LULA X FLÁVIO: O QUE ESTÁ EM JOGO NA RETA FINAL

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"Reajustem a pobreza: Lula aumentou o valor do Bolsa Família, mas a linha de corte segue congelada", coluna de Pedro Fernando Nery para o Estadão.

"Flávio usou imóvel que pertenceu a cunhado de Vorcaro durante campanha em São Paulo", reportagem de Ana Clara Costa, Breno Pires e João Batista Jr. para a piauí.

"A corte de prazeres de Vorcaro", reportagem de Ana Clara Costa, Breno Pires e João Batista Jr. para a piauí.

"Mensagens da PF revelam que Luciano Huck foi amigo e conselheiro de Daniel Vorcaro", reportagem de Robson Bonin para a Veja.

"‘Fala, meu amor’: as mensagens de Alcolumbre e Vorcaro que contradizem versão do senador", reportagem da Veja.

"Ricardo Salles recebeu R$ 4,6 milhões antes de desistir de campanha ao Senado", coluna de Bernardo de Mello Franco para O Globo.

"Trump administration diverts human rights funds to push far-right agenda abroad", reportagem do The Guardian. 

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista piauí.

Sonora: Eu não vou permitir. Não vou permitir que as mulheres e os homens gastem o dinheiro da comida das crianças jogando, porque é uma doença provada pelo Ministério da Saúde.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando. Oi, pessoal!

Sonora: Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso, Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Ricardo Salles tinha trajetória, peso e história para concorrer ao Senado e resolveu, com humildade, com grandeza, abrir mão da sua candidatura para que a gente possa realmente ser competitivo e ter as duas vagas do Senado.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira e, antes dos assuntos da semana, lembro aos ouvintes que neste domingo de primeiro turno a gente vai estar ao vivo a partir das cinco da tarde no YouTube da piauí. A gente vai acompanhar os resultados e comentar tudo com alguns convidados muito especiais e a participação dos repórteres da revista. No dia da eleição, vocês encontram os links de acesso no site e nas redes da piauí. Quero também convidar vocês a acompanhar na Rádio piauí a série Escute a Revista. Os próprios repórteres narram as suas matérias. É bem gostoso de ouvir. Essa iniciativa está disponível para os assinantes da piauí e para os assinantes do Clube Novelo. Convites feitos, vamos, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A gente abre o programa da antevéspera do primeiro turno das eleições, tirando a temperatura da disputa na reta final. O governo conseguiu estancar a sangria das últimas semanas. Houve uma pequena melhora da situação de Lula nas pesquisas e o quadro segue bastante indefinido. O Datafolha, divulgado nesta quinta à noite, registrou que, considerados apenas os votos válidos, Lula tem 45%, contra 40% de Flávio Bolsonaro. Esse resultado aponta na direção de que a eleição será decidida em segundo turno, mas nenhum desfecho pode ser descartado. O petista melhorou, sobretudo entre as mulheres, os católicos e os eleitores de baixa renda. Isso está ligado à proibição das bets, ao reajuste de 15% do Bolsa Família, ao anúncio da oferta de canetas emagrecedores no SUS e ao lançamento do Desenrola 3. Não são apenas medidas eleitoreiras, como se costuma dizer, mas também políticas públicas. E a gente vai falar delas. No segundo bloco, a gente vai tratar da polêmica religiosa que tomou conta da campanha e colocou Flávio Bolsonaro na defensiva. O nome da senhora que ocupou o centro das atenções é Aparecida. Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil. Há alguns dias, na GloboNews, a nossa colega comentarista Maria Cristina Fernandes, do jornal Valor Econômico, comentou a reação de setores católicos a grupos evangélicos que defendiam que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser padroeira do Brasil. E esses grupos poderiam ver em Flávio a esperança dessa decisão. Maria Cristina em nenhum momento disse que Flávio tinha esse plano. As redes sociais se apropriaram do assunto até transformá-lo numa fake news, na afirmação de que Flávio iria acabar com a santa. A boataria, no entanto, não surgiu no vazio. Em agosto, Flávio Bolsonaro havia prometido que, se eleito, um de seus primeiros atos seria "Decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Ora, ora. O Brasil, para os católicos, já tem a sua padroeira e mexer com isso não foi boa coisa. Flávio reagiu de forma desordenada, acusou a CNBB sem apresentar provas. Ergueu uma imagem de Nossa Senhora ao lado de Tarcísio de Freitas e tentou explicar que pretendia apenas fazer uma oração na posse, caso fosse eleito. O Brasil de Jesus seria apenas isso. O padroeira gate acabou na Justiça Eleitoral e o Supremo entrou na briga. André Mendonça mandou retirar as postagens. Flávio Dino suspendeu a ordem e Luiz Fux restabeleceu a decisão. Por fim, o TSE chegou a uma decisão intermediária, proibindo apenas as menções explícitas que ligam Flávio ao fim da padroeira do Brasil. Por fim, no terceiro bloco, a gente vai falar de como funcionava o departamento de entretenimento e sexo de Daniel Voraro para corromper políticos e autoridades. A reportagem é da nossa querida Ana Clara, junto com João Batista Jr. e Breno Pires e está no site da Piauí. A gente vai falar ainda das disputas eleitorais pelo país. Pesquisas projetam que a eleição ao governo podem se resolver no primeiro turno em 14 estados. São Paulo é um deles. Em relação ao Senado, é muito difícil prever os resultados. Uma pesquisa revelou que 45% dos brasileiros ainda não sabiam, nessa semana, que terão direito a votar em dois candidatos ao Senado. Existe um risco real de termos surpresas ruins e o Celso vai nos explicar as razões. É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso Rocha de Barros, vamos começar com você. As pesquisas indicam uma situação de empate, uma disputa muito acirrada, com mais probabilidade de ir para o segundo turno. Podemos começar fazendo uma análise ou um comentário sobre as pesquisas e também sobre as bets ou sobre as medidas que o governo tomou nas últimas semanas, nos últimos dias, que estabilizaram e até melhoraram um pouco a situação do Lula na disputa com Flávio, certo?

Celso Rocha de Barros: Foi isso mesmo, Fernando. As últimas pesquisas. Se você olhar os agregadores, mesmo se você quebrar elas por quesito, elas dão um quadro bastante semelhante. A situação do Lula melhorou. O Lula vinha meio nas cordas durante muito tempo, causa da crise do Supremo, que era uma coisa difícil dele lidar, porque, enfim, ele não é o Supremo, certo? Então ele não tem como tomar uma iniciativa sobre Alexandre de Moraes ou alguma coisa assim. Mas conforme o Supremo diminuiu de tamanho na visão das pessoas, abriu-se a possibilidade para outras pautas na.

Fernando de Barros e Silva: Na discussão, né? Porque nas primeiras semanas de setembro o Supremo praticamente monopolizou.

