesa de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, em 25 de fevereiro de 2024.
O médico estava a poucos metros do carro de som ouvindo o pastor Silas Malafaia “metendo o pau no STF”, com semblante abatido, como tantos apoiadores, diante da possibilidade de prisão do ex-presidente. Mas aquele rosto barbudinho fez com que se destacasse na multidão – sem surpresa para ele próprio, que não por acaso tem o apelido de “Lula” desde os tempos da faculdade.
“Com barba ou sem barba, somos parecidos de todo jeito. Não tem como esconder”, diz, sem sinal de lamúria.
Um vídeo que dá um ligeiro zoom no rosto de Morais (tem mais essa: o sobrenome Morais) se espalhou pela internet. “Na época todo mundo estava com medo por causa das investigações do 8 de janeiro, e achavam que eu era um infiltrado", relembra. O humorista Antonio Tabet usou essa palavra na legenda de seu post no X, com 594 mil visualizações: “Infiltrado na Klan”, em referência ao filme de Spike Lee.
A repercussão chegou de imediato a Jaboticabal, no interior de São Paulo, onde há quatro décadas mora o sósia do presidente. Alguns conhecidos correram para elucidar as piadas de parlamentares bolsonaristas, como o deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP). Explicaram que o “Lula” era um bolsonarista de quatro costados que desde 2013 não perdia a oportunidade de ir para a rua gritar “Fora, PT”.
Bilynskyj, ao saber da confusão, telefonou para Morais, aproveitando a conexão de um amigo em comum, e fez um convite ao futuro colega de legenda: “Você topa gravar um vídeo para Jair Bolsonaro?” Ele aceitou.
Dias depois, Morais fazia uma visita de rotina a pacientes acamados quando notou quatro ligações perdidas no celular. Era o deputado Luciano Zucco (PL-RS), que estava ao lado do próprio Bolsonaro em um aeroporto e queria conversar com ele. O ex-presidente pediu que a ligação, em vídeo, fosse gravada. Morais, novamente, topou. E o vídeo, novamente, viralizou. Com o impulso do novo aliado, em outubro daquele ano, o sósia foi eleito vereador em Jaboticabal.
Para o atento PL, esse talento chamejante não pode ficar restrito à capital dos filtros de cerâmica. É hora de pensar em Brasília.
Célio Morais é mineiro de Passa Tempo, município de pouco mais de 8 mil habitantes do interior de Minas Gerais. Trabalhou como monitor das aulas do ensino médio aos 15 anos e chegou a alfabetizar adultos pelo programa Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Fez o alistamento na Força Aérea e serviu como recruta na base aérea localizada do Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte. Lá, fez curso de eletrônica e prestou concurso para o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo. Chegou a atuar como assemelhado a sargento na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio, onde morou por quatro anos. Transferido para o Aeroporto de Congonhas, na capital paulista, decidiu prestar vestibular para medicina, seu sonho. Entrou na segunda tentativa, na Unicamp.
Durante o curso, trabalhou no Hospital de Força Aérea de São Paulo e iniciou uma rotina de bate-e-volta entre a capital e a faculdade no interior. Foi nessa época que ganhou o apelido de Lula, então um líder sindical em ascensão.
Em Campinas, conheceu a atual esposa, uma arquiteta de Ribeirão Preto que trabalhava em Jaboticabal, para onde se mudou em seguida. Durante trinta anos ele atuou como médico das unidades básicas de saúde da cidade e no Hospital e Maternidade Santa Isabel. Hoje está aposentado, mas, além da vereança, ainda atua como médico de família.
Até o início dos anos 2010, Morais era um eleitor declarado dos candidatos do PSDB. “Era o que tinha para o jantar.” Hoje se arrepende de ter votado em Fernando Henrique Cardoso, que diz ser um estandarte do “Foro de São Paulo” – repetindo o boato de que o tucano integrou a organização esquerdista latino-americana criada por nomes como Lula e Fidel Castro.
