questões cinematográficas
Jun 2010 07h37
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Nos dois últimos posts me referí a “Elevado 3.5”, sem propriamente comentar o documentário dirigido por João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo. Credenciado como o melhor da competição brasileira, no Festival É Tudo Verdade de 2007, “Elevado 3.5” deriva de “Edifício Master”, dirigido por Eduardo Coutinho, em 2002.
No lugar de um prédio em Copacabana, no Rio, a locação de “Elevado 3.5” é a área lateral ao Elevado Presidente Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão – via expressa que liga o centro à zona leste de São Paulo. O título refere-se ao comprimento do elevado, embora as informações a esse respeito sejam contraditórias. Idealizado ainda na década de 1960, só foi construído durante a primeira gestão do prefeito Paulo Maluf, tendo sido inaugurado em 1970, no auge da ditadura. Passados 40 anos, vem de ser divulgado projeto prevendo a demolição do monstrengo.
Na pré-estréia – feita ao ar livre no próprio Minhocão, projetando o documentário em um telão –, mais de 500 pessoas teriam assistido “Elevado 3.5”. Se essa avaliação da frequência estiver correta, mais espectadores assistiram o documentário nessa única noite do que nas três primeiras semanas de exibição no cinema da rua Augusta em que foi lançado – caso típico de inadequação entre um documentário e o mercado convencional de salas.
Como em “Edifício Master”, o foco de “Elevado 3.5” são os moradores da região, mas sem adotar à risca o método de Eduardo Coutinho. Além da cena de arquivo do prólogo, em que o então prefeito, Paulo Maluf, anuncia a realização da obra diante de um mapa em que sua localização está desenhada, há pelo menos duas outras sequências de arquivo, uma com o movimento invertido, outra incluindo imagens coloridas além das preto e branco. São passagens curtas, mas contribuem para situar a trajetória dos personagens.
Outra diferença de “Elevado 3.5”, além de não ser formado apenas de depoimentos, é incluir alguns personagens que pouco ou nada dizem, mostrados em ações cotidianas, no trabalho e em casa. O silêncio os define. É o caso, entre outros, do sapateiro, que abre sua loja no início do filme e volta a ser visto adiante, fechando a sapataria à noite; e também do florista, nas sequências em que é mostrado – uma, dando farelo para os pombos, outra, em casa, vendo televisão com seu cachorro no colo.
No conjunto, porém, os depoimentos predominam, o que está longe de ser uma virtude. Como de hábito em documentários do gênero, a escolha dos personagens acaba privilegiando tipos excêntricos de interesse discutível.
Alguns fizeram a vida na região – um passou de empregado a dono de loja que hoje está à venda; para outros, o maior divertimento é a janela do apartamento onde moram. Todos parecem ter sido afetados pela construção do elevado e o que transparece é decadência, melancolia e solidão. Um dos entrevistados declara que “é triste, amigo, é triste. É o fim da picada, pra quem já morou em flat 4 estrelas. No fundo de minha [?] é uma tristeza. Quem me vê, acha que eu sou feliz”.
Por acaso, o filme espanhol “En construcción” (2001), dirigido por José Luis Guérin, foi exibido em duas mostras diferentes, no Rio, em junho. Embora tenha tema semelhante a “Elevado 3.5”, não recorre a depoimentos, registrando durante 2 anos, enquanto ocorre, a transformação provocada pela construção de um edifício em um antigo bairro de Barcelona. Lançando mão de encenações, sem deixar de ser documental, ganha interesse adicional por diluir a fronteira com a ficção.