Celso Rocha de Barros: Isso. Exatamente. É que é uma pauta bastante favorável ao Flávio, por, enfim, motivos que a gente já discutiu aqui amplamente. Conforme a situação do Supremo chegou meio que a um impasse, ficou uma coisa de acusações de um lado e de outro, decisões contrárias de um ou de outro e tal, abriu-se uma possibilidade também para a atenção do público se deslocar para outros lugares. E aí você ser o candidato incumbente, tem uma vantagem evidente que você pode tomar medidas de governo. As medidas que o Lula anunciou recentemente são bastante ambiciosas. Você teve um aumento do Bolsa Família, você teve a proibição das bets, proibição total, que é uma coisa que muita gente não esperava que ele fizesse na campanha. Você teve o anúncio de que o governo vai patrocinar a disponibilização de canetas emagrecedores na Rede Saúde Pública. E você teve Desenrola 3. Mais um programa de combate ao endividamento.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Celso Rocha de Barros: Primeiro, todas essas políticas públicas são boas em si e a maioria delas é coisa para pobre. O que confirma uma coisa que eu sempre digo que pobre só faz lobby de quatro em quatro anos. A elite faz lobby propriamente dito, contrata empresa de lobby e suborna político.

Fernando de Barros e Silva: Full time.

Celso Rocha de Barros: Exato. A classe média faz lobby através da mídia. A classe média é a principal consumidora de notícia paga. Então, evidentemente, as grandes empresas de mídia fazem um noticiário meio pautado pelas preocupações da classe média. Pobre só tem uma chance de se fazer ouvir no sistema político que é no momento em que o número de pessoas envolvidas é decisivo. O que é ou numa grande revolta popular ou em eleição. Na hora da eleição não tem jeito. O cara mais bilionário, o voto dele, vai contar a mesma coisa do cara mais pobre lá do interior do Nordeste. E nesse cenário específico, o sistema político, para seu enorme desagrado, presta atenção em pobre. É uma coisa que causa imenso desprazer no pessoal, mas eles não têm alternativa. E essa é a beleza dessa invenção que os gregos atenienses nos deixaram de legado.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Casca de Bala! Eu gosto quando ele está inspirado assim. É uma coisa, uma alegria.

Celso Rocha de Barros: Pois é. A primeira iniciativa foi o aumento do Bolsa Família. Foi um aumento de 15%. Para o sujeito que ganha bem pode não parecer muita coisa, mas se você é pobre o suficiente para precisar de Bolsa Família é um dinheirinho razoável.

Ana Clara Costa: Você pode ter certeza que muita gente que ganha muito bem está achando muito alto.

Celso Rocha de Barros: Pois é, exatamente.

Fernando de Barros e Silva: Sim, claro.

Celso Rocha de Barros: Até capaz da gente ainda falar nesse programa de pessoas que já reclamaram do Bolsa Família e depois a gente descobriu que estavam ganhando um pixuleco meio esquisito aí.

Ana Clara Costa: Pois é.

Celso Rocha de Barros: Bom, o Bolsa Família já estava precisando ser aumentado mesmo. Inclusive, é por isso que esse aumento não é ilegal. A legislação brasileira impede que o governo tome medidas muito amplas, muito caras, muito perto da eleição, para evitar, evidentemente, que o governo quebre as contas públicas. Ou que o incumbente tenha uma vantagem extremamente desproporcional com relação à oposição. Mas a legislação autoriza a atualização de benefícios pelo valor da inflação, por exemplo. Isso aí é permitido por lei e ainda bem que é. E o que o governo fez foi atualizar o valor do Bolsa Família pela inflação, que já devia ter sido feito. Inclusive para quem acha que o Bolsa Família está generoso demais, eu recomendo as colunas do Pedro Fernando Nery, que é um economista muito bom, que já vem escrevendo no Estadão que a linha de pobreza do Bolsa Família está desatualizada, que o critério para ganhar o Bolsa Família está baixo demais. O cara pode ganhar mais que aquilo e ainda ser muito pobre. Então, que, provavelmente, a gente devia aumentar essa linha de pobreza para incluir mais gente no Bolsa Família, porque esse gasto é muito eficiente. Todos os estudos provam isso. Na hora cai o número de pobres. Você não tem uma burocracia dentro da qual vai ter um Daniel Vorcaro da vida que vai comprar um burocrata para tirar esse dinheiro para ele. Você não tem uma burocracia aqui que vai ser negociado na hora de formar o ministério e vai parar na mão de um um Ciro Nogueira da vida. É um mecanismo muito simples e muito eficiente.

Fernando de Barros e Silva: É direto na veia, né?

Celso Rocha de Barros: Então, se for para fazer ajuste fiscal, que é para fazer ajuste fiscal, aliás, mas não em cima disso, gente, tem outras coisas que tem para cortar ao invés de cortar Bolsa Família ou de demorar a atualizar o valor do Bolsa Família. E aqui é bom notar, esse aumento do Lula é bastante diferente do que o Bolsonaro fez na eleição 2022. Em 2022, o Bolsonaro passou a chamada PEC Kamikaze, que basicamente autorizou ele a gastar qualquer coisa que ele quisesse. Dane-se que tá tendo eleição, a direita faz o que quiser e tá tudo beleza. Isso não era o texto da emenda, mas se você jogar nesse negócio de inteligência artificial, tenho certeza que vai ser o resumo que eles farão. Eu duvido que alguém se lembre da justificativa legal que o Bolsonaro deu para poder gastar tudo que ele quisesse em ano eleitoral. Foi a guerra da Ucrânia, que, segundo ele, teria causado um aumento dos combustíveis.

Fernando de Barros e Silva: Você já falou isso aqui, inclusive.

Ana Clara Costa: E por isso ele tinha direito de torrar a grana que ele quisesse. Então ele deu um aumento bastante grande. Ele tinha feito um corte grande, porque todo mundo se lembra, o Bolsonaro deu o auxílio emergencial de 600 reais por pressão do Congresso. O valor que ele ia fazer era 200 reais para um alcance muito menor. E aí o Congresso pressionou, eles deram 600 para um número maior. Foi isso que segurou ali muita gente durante a pandemia.

Fernando de Barros e Silva: E depois ele cortou. Em 2021, ele cortou tudo. Ele tratou os pobres como iôiô. Ele fez uma coisa e depois voltou.

Celso Rocha de Barros: Não, e aí você tem a famosa fila do osso, que tem aquela foto famosa brigando por osso na porta do supermercado, porque a gente já falou várias vezes aqui: o cenário pós-COVID é um cenário de inflação alta e juro alto. E justamente nesse momento o Bolsonaro vai e deixa os pobres brasileiros completamente desamparados.

Fernando de Barros e Silva: O que ele fez foi uma espécie de sadismo.

Celso Rocha de Barros: Mas aí, para provar o meu ponto anterior, que na hora da eleição mesmo o cara que realmente odeia pobre tem que prestar atenção no cara, ele teve que aumentar o Bolsa Família para tentar ganhar do Lula em 2022.

Fernando de Barros e Silva: Não é que aumentou, ele voltou, né Celso? Ele cortou e depois o programa voltou.

Celso Rocha de Barros: Depois voltou. Exatamente. Então é um negócio bem diferente do que o Bolsonaro fez. O que o Lula fez agora vai entrar na previsão orçamentária. O Lula vai ter que cortar coisas para poder dar esse aumento do Bolsa Família, entendeu? Então, o procedimento orçamentário está sendo seguido, a legislação está sendo seguida e ninguém está usando a Guerra da Ucrânia como desculpa para fazer esse negócio. Bom, e só para ser justo, eu estou aqui falando das barbaridades que o Bolsonaro fez no último ano de governo para se reeleger, Dilma Rousseff, por quaisquer que sejam suas outras qualidades, também fez barbaridades com o gasto público com a economia no ano em que ela se reelegeu. As outras duas medidas do Lula vão direto numa questão que a gente já levantou em outros programas, que é as estatísticas econômicas estão boas, o desemprego está baixo, o nível de pobreza caiu. Mas tem um fator que está prejudicando muito bem estar econômico da população, que é o endividamento, que em parte também é condição novamente dessa história da economia pós-COVID de inflação alta e juro alto. Então o cara tá comendo dinheiro para pagar as coisas que a inflação subiu. Ele precisa pegar dinheiro emprestado, juros está alto, ele vai se ferrando. O Lula tomou duas medidas para diminuir esse problema. O primeiro foi o Desenrola 3 em que o governo vai comprar a dívida das pessoas até um certo valor e aí ele compra dos bancos um volume tal que para o banco vale muito a pena vender barato. Então vale a pena vender por 10% do valor, 20% do valor, entendeu? Então o governo chega agora para o Bradesco e fala "pega suas dívidas aí até tal valor que você não sabe se vão ser pagas, eu te pago agora 10 ou 20% desse valor", que é para cliente pobre cliente que está em situação difícil. Talvez seja paga, talvez não seja. Se for, não vai ser hoje. "Eu te dou essa grana agora com um desconto grande". O banco topa.

Fernando de Barros e Silva: E tem dívida de empréstimo, dívida de cartão de crédito e tem um teto, se eu não me engano, de dez mil reais. Ou seja, é para uma faixa...

Celso Rocha de Barros: Exatamente. É dívida até ali da classe média. E a outra medida que ele tomou para derrubar o endividamento foi a proibição das bets, que foi uma coisa bastante ousada que o comentarista que disser que sabia que ia dar certo eu acho que é picareta, entendeu? Não tinha como ter certeza sobre isso, mas que parece ter dado certo. Os trackings do fim de semana vieram bem melhores para o Lula e as pesquisas estão mostrando uma melhoria. Sobre as bets, sempre bom lembrar a fala do Paulo Guedes naquela famosa reunião do governo Bolsonaro, que é um verdadeiro show de horrores, porque enfim, era uma reunião do governo Bolsonaro e o ministério do Bolsonaro era seleção dos piores, né?

Fernando de Barros e Silva: Com o agravante ali de que eles estavam no meio da pandemia.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Fernando de Barros e Silva: Eles estavam no meio da pandemia, na fase assim trágica do drama social. E eles não falam praticamente desse assunto.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: Era meritocracia de baixo para cima.

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Ana Clara Costa: A reunião.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. E onde o Paulo Guedes disse: "Damares, deixa o cara se fuder, se ele quiser botar o dinheiro dele lá no jogo, ele que perca. Problema dele, adulto, não sei o que lá". Isso prova primeiro que o Paulo Guedes é um sem-vergonha, mas isso todo mundo já sabia. O que ainda tem gente que, por incrível que pareça, discorda é que o Paulo Guedes é um economista de merda. Porque se eles pensassem nesse problema de bet, com todas as suas ramificações, se ele soubesse fazer conta, ele conhecesse as regras elementares pelas quais as grandezas macroeconômicas se relacionam, ele não diria um negócio desse. Então, por exemplo, se você pegar os estudos que a gente já tem sobre isso, o mais importante é o Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil - Apostas Online e Problemas Financeiros: A evidência do Brasil, do Rômulo Carvalho, do Sérgio Firpo, do Guilherme Freitas e do Pedro Scatimburgo. Eles fizeram um estudo sobre apostas online que mostram que você começar a apostar aumenta a chance de você não conseguir pagar suas dívidas em 19,7%. A chance de você não conseguir pagar o seu cartão de crédito aumenta 38,7%. Os emprestadores tendem a cortar o limite de crédito das pessoas em 16%. E tem mais um show de horrores de estatísticas aqui que mostram como a entrada no mundo das apostas vai deixando o cara endividado e vai prejudicando o sistema financeiro, porque aumenta a inadimplência e vai criando um problema econômico que, ao contrário do que acha o Guedes, não é só do cara que foi apostar. Eu só queria chamar a atenção uma coisa que a gente já falou aqui quando a inadimplência bancária aumenta por causa de bet, o banco não vai ficar sem dinheiro. Então a grana que esse cara não está pagando vai ser paga por uma vaquinha das pessoas que pagaram empréstimo.

Fernando de Barros e Silva: E daí o preço sobe, claro.

Celso Rocha de Barros: Exato. E aí os juros sobem. Então você provavelmente está pagando mais juros nos seus empréstimos, porque a inadimplência subiu por causa das bets. Então, assim, é um fenômeno que tem externalidades negativas, anota essa palavra, Guedes, joga no Google, que são claramente relevantes para você discutir se você deve ou não deixar as bets rolando como estavam, entendeu? Enfim, não é só a questão do cara individualmente se foder. E cá entre nós, eu acho que a gente devia se preocupar também se o cara se fodeu.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Celso Rocha de Barros: Compatriota, você é o governo, você tem que... Enfim. Um outro estudo muito interessante é o Overconfidence and Financial Behavior in Online Betting Markets - Super confiança e comportamento financeiro no mercado de apostas online do Lucas Belleza, do Tiago Cavalcanti e do Daniel Da Mata, que saiu agora em 2026. O estudo mostra que as pessoas que apostam têm uma visão bastante enviesada e otimista de qual é a perspectiva delas ganharem. É bastante evidente que para um mercado de apostas, a chance do sujeito perder sempre vai ser maior do que a chance do sujeito ganhar. E isso é regulamentado. Tem um viés máximo que você pode ter a favor da banca, mas se você for atrás das pessoas para ver a expectativa delas ganharem, é completamente contrária ao que diz, enfim, a matemática elementar. E, evidentemente, não teve campanhas de esclarecimento sobre isso nem nada. É sempre bom lembrar, o Temer autoriza as bets nos últimos momentos do seu governo para o Bolsonaro regulamentar. O Bolsonaro não regulamenta nada. Deixa as bets funcionarem por quatro anos, inclusive sem pagar imposto. É aí que a gente tem essa epidemia de gente endividada, de inadimplência, etc e tal. É mais um dos legados da turma do Flávio Bolsonaro. Então, é claro que vai ter gente dizendo assim: "Pô, mas vai prejudicar time de futebol"... Cara, eu gosto de futebol, mas o meu Flamengo é um time cuja torcida é basicamente de baixa renda e eu prefiro que a torcida do Flamengo não morra de fome do que que o Flamengo contrate mais um lateral direito bom, entendeu? Mas enfim, concluindo, eu achei as medidas de governo que o Lula tomou muito boas. Você pode discutir por que não foi tomada antes, mas essa novamente é a beleza dessa instituição que nos foi legada pelos gregos atenienses. Elas forçam os governos a fazerem coisas pelos eleitores.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Ana Clara, Deixa eu te ouvir. Você fez muitas apurações aí sobre as razões motivações que levaram o governo a proibir as bets.

Ana Clara Costa: Exato, Fernando. Bom, a gente tem falado aqui desse acirramento né? As pesquisas têm mostrado esse acirramento da eleição, né? A calcificação extrema. E houve um momento também em que eles começaram a perceber que talvez a curva da forma como ela estava poderia levar o Flávio a ter um desempenho melhor que o Lula no primeiro turno. E aí várias medidas foram tiradas da cartola para tentar estancar, na verdade, porque isso estava acontecendo junto com a crise do Supremo. Então, o cardápio foi esse que o Celso mencionou aqui, né? Mas eu queria me ater especificamente ao caso das bets. Tem dois fatores que motivaram o governo, no caso o presidente Lula, porque foi uma decisão dele, específica, a optar por essa estratégia agora. O primeiro tem a ver com pesquisa. Eles detectaram que sobretudo as mulheres mães de família, eram as que mais repudiavam as bets, porque a mãe de família sofre isso na pele, seja porque o marido gasta o dinheiro inteiro naquilo, se endivida e acaba com a família. Então eles detectaram nas mulheres um repúdio maior e a mulher faz parte do eleitorado do Lula. A gente já falou também várias vezes que o eleitorado masculino tende a votar mais com a direita. E o feminino...

Fernando de Barros e Silva: É um recorte da sociedade em que o Lula ganha dos Bolsonaro.

Ana Clara Costa: Exatamente. E estava havendo uma migração de mulheres nas pesquisas. Em uma determinada pergunta que eles fizeram na pesquisa, havia a sinalização de que era possível uma mudança no cenário das bets também mudar o voto daquele eleitor de tanto que ele tinha ojeriza a questão das bets. Então isso aconteceu em dado momento da campanha. Mas aí tem um outro lado, o Lula tem sido confrontado com várias situações de pessoas próximas atingidas pelo vício em bets. No Palácio do Alvorada, um membro da segurança que é militar, tirou a própria vida depois de estar endividado no início desse ano. No Palácio do Planalto, pessoas do staff deles ali, motorista, enfim, gente que cuida da limpeza, etc. Tá todo mundo endividado. E teve um caso específico de um funcionário do Palácio que era um funcionário que trabalhava diretamente com o presidente, que ficou num estado muito, digamos, depressivo e em certo desespero. A ponto de o próprio Lula perceber que ele não estava bem. E aí ele contou do tamanho do endividamento dele por bets e segundo apurei, ele enfim conseguiu solucionar ali temporariamente a situação e ele voltou a se endividar por bets depois de tanto que o vício era grave.

Fernando de Barros e Silva: A palavra vício tem que ser levada a sério nesse caso, né?

Ana Clara Costa: Exato. Então foram coisas que foram culminando ali, né? Eu acho que tem o cálculo eleitoral, obviamente, mas também teve uma chegada desse assunto bem no círculo muito próximo do presidente. Então ele estava sensibilizado com isso. Ele, pessoalmente. Não foi uma decisão do Sidônio ou, sei lá, do PT ou de qualquer pessoa que tivesse pensando em estratégia de campanha. Foi ele. Até por isso o risco, né? E aí, o que que fica para agora, né? Então, a partir do momento que ele toma essa decisão, essa MP que ele apresentou tem uma validade. Então o Congresso vai ter que votar essa MP em algum momento para que ela não caduque. E aí vai ficar o ônus dessa decisão com o Congresso. Então o Congresso vai assumir o ônus de voltar com as bets do jeito que elas eram? E trazendo alguns números para vocês: das grandes empresas de bets são cerca de 180 marcas de bets que são regularizadas aqui no Brasil, 35% da receita dessas empresas é de aposta esportiva, ou seja, da aposta sobre resultados de jogos. Cerca de 65% do resultado dessas empresas vem de cassino, que é o jogo do tigrinho, a roleta... Esses jogos que não são considerados aposta esportiva. Então, uma das coisas que o Congresso poderia fazer diante dessa MP seria cortar cassino e manter só as bets com aposta esportiva, isso significaria que elas perderiam 65% da sua receita. Então não se sabe que congresso teremos quando essa MP for votada. Tudo isso vai depender de que congresso a gente vai ter. Essas figuras que a gente tanto fala que, e tão próximas do mercado das bets, elas vão se reeleger.

Fernando de Barros e Silva: Essa é a probabilidade.

Ana Clara Costa: Mas tendo sido reeleitas, têm essa dúvida. Elas vão tomar medidas que dilapidem a receita dessas empresas, empresas cujos donos elas andavam em jatinhos e tudo mais. A gente não sabe e a gente não sabe também até que ponto elas estão preocupadas com esse ônus. Mas o fato é que elas podem deixar caducar a MP, elas podem trabalhar essa MP de uma forma que contemporize alguns pleitos das bets. Na verdade, as empresas de bet, elas entraram no Supremo com uma liminar que acabou caindo com o Fux. E aí o Fux pode decidir sobre isso antes da eleição ou não decidir, né? O governo organizou uma reunião com os times justamente em razão desse pleito de que sem bets não tem patrocínio e tal. Os times não quiseram se reunir com o governo nem para pactuar nada. E aí também os grupos de mídia estão muito preocupados com isso, porque todos eles estão pendurados em anúncios de bets. Então, nessa ação do Supremo, por exemplo, o Flamengo entrou como amicus curiae, a ABERT, que é a associação dos veículos de mídia, de rádio e TV, sobretudo, Também entrou como amicus curiae. Então tá todo mundo ali meio desesperado, porque existe a possibilidade do dinheiro do seu Zé ali, que está super endividado, não ir mais parar no Flamengo nem nas empresas de mídia. Já pensou?

Celso Rocha de Barros: Que tragédia!

Ana Clara Costa: Pois é.

Fernando de Barros e Silva: E aí essa reação era previsível, tanto das empresas como dos clubes, de quem recebe, fica com a receita. Normal.

Celso Rocha de Barros: É e até é normal, né? Mas não quer dizer que você tem que fazer o que ele quer, obviamente.

Fernando de Barros e Silva: Agora, esses caras vão montar a estratégia de fato depois do resultado eleitoral. A gente não precisa ser muito esperto para saber em quem eles estão querendo que ganhe.

Celso Rocha de Barros: Claro.

Fernando de Barros e Silva: Acho que não tem muita dúvida a respeito disso.

Ana Clara Costa: Agora, sobre a campanha, existe o sentimento de um pouco mais de, digamos, alívio, né? Eles estão com uma perspectiva, assim, de o que dava para fazer, a gente fez e agora é esperar. Mas eles estão achando que o Lula vai vir à frente do Flávio no primeiro turno, com alguma folga próxima ali de seis pontos. Há pessoas que corroboram essa estimativa. Por exemplo, o governo Dilma na campanha de 2014. A leitura é que quando você tem a máquina, você consegue esticar um pouco mais, fazer um estirão no final que acabe melhorando o teu resultado no primeiro turno. No governo Dilma, em 14, foi assim. Ela teve um desempenho melhor no primeiro turno do que as pesquisas mostravam. No governo Bolsonaro, ele teve um desempenho melhor do que as pesquisas mostraram. Se apontava ali uma diferença próxima de dez pontos para o Lula. E na verdade, veio uma diferença muito menor que isso. Então esse estirão é atribuído à máquina, então eles estão contando de certa forma com isso para o resultado vir melhor no primeiro turno. Há institutos de pesquisa que não tão medindo esse estirão, eles estão dando empate. O resultado bem dividido já no primeiro turno e nos tracking do Flávio também tá dando empate no primeiro turno, obviamente com vantagem para ele, porque o tracking é dele.

Celso Rocha de Barros: Claro. O cara que vende o tracking sabe quem é o cliente dele e aliás, os do Lula também deve ser assim.

Ana Clara Costa: Claro.

Fernando de Barros e Silva: Acho que tem algumas variáveis aí que são pouco... Tem o imponderável, né? Se os candidatos de direita vão encolher, se o governo de fato vai conseguir fazer valer o peso para ter essa vantagem, que alguns chamam de antipetismo de chegada, vai ter alguma força. Enfim, tem algumas coisas que a gente só vai ver mesmo no, agora, no domingo. Agora é fundamental para o Lula chegar na frente no primeiro turno. Inclusive porque historicamente, eu nunca gosto de prever o que vai ser à luz do que aconteceu já porque as coisas, as coisas, mudam justamente, mas historicamente, se eu não me engano, ninguém que chegou à frente em disputa presidencial no primeiro turno perdeu a eleição. Sempre quem chega na frente no primeiro turno, leva.

Ana Clara Costa: Fernando, tem um outro ponto, que é essa portaria do TSE sobre a prova de vida. Ou seja, as pessoas que recebem pagamentos do INSS e que precisam, com alguma regularidade, ir até o INSS para mostrar que são vivas, ou seja, que precisam continuar recebendo o benefício. Houve uma decisão para que o voto servisse como prova de vida. Durante o governo Bolsonaro, lá no TSE. Só que naquele período, em 2022, ainda não dava para colocar isso em prática, porque as bases de dados não estavam compartilhadas. Então não tinha como o INSS saber quem votou, quem não votou e tal. E aí eles precisavam fazer uma mudança de infra estrutura para que essa informação ficasse disponível. Deixando bem claro aqui que isso não quer dizer que o INSS vá saber em quem a gente votou, tá pessoal? É só que eles vão saber que a gente votou. Bom, enfim, nessa eleição, agora em setembro, o TSE anunciou que eles conseguiram finalmente fazer a integração da base de dados. Ou seja, quem votar nessa eleição vai servir como prova de vida. Isso faz com que os eleitores mais idosos se sintam estimulados a ir votar, porque eles não vão precisar ir naquela fila do INSS, aquela chatice. E muita gente tem colocado isso como uma medida eleitoreira do governo para estimular o eleitor mais idoso.

Celso Rocha de Barros: É uma faixa em que o Lula está bem.

Ana Clara Costa: Exato. É uma faixa que tende a votar mais no Lula do que no Flávio. Mas a grande realidade é que foi uma portaria da presidência do TSE, que é ocupada pelo ministro Kássio Nunes Marques, insuspeito de ser petista. Então foi uma medida que acaba que pode beneficiar o Lula, mas que não necessariamente foi tomada pelo governo, entendeu? O que o governo fez, via INSS, claro, foi anunciar isso no aplicativo do Instituto, para as pessoas saberem que elas poderiam ir votar como mecanismo de prova de vida. E aí saíram falando que eles vão usar isso e tal, mas na verdade foi uma decisão do TSE.

Fernando de Barros e Silva: Você falar que isso surgiu no governo Bolsonaro é uma curiosa aceitação ou crença na credibilidade das urnas eletrônicas. Exato. É uma crença na legitimidade das urnas eletrônicas.

Celso Rocha de Barros: Com certeza.

Fernando de Barros e Silva: A gente encerra o primeiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, vamos falar dessa polêmica toda envolvendo a Igreja Católica e os evangélicos e a padroeira do Brasil. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Casca de Bala, vou começar com você. Você estava dizendo aqui no intervalo sobre a frase do pastor JB Carvalho, não é isso?

Celso Rocha de Barros: JB Carvalho.

Fernando de Barros e Silva: Deus odeia a Rainha dos céus.

Celso Rocha de Barros: Exato. É o pastor do Flávio Bolsonaro e da Michelle Bolsonaro.

Fernando de Barros e Silva: Você traz um furo sobre isso. Um furo de dois mil e...

Celso Rocha de Barros: É um furo de De 2600 anos atrás. Aqui temos notícias quentes aqui.

Fernando de Barros e Silva: Vamos ver.

Ana Clara Costa: Ele é de uma igreja chamada Comunidade das Nações, em Brasília, e a Michelle frequenta muito. É amiga íntima.

Celso Rocha de Barros: Pois é.

Ana Clara Costa: Dele, da mulher dele e toda a galera no entorno dela frequenta agora essa igreja também.

Celso Rocha de Barros: Exato. Bom, primeiro só contando aqui quem é a Rainha dos céus. Evidentemente, isso é um ataque ao culto à Nossa Senhora, Maria, Mãe de Jesus. O que, aliás, em primeiro lugar, deixar claro: os protestantes têm o direito de não cultuar Nossa Senhora. Evidentemente, têm. Agora o que a facção mais radical, especialmente do pentecostalismo, resgata de umas versões meio malucas do protestantismo que vieram desde a origem, são ataques muito duros a princípios fundamentais da fé católica, entre os quais o culto à Nossa Senhora é muito importante, porque o culto à Nossa Senhora em toda parte, durante a história do cristianismo, foi muito popular. Então a própria Igreja Católica já tentou segurar um pouco a onda de "gente, vocês só ficam falando de Nossa Senhora não sei o que lá" e fracassou, entendeu? Os fiéis adoram a Nossa Senhora. E é isso aí. Esses centros de peregrinação a aparições de Nossa Senhora que você tem pelo mundo inteiro, não tem outra figura dentro do cristianismo que tenha esse status. E justamente porque na disputa, que, aliás, novamente, é inteiramente legítima entre protestantes e católicos, os protestantes sabem que grande parte do apelo do catolicismo é Nossa Senhora. Aí vou deixar para os teólogos, para os antropólogos e tal, discutirem por que, então, a facção mais agressiva, que é altamente minoritária, a esmagadora maioria dos protestantes não se importa absolutamente com que as pessoas de outras denominações como elas rezam. Mas essa facção bem mais radical dentro do protestantismo, sempre fez campanha contra a Nossa Senhora. Quando o J.B. Carvalho diz "Deus odeia o culto à Rainha dos Céus", ele não está só dizendo que não gosta de Nossa Senhora. Ele está citando o profeta Jeremias, um dos livros da Bíblia, que viveu há 2600 anos atrás, mais ou menos. E na Bíblia tem ele se manifestando contrário à Rainha dos Céus. Bom, se ele escreveu 600 anos antes de Cristo, já dá para supor que ele não está se referindo à Mãe de Jesus Cristo, certo? Ele não está profetizando que Deus odiará um dia... A Rainha dos Céus, no caso, é Astarte ou Ishtar, a deusa babilônica do amor e da fertilidade.

Fernando de Barros e Silva: Olha, tem furo! Falei que tinha.

Celso Rocha de Barros: Exatamente, um furo de 2600 anos aqui. O pastor do Bolsonaro está chamando Nossa Senhora de Astarte, a deusa babilônica do amor e da fertilidade, que é uma associação que essa facção mais totoca do protestantismo faz de dizer que absolutamente tudo o que discorda no catolicismo é um paganismo qualquer. Tem uns caras vão dizer a Eucaristia é um negócio egipcio, sempre tem uns caras dizendo isso, que eles teriam purificado o cristianismo de todas essas infiltrações pagãs. Então o pastor do Flávio e da Michelle, não está só apenas dizendo que não é para cultuar Nossa Senhora e dizendo isso de uma maneira bastante agressiva, dizendo Deus odeia o culto, etc. Mas ele está usando como citação bíblica uma passagem profética que se refere a uma divindade completamente diferente, uma divindade pagã. E o pastor está querendo dizer que Nossa Senhora é uma divindade pagã tanto quanto era a Astarte da Babilônia, que, coitada, não tem nada a ver com esse debate aqui. Tava quieta lá na Babilônia e veio o porra do JB Carvalho encher a paciência dela e a paciência de Nossa Senhora. Então, esse episódio do Aparecida Gate é interessante porque ele mostra um limite estrutural do movimento bolsonarista. A grande força do movimento bolsonarista é ter colonizado a parte mais radical do pentecostalismo brasileiro, que tem um trabalho de difusão pelo território nacional que é absolutamente espetacular e brilhante. Você pergunta para o cara da Teologia da Libertação, ele vai te dizer "cara, o que neopentecostais fizeram de fusão de igreja, de montar igreja, de barraco, de enfim, é exatamente o que a Teologia da Libertação gostaria de ter feito dentro do catolicismo". Mas dentro do pentecostalismo tem uma ala que de fato é extrema direita, tem uns caras que de fato tem umas opiniões muito radicais.

Ana Clara Costa: E que você muitas vezes precisa dessa base muito radical para sustentar a permanência das pessoas.

Celso Rocha de Barros: Sem dúvida nenhuma. Você tem toda razão. Esse é o ponto.

Ana Clara Costa: É uma questão de negócio e modelo de negócio.

Celso Rocha de Barros: Modelo de negócio. Agora, se você for basear o seu modelo de negócio nesses caras radicais, tem um preço. Esses caras são radicais. Na hora que seu opositor quiser atacar você dizendo você está atacando a Igreja Católica, é muito fácil achar o pastor do candidato a presidente e da mulher do Bolsonaro comparando a senhora uma divindade babilônica citada na Bíblia. Foi muito fácil achar essas menções desonrosas a Nossa Senhora de pastores pentecostais que que o pessoal de esquerda está divulgando recentemente. ,É sempre bom lembrar o Rio de Janeiro já teve um prefeito, Marcelo Crivella, que gravou uma música em homenagem ao pastor que chutou Nossa Senhora Aparecida. A música se chama Chutando a Heresia.

Ana Clara Costa: Candidato ao Senado esse ano.

Celso Rocha de Barros: Candidato ao Senado esse ano, que só é candidato porque o André Mendonça deixou ele ser. Então, quando a Maria Cristina Fernandes falou na GloboNews "tem gente no catolicismo apreensiva com esse tipo de coisa". Isso não era fake news absolutamente. A fake news é o pessoal que daí partiu para dizer o Flávio vai acabar com o feriado de Nossa Senhora. Mas a pressão existe e não é nova. Isso já é um negócio que vem acontecendo há algum tempo e vem correndo meio por fora do radar da mídia brasileira e de todos nós. Não estou falando mal dos outros nesse caso, que é em geral formado por pessoas agnósticas ou enfim, que não são particularmente religiosas, enfim, e que naturalmente não tem nem o ouvido para perceber um ataque formulado nesse tipo de linguagem. Então, quando o Flávio Bolsonaro disse que ia entregar o Brasil ao Nosso Senhor Jesus Cristo, você vai dizer "pô, mas o católico também adora Nosso Senhor Jesus Cristo". Em tese, isso é um ponto de concordância. Mas o que para muita gente vai soar é o seguinte, cara, o Brasil já é consagrado a Nossa Senhora de Aparecida pelos católicos, que aliás, novamente, os protestantes têm todo o direito de não querer ser consagrado a Nossa Senhora. Está no direito deles. Agora, se você bancar esse pessoal e botar eles como líderes do seu movimento, isso vai ter um preço. As coisas que eles falam, e têm direito de falar, vai ter um preço. Uma parte grande da população não vai gostar disso. Isso pode custar para você uma eleição. Então eu achei que foi pela primeira vez essa facção radical do pentecostalismo que banca o bolsonarismo virou um problema para eles. Só tinha sido vantagem até agora. E acho até que demorou alguém explorar esse tipo de coisa. O que me faz suspeitar de que essa estratégia se tornou mais plausível quando vieram os dados do Censo e o crescimento dos evangélicos não tinha sido tão grande quanto tinha sido projetado.

Fernando de Barros e Silva: Sim, exatamente.

Celso Rocha de Barros: Então a projeção é que já fosse mais de um terço. Nesse último censo, os evangélicos continuaram crescendo, o que, aliás, é óbvio para qualquer um que mora no Brasil, mas que passaram a crescer numa velocidade menor do que o esperado, do que vinha crescendo antes do outro censo. E novamente, o trabalho de evangelização aí dos neopentecostais é sensacional. Só tenho a aplaudir o que os caras fazem de montar sua igreja lá no fim do mundo e ser a única instituição que garante uma certa solidariedade social, uma certa coesão em lugares de exclusão social absurda.

Ana Clara Costa: Nem precisa ser muito no fim do mundo.

Celso Rocha de Barros: Nem precisa ser no fim do mundo. Você tem toda razão.

Ana Clara Costa: O Rio de Janeiro é prova disso.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Você tem toda a razão. Longe de mim criticar isso. Eu já falei que eu sou católico. Gostaria que a Igreja Católica tivesse feito isso.

Fernando de Barros e Silva: Agora colocou o Flávio numa situação difícil de lidar, porque ele não pode simplesmente sair defendendo Nossa Senhora.

Celso Rocha de Barros: Porque aí tem uma questão interessante que é o Flávio, ao contrário do Jair, tem um estatuto religioso definido. Ele é neopentecostal dessa denominação do JB Carvalho.

Ana Clara Costa: Relativamente recente.

Celso Rocha de Barros: Relativamente recente. É verdade.

Ana Clara Costa: Ele se converteu não tem muito tempo. Não tô julgando a conversão dele, longe de mim desconfiar, imagina.

Celso Rocha de Barros: Mas é uma situação muito diferente do que o Jair Bolsonaro, que o Bolsonaro se batizou de sacanagem numa igreja evangélica, quem se lembra disso? O glorioso pastor Everaldo, que depois se meteu num monte de confusão aí na privatização da Companhia de Água do Rio de Janeiro, umas coisas esquisitíssima, batizou o Bolsonaro no Rio Jordão. Então todo mundo evangélico via esse vídeo, falava "ele virou evangélico", mas o Jair disse que "não, não valeu não. Continuo católico", que é uma daquelas balbúrdia assim, que pelo amor de Deus, né gente? Vamos organizar isso aqui. O Flávio não tem essa vantagem de poder dizer que é católico, mas já foi batizado pelo evangélico e tá tudo meio ali, no meio de uma bagunça meio mal definida. Ele tem uma igreja definida. E se você promove os caras mais radicais do pentecostalismo, a liderança do seu movimento, você vai pagar um preço. A maioria dos católicos que vota no Lula. Se o Lula pegasse o cara mais radical do catolicismo, que defendesse a Inquisição para tacar fogo nos hereges, talvez ele ganhasse voto com isso, mas ele perderia apoio político. Os caras que não são católicos vão dizer: "cara, pelo amor de Deus, se você é católico, tudo bem, mas eu não quero tacar fogo em mim". Então, eu acho que o Aparecida Gate é interessante por causa disso. Ele mostra que tem um custo para essa estratégia que a extrema direita adotou no Brasil, de promover as lideranças evangélicas mais radicais e mais reacionárias. Porque, evidentemente, a esmagadora maioria dos evangélicos não tem o menor problema com as pessoas rezarem Ave Maria, entendeu? Cara, cada um está cuidando da sua própria vida, mas o bolsonarismo promove justamente essa ala mais delulu.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Ana, vamos continuar falando do impacto desse episódio na campanha do Flávio.

Ana Clara Costa: Bom, Fernando, desde que houve a crise no Supremo e toda a situação do Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kássio e tudo mais, a campanha do Flávio começou a andar com um certo salto alto ali. Você sabe porque é público, todos sabemos. Eles começaram a te anunciar ministro da Saúde, né? Chegaram a esse ponto. Eles realmente estavam já se colocando como dentro do governo, né? E aí, quando acontece essa situação envolvendo a Nossa Senhora, eles notaram automaticamente uma mudança nos trackings deles, porque na verdade houve várias notícias em sequência. Primeiro vinculando ele ao Daniel Vorcaro e logo em seguida a santa. Então foi assim um batidão de notícias desfavoráveis para ele. Ele usou o apartamento do Daniel Vorcaro, que inclusive foi publicado na piauí. Ele voou no jatinho do Daniel Vorcaro. Depois veio a situação envolvendo a Nossa Senhora. Os tracking sentiram na hora e aí eles perderam um pouco o chão ali naquele momento. Inclusive quando a Maria Cristina Fernandes fala esse comentário que ela fez na Globo News, Imediatamente a campanha do Flávio procura a Globo indignada, sobretudo porque aquilo acabou sendo instrumentalizado pela internet, por pessoas ligadas à campanha do Lula, do PT e tal, para levar a notícia para um patamar que ela não tinha, né? E aí houve uma pressão da campanha do Flávio para que a Rede Globo pedisse desculpa. Bom, em seguida dessa indignação da campanha do Flávio, da decisão praticamente imediata do André Mendonça de tirar tudo do ar, inclusive conteúdos do próprio Santuário de Nossa Senhora, né? E aí, posteriormente, o Flávio fez ataques a setores da CNBB que, de certa forma, ao atacar a CNBB, ele está sugerindo que a origem da informação veio da CNBB. Ou seja, que a informação é correta. E, de fato, a CNBB e o que o Flávio está sugerindo. Ao atacar a CNBB, ele está sugerindo que a CNBB notou essa movimentação, que é justamente o comentário da Maria Cristina Fernandes. Ela não menciona a CNBB, mas ela menciona a Igreja Católica e ao atacar a CNBB, o Flávio, o que ele está dizendo é que subliminarmente a apuração tá certa, que a apuração está certa e vem da CNBB. Isso que ele está dizendo. Ou seja, ela não está errada. E aí vale a gente dizer que a CNBB, ela é insuspeita de ser petista, de ser de esquerda, porque a gente mesmo aqui no Foro tem falado em diversas ocasiões de todos os movimentos da CNBB contra o direito fundamental ao aborto cos casos em que a Constituição permite. A CNBB, ela tem atuado no Supremo Tribunal Federal contra o direito da mulher de abortar nos casos em que a lei permite. Então, não dá para dizer que a CNBB está indo por uma vertente mais alinhada a X ou Y. A CNBB percebeu alguns movimentos na Igreja. Isso é uma coisa. Dizer que a CNBB está agindo politicamente, que foi o que o Flávio fez, indiretamente, é outra muito diferente. Então a campanha dele sentiu e sentir na reta final significa ficar com uma certa atenção. A decisão dele de ir para o debate da Globo tem a ver com isso. Não sabia se ele ia porque o Lula já tinha confirmado que não iria. Mas a decisão de ir para o debate tem a ver com ter uma plataforma nacional para atacar o adversário. E se ele se dispôs a fazer isso hoje, tem a ver com o fato de a campanha estar num momento de euforia e ter sido tirada desse momento de euforia.

Fernando de Barros e Silva: Sim, perfeito. É exatamente isso.