No PT, afirma, nunca votou. “O Lula é um gênio. Na oratória ninguém ganha dele”, ressalta. O desencanto com o partido vem da época em que Morais era empresário e tinha uma fábrica de móveis com mais de quatrocentos funcionários. Durante o governo Dilma, a fábrica passou a enfrentar dificuldades financeiras e faliu. “Eu atendia Casas Bahia, Pão de Açúcar, Magazine Luiza, Leroy Merlin… Mas quebrei. Chegou um momento em que eu não tinha dinheiro para pagar uma conta de padaria.”
Ainda assim, há uma certa oscilação quando Morais começa a falar do barbudo original. “Estive muito perto dele na inauguração de um depósito das Casas Bahia em São Bernardo do Campo, em 2006. Mas não conversamos. Até gostaria. Daria um abraço nele com todo o carinho”, continua, para em seguida emendar: “O problema é que ele mente 24 horas por dia.” E então se sai com esse tortuoso elogio: “Tirando a desonestidade, admiro tudo nele. Os dois primeiros governos dele foram muito bons.”
Das ondas bolsonaristas, Morais surfou em todas, das manifestações pró-anistia ao discurso anti-STF, passando pela adesão ao “kit-Covid” durante a pandemia, quando medicava e se automedicava com cloroquina, ivermectina e outros remédios cuja eficácia foi desmentida por autoridades sanitárias. “Só receito o que eu tomo.”
Conheceu Bolsonaro pessoalmente em uma carreata em abril de 2024, em Ribeirão Preto. “Nasceu ali uma química”, diz.
Já réu no Supremo por liderar os atos golpistas, Bolsonaro convidou o sósia de Lula para almoçar e apresentou o novo amigo para toda a patota, incluindo o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na conversa, Morais contou que, assim como o ex-capitão, também tinha servido como militar. Bolsonaro riu. Colocou Morais na carroceria da camionete e desfilou pela cidade. Ele se lembra do estranhamento da população, que brincava: Bolsonaro e Lula finalmente estão juntos.
No almoço, o ex-presidente pediu que ele se candidatasse a vereador e anunciou: “Quero você em Brasília em 2026.” Morais, de novo, topou – não sem antes pedir o aval da família. Eles se encontraram outras vezes – ao menos dez, diz o médico, uma delas na época das eleições municipais.
Morais ainda não era o “Lula do Bem”, apelido sugerido depois por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que é usado hoje como nome de guerra. Em março de 2026, o chefe do partido gravou um vídeo ao lado do correligionário. E lançou a pré-candidatura dele a deputado federal por São Paulo.
Entre um momento e outro, “Lula do Bem” conta que virou médico informal de Bolsonaro, que costumava ligar para o amigo, às vezes de madrugada, quando tinha alguma crise. “Ele queria saber o que deveria fazer para passar o soluço.”
Em agosto de 2025, o dr. Morais enviou a ele por WhatsApp uma série de orientações para conter as crises de soluço. A “receita”, sem medicamentos, continha dicas para mudança de hábitos, sono, redução de estresse, uso de suplementos, ingestão de água e atividades físicas. “O homem é bom de boca”, observa o doutor. A mensagem nunca teve resposta, já que o celular do ex-presidente foi apreendido pela Polícia Federal no início daquele mês. Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar por ordem de outro Moraes – nesse caso, com “e” –, o ministro do STF Alexandre de Moraes, e está oficialmente incomunicável desde então.
Morais, com “i”, diz que, até ouvir o convite de Bolsonaro, sempre fugiu de sondagens para entrar na política. “Medicina é uma profissão que te coloca em contato com a cidade inteira, né? Jaboticabal tem mais ou menos 70 mil habitantes. Mas nunca concordei com a ideia de um médico ser político.” Ter virado meme, por sinal, é uma razão muito mais consistente.
Hoje, Morais virou aquele amigo e parente que, quando não fala de trabalho, fala de política. Nem por futebol ele se interessa mais.
