questões cinematográficas
Fev 2011 09h05
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As notícias sobre “Pina”, documentário dirigido por Wim Wenders, exibido pela primeira vez há duas semanas no Festival de Berlim, levaram-me a concluir não sermos originais – nós, brasileiros – nem na desgraça, frase que Nelson Rodrigues poderia ter dito. Lendo sobre o documentário de Wenders, lembrei também de uma declaração feita por Orson Welles, em 1958:
“Nós todos, que trabalhamos nessa indústria do entretenimento, fazemos um blefe prodigioso: nós pretendemos sempre ser os mestres do nosso destino, e os jornalistas, sérios ou superficiais, colaboram com esse blefe. O fato é que nós não decidimos o que vamos fazer: nós corremos sem parar em volta do globo para tentar encontrar recursos, para fazer alguma coisa. Eu acredito, no que me diz respeito, ter atingido uma idade [ OW estava com 43 anos ] em que é inútil continuar fingindo que controlo de alguma forma essas coisas, pois é falso. Sem parar, os jornalistas me perguntam: ‘Você tem a intenção de etc. etc.?’ A intenção, evidentemente! Sempre a tenho.”
Embora o projeto existisse há uma década, a decisão de realizá-lo só teria sido tomada em 2007, quando Wenders teve a revelação do 3D. Mas em junho de 2009, semanas antes do início filmagem, Pina Bausch morreu, vítima de câncer, e a produção ameaçou desandar.
Poderá haver trauma maior para um documentarista do que a morte do seu principal personagem pouco antes do início da filmagem? Depois do impulso inicial de cancelar a produção, Wenders teria concluido que ainda seria possível fazer o filme, mesmo sem a participação de Pina Bausch. O trailer disponível na internet sugere que estava certo.
Se é verdade que o cinema mostra a morte em processo, filmes como “Pina” tem, por sua vez, o poder de dar vida a um simulacro de seus personagens. André Bazin escreveu que “o complexo de múmia” estaria na origem da pintura e da escultura, sendo “a prática de embalsamar um fato fundamental da sua gênese” – o que pode ser estendido ao cinema que assegura a sobrevivência ao menos da imagem e da voz.
De minha parte, senti que Welles tinha razão ao dizer que não somos “mestres do nosso destino” quando Paulo Moura morreu, em junho de 2010, um mês antes do início previsto das gravações do documentário que vínhamos planejando há dois anos – sem que eu soubesse, a mesma situação vivida um ano antes por Wenders. Como ele, tive que vencer o impulso de desistir, tendo concluído a primeira versão da montagem na semana passada. O lançamento do filme está previsto para 2012, sem 3D.
Veja o trailer abaixo: