questões cinematográficas

“DZI CROQUETTES” – OUSADIA E TALENTO

Pessoas da minha laia deixaram de ver, na época, os Dzi Croquettes. Preconceituosos, perdemos a oportunidade de testemunhar os espetáculos do grupo, raro exemplo de ousadia, criatividade e talento. 
Imagem “Dzi Croquettes” – ousadia e talento

2 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Pessoas da minha laia deixaram de ver, na época, os Dzi Croquettes. Preconceituosos, perdemos a oportunidade de testemunhar os espetáculos do grupo, raro exemplo de ousadia, criatividade e talento. Qualidades às quais se somava ainda empenho profissional incomum – tudo a serviço da excelência.

Não acredito que tamanha omissão possa ser perdoada. O que nos resta é ver “Dzi Croquettes”, admitir nossa intolerância a priori e apreciar os registros reunidos no documentário – prova incontestável do valor do grupo.

Em um dos depoimentos (creio que da antropóloga Regina Müller, atriz dos Dzi Croquettes entre 1973 e 1976), o grupo é comparado a um cometa. Impressiona, de fato, a aparição imprevista, o fulgor da passagem e a improbabilidade de que volte a surgir algo sequer parecido.

No auge da ditadura, manifestação transgressiva do teor dos Dzi Croquettes, além de inesperada, estava destinada a ter fim trágico. E talvez a ser esquecida. Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que dirigiram o documentário, têm o mérito de preservarem a memória do grupo. Em certa medida, graças à dupla, os Dzi Croquettes revivem e poderão ser perpetuados.

A motivação pessoal de Tatiana Issa para fazer “Dzi Croquettes”, embora revelada no início e retomada no final, não chega a ser integrada à narrativa. Filha do cenógrafo Américo Issa, integrante da equipe técnica do grupo, o propósito pessoal de realizar o documentário parece ter sido a busca da identidade paterna. É pena que isso seja indicado apenas de passagem. Explicitada e aprofundada, a relação pai-filha poderia ter permitido maior interação com alguns dos entrevistados e resultado em depoimentos mais vitais.

Por outro lado, o acúmulo exagerado de depoimentos – mal congênito do documentário brasileiro – prejudica “Dzi Croquettes”, fazendo seus 110 minutos parecerem intermináveis. A desgastada fórmula baseada em entrevistas é tão recorrente que se deveria solicitar às Páginas Amarelas a inclusão da categoria “entrevistado”. Seria um serviço à comunidade cinematográfica que facilitaria a vida de muitos diretores. Os candidatos a constarem da lista, Gilberto Gil à frente, dispensam apresentação.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.