Como vereador, contabiliza mais de vinte propostas de lei em dois anos. Entre os textos aprovados está um que proíbe a contratação de shows abertos ao público infantojuvenil que promovam apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas. Morais também aprovou um projeto que institui a semana do profissional da contabilidade e outro que cria o “Dia Municipal do Rock Solidário”. A maioria dos projetos é voltada à área de saúde, como o que oferece medicamentos da rede pública municipal a quem apresenta receitas prescritas por médicos de clínicas particulares, a criação de uma política municipal de atendimento a pessoas com fibromialgia. Também aprovou projetos que preveem reparação dentária de mulheres vítimas de agressões e ações de prevenção à gravidez não planejada.
Naquele período, Morais não pensou duas vezes antes de se aliar ao atual prefeito de Jaboticabal, Professor Emerson, do MDB, e endossar todas as pautas do Executivo.
Em março, Morais se deslocou, com outros fãs de Jair Bolsonaro, até um ato em apoio ao ex-presidente na Avenida Paulista com uma van ligada à Secretaria de Saúde de Jaboticabal. O veículo tinha o brasão da prefeitura e foi flagrado no ato político. A youtuber Leonora Áquilla, que não tem ligação com a política local, viu a cena e acionou o Ministério Público. Acuado, Morais precisou ir a público se explicar. Disse que a van era particular e só prestava serviço ao município durante a semana e que pagou pelo transporte. A Promotoria entendeu que não houve prejuízo ao erário e o caso foi arquivado. Mas o estrago estava feito.
“Ele vive dando gafe. Não tem oratória nenhuma”, diz o presidente do diretório do PT na cidade, José Américo Sargi. Ele duvida que Morais tenha musculatura para chegar à Câmara. “Em Jaboticabal, em pleno domínio bolsonarista, ele obteve 830 votos. É um vereador sem brilho, que se apoia no folclore.”
Moradores de Jaboticabal que conversaram com a piauí dizem que Morais só ficou conhecido na cidade depois que virou meme na manifestação de 2024. “Ele é um exemplo de como a política no Brasil não é séria”, define o jornalista Paolo Constantino, do jornal local Cidades Online. “Como médico, nunca ouvi qualquer reclamação dele. Mas, como vereador, ele tem uma atuação medíocre. Ele vai a eventos da direita, tira fotos mostrando os cinco dedos e se consolidou politicamente como um meme.”
Na cidade, o que se diz é que a lua de mel entre o “Lula do Bem” e os bolsonaristas acabou quando ele se aliou ao atual prefeito, um professor de filosofia e mestre em gestão pública. “O prefeito é um moderado, um tanto privatista, está dedicado a leiloar o serviço de água e esgoto da cidade. Mesmo assim é considerado um ‘esquerdista’ pela direita”, diz Constantino.
Um desses eleitores desiludidos é o comerciante Sergio Pereira, que só ouviu falar do “Lula do Bem” pelas redes sociais, votou nele para vereador e hoje classifica o pré-candidato como “a maior decepção para a direita conservadora” jaboticabalense. “Ele é mais um Alexandre Frota, mais uma Joice Hasselmann. Ele se aliou com a esquerda.”
Morais diz que se aliou ao prefeito porque, em troca, recebeu garantia de que terá apoio aos projetos voltados à área de Saúde. E que a maioria da população entende a posição.
Responsável pelo apelido, Valdemar Costa Neto, que no passado inventou candidatos como o palhaço Tiririca, mantém a aposta. “O Bolsonaro vivia mexendo com ele. Foi aí que começou o negócio. Nós achamos que ele pode ser eleito se for para a televisão. Temos muita gente de expressão. Temos que colocá-lo no melhor horário”, diz o chefe da legenda. “Ele é uma pessoa muito séria. Só precisa ficar mais conhecido. O problema é que a eleição é muito curta. Na prática são só 45 dias. Mas quando colocamos ele nas redes, as pessoas têm muito acesso.”