Celso Rocha de Barros: Pessoal, a gente ia gravar um adendo sobre o debate da Globo, mas o debate foi cancelado. A história é a seguinte o Lula resolveu não ir porque achou que os outros candidatos de direita atuariam como linha auxiliar do Flávio. O Flávio resolveu ir mesmo assim, provavelmente para tentar explicar a história da Nossa Senhora lá como a Ana Clara apurou. O Gilmar Mendes obrigou a Globo a deixar o Renan, do MBL, participar do debate. Com medo do Renan, o Flávio desistiu de ir ao debate e inventou a lenga lenga lá sobre censura. Se o Flávio desistiu porque ia ter um direitista que não tinha conchavo com ele, fica a suspeita de que os outros tinham o mesmo conchavo com ele. Enfim, não foi dessa vez que tivemos um debate horroroso. O debate horroroso deve acontecer somente no segundo turno.

Fernando de Barros e Silva: E lembrando que no TSE o que acabou sendo decidido foi uma proibição relativa ou restrita às mensagens que associavam diretamente, nominalmente, explicitamente, o Flávio Bolsonaro à coisa da padroeira e não todas as mensagens. O TSE são sete ministros, três do Supremo, dois do STJ e dois juristas que são nomeados. Essa turma que foi nomeada e os dois do STJ dão uma salvada ali na composição do tribunal, que está bastante inclinado para a direita. É o Kássio Nunes, o André Mendonça e o Dias Toffoli são os três do Supremo. Então é isso. A gente tem ali ministros que têm menos visibilidade, mas que são altamente qualificados. E uma mulher só que é ótima, por sinal. A Stela Aranha, como no Supremo, só tem uma mulher ministra no TSE.

Ana Clara Costa: Exato. E eles são, na verdade, a cota técnica dali, né? A cota política está sendo bem desempenhada pelos dois ministros, André Mendonça e Kassio Nunes Marques.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Então a gente vai encerrando o segundo bloco por aqui. Na volta, nós vamos falar da campanha nos estados, vamos falar de governadores, senadores. E é isso. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta e vai ser muito melhor do que eu tinha anunciado antes do intervalo, porque não vamos falar só das pesquisas, vamos falar da reportagem que está no site da piauí, que se chama A Corte de Prazeres ou dos prazeres de Vorcaro, é isso, Ana Clara?

Ana Clara Costa: É isso.

Fernando de Barros e Silva: É sobre as festas, justamente, sobre o financiamento que o senhor Vorcaro fazia aos marmanjos do centrão. Não quero restringir só o centrão, mas parece que o pessoal do centrão é que tá na confusão né, Ana Clara? Vamos falar um pouco dessa matéria, porque ela tem a ver com o momento eleitoral, tem a ver com muitos desses nobres parlamentares que estão disputando cargos no domingo, certo?

Ana Clara Costa: Isso, Fernando, a gente tem por costume julgar que político em Brasília e essa relação dos políticos em Brasília com mulheres que isso é, enfim, da vida privada deles. "Homens são assim, homens poderosos são assim", né? "Isso é foro íntimo", mas não é foro íntimo. O que o Daniel Vorcaro acabou expondo é que isso é moeda de troca para que interesses de grupos específicos prosperem. Então a prostituição, o uso de jatinhos, de apartamentos, de casas, de viagens, isso nada mais é do que corrupção.

Fernando de Barros e Silva: Acho fundamental isso, porque isso caracteriza o interesse público, interesse jornalístico e realmente porque existe uma vida privada das pessoas, homens e mulheres, sobre as quais cada um cuida. Agora a gente está falando do maior escândalo de corrupção da história do sistema financeiro brasileiro, maior escândalo de corrupção brasileiro. Estamos falando do envolvimento de políticos com esse sujeito. Então,esse é o ponto, né?

Celso Rocha de Barros: Essa é a suruba de um banqueiro corrupto e com os políticos que deveriam regulá-lo, entendeu? Que deveriam fiscalizar. Não é a questão da vida privada dele.

Ana Clara Costa: Exato. E essa reportagem e o que ela mostra é que havia uma estratégia, porque inclusive os políticos que a gente procurou para obter os outros lados e explicações, a explicação sempre era: "eu fui até lá para tratar de negócios". O que eu acho bastante complicado já, um político ter negócios com o Daniel Vorcaro, com um banqueiro que seja. Então, essa mistura ela precisa ser exposta e é uma mistura que atinge homens. Notadamente, a gente não conhece ali histórias de senadoras, deputadas ou presidente da República que tenha participado de festinhas íntimas com pessoas com interesses econômicos, com garotas, garotos de programa. A gente não conhece histórias que mostrem isso. É uma coisa um pouco, digamos, sem ser injusta aqui com os meus amigos, circunscrita ao universo masculino, né? Então, essa reportagem que o João Batista faz, que eu participo e o Breno Pires também participa, mostra como que foi montada essa estratégia quando o Vorcaro começou, quais eram os dias da semana, quais eram os lugares, quais eram os políticos, qual era o ministro do Supremo, que inclusive já, isso já saiu na imprensa anteriormente, na participação do Kássio Nunes Marques em determinados encontros ali promovidos pelo Vorcaro. É muito bizarro olhar essas mensagens que a gente teve que olhar durante a apuração e ver como eles se referem às mulheres. É realmente uma objetificação absurda, é um desrespeito, assim, você trata a mulher como se ela fosse nada. Tanto as meninas profissionais quanto as modelos, porque também ele mandava trazer modelos de fora do Brasil para participar dessas festas. E aí as estrangeiras não tinham que fazer programa, elas vinham só para ficar nas festas. Elas ficavam hospedadas no altíssimo luxo. Vinham de classe executiva. Uma russa veio de jatinho de Moscou para o Brasil para participar de uma das festas.

Celso Rocha de Barros: Tudo dinheiro de aposentado do Rio.

Ana Clara Costa: Para além dos políticos que frequentavam esses eventos, havia também artistas como o Gusttavo Lima, o cantor sertanejo que está envolvido. Ele tá envolvido em bets, em algumas operações da Polícia Federal já aconteceram.

Fernando de Barros e Silva: E ele, lá atrás cogitou ser candidato à Presidência da República. O nome dele chegou a circular em pesquisa.

Celso Rocha de Barros: Rapaz, eu tinha esquecido disso.

Ana Clara Costa: Nossa, Fernando, parece que 20 anos se passaram, né?

Fernando de Barros e Silva: Mas é.

Ana Clara Costa: Bom. Eu duvido que o nosso ouvinte escolha como representantes no Congresso Nacional algum desses citados nessa reportagem, mas acho importante ler a reportagem para saber quem tá nela e quem tá pedindo o voto nessa eleição.

Fernando de Barros e Silva: Bom, estou curiosíssimo para ler, porque enquanto gravamos, não li ainda a matéria. A Ana Clara está trabalhando praticamente 24/7, né Ana Clara? E ela acabou a matéria, veio gravar o programa. A gente não leu ainda, né, Celso? Mas quