questões cinematográficas

FRANCIS FORD COPPOLA – UM HOMEM CÉLEBRE

Foi melancólica a passagem de Francis Ford Coppola pelo Brasil, no início de dezembro passado, para mercadejar seu mais recente filme – “Tetro”.
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Foi melancólica a passagem de Francis Ford Coppola pelo Brasil, no início de dezembro passado, para mercadejar seu mais recente filme – “Tetro”. É triste ver o diretor de “O Poderoso Chefão” e “Apocalipse Now”, aos 71 anos, exigindo vir de avião particular e depois aparentando tédio ao ser entrevistado na televisão.



Por outro lado, tendo credenciais suficientes para ser admirado e respeitado como cineasta, Coppola poderia ser tratado com menos complacência pela imprensa brasileira. Elogiar “Tetro” é indício de falta de critério da crítica e passa ao largo de um dos aspectos mais interessantes da sua filmografia – a tensão entre cinema autoral e industrial. Diante dos seus filmes, e do cinema contemporâneo de modo geral, não é possível deixar de reconsiderar a proclamação feita por Jean Renoir (1894-1979) em sua autobiografia, “Ma Vie et Mes Films” (inédita no Brasil), publicada em 1974, quando estava com 80 anos:



“A história do cinema, […], está sob o signo da luta do autor contra a indústria. Tenho orgulho de ter participado dessa luta vitoriosa. Nos nossos dias, reconhece-se que um filme é a obra de um autor, assim como um romance ou um quadro.[…] O jovem cinema desse últimos anos fez aceitar a idéia que o autor de um filme é o diretor. Feliz mudança, coerente com a evolução artística e literária da nossa época. Hoje em dia, vemos filmes assinados ‘Truffaut’ ou ‘Jean-Luc Godard’ como vemos romances assinados ‘Simenon’ ou ‘André Gide’.”



Coppola declara que nunca se sentiu à vontade trabalhando no sistema de produção dos grandes estúdios americanos para o qual realizou, a contragosto, “O Poderoso Chefão”, filme adaptado do best-seller de Mario Puzo; ele diz sempre ter querido ser autor e realizador independente. Na entrevista a Elisabete Pacheco, no programa “Almanaque” (12/12/2010) da Globo News, declarou:



“Nesta altura da minha vida, eu quero escrever histórias originais, não adaptar livros ou peças, ou fazer filmes históricos. Quero ver o que posso imaginar. Então é claro que uso o que todos temos, que é nossas próprias vidas, e nossa própria situação.”



Quanto à receptividade do público, disse que “o artista não pode se importar, por que o público nem sempre escolhe o que é mais interessante. E com frequência há filmes que vinte anos depois, todos dizem: ‘Ah! Que filme maravilhoso!’ E os filmes que na época eram populares são esquecidos. Então, você sabe… Você tem que se perguntar o que você está arriscando. Você arrisca dinheiro? Você arrisca ser insultado? Você arrisca fama? Eu já sou rico, eu já sou famoso. Eu não me importo.”



Tendo escrito o roteiro de “Tetro” há 40 anos, antes de ser absorvido pelo sistema industrial, Coppola tem procurado reafirmar sua vocação artística e autoral, o que só tem podido fazer com recursos próprios: “Nenhum estúdio jamais se interessou pelo filme. O que me salvou foi o dinheiro que ganhei fabricando vinho. Foi o vinho que pagou ‘Tetro’.”



O drama é que a maioria dos filmes autorais de Coppola é menos interessante que parte da sua filmografia feita para os estúdios. Só mesmo a crítica brasileira poderia valorizar um pastiche pretensioso e caricato  como “Tetro”.



A participação de Vincent Gallo no papel principal de “Tetro” remete diretamente a “Doc’s Kingdom”, dirigido por Robert Kramer em 1987, no qual o próprio Gallo, vinte anos mais moço, faz um filho à procura do pai, enquanto no filme de Coppola seu personagem acaba revelando ser pai e não irmão do jovem que vem à sua procura. Essa inversão de papéis, e diferenças como a troca de Portugal pela Argentina, não mascaram a coincidência de tema.



Diante da trajetória de Coppola, é difícil não lembrar do conhecido personagem de Machado de Assis – Pestana – do conto “Um Homem Célebre”.



Embora fosse admirado como compositor de polcas de grande sucesso popular, Pestana tinha ambição de compor um “Réquiem”.



“Aborrecido e vexado”, além de “enfadado” com os elogios, não consegue escapar das notas da “composição do dia”, vindas de uma casa modesta ou assobiadas por um passante. A fama “dera-lhe definitivamente o primeiro lugar, entre os compositores de polcas; […]” 



Ao tocar os primeiros acordes de um de seus sucessos, “Não Bula Comigo, Nhonhô”, “derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda”. Publicada apenas vinte dias antes, “já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna”.



Ao piano, Pestana toca uma sonata de Beethoven, Mozart e Haydn, “interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?”



"Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart; mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo. Se acaso uma ideia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça;[…]”



Depois de casar na esperança que o matrimônio trouxesse inspiração, compõem um noturno em segredo e ao tocá-lo para a mulher, ela pergunta: “[…]; não é Chopin?” Tísica, a mulher morre num dia de Natal em que do baile da vizinhança tocam “várias de suas melhores polcas”. Viúvo, Pestana planeja deixar a música depois de compor um “Requiem”. Onze meses se passaram, “e o “Requiem’ não estava concluído.” E “nunca mais tornou ao ‘Requiem’”.



Inspiração e originalidade para compor polcas nunca lhe faltaram. Morreu “às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.”



A alternativa de Pestana teria sido plantar café ou puxar carroça. A de Coppola foi comprar um vinhedo. Só nos resta aguardar seus próximos filmes na esperança de que o façam ficar bem consigo mesmo e com os homens.

PS. O recesso de fim de ano impediu, conforme havia prometido, a conclusão da série de posts sobre a relação de Eisenstein com Joyce. Ficaram faltando três posts que serão publicados a partir de sexta-feira, inclusive um email de José Carlos Avellar motivado pela dúvida quanto à tradução do título do documentário de Alexander Kluge, “Notícias da Antiguidade ideológica”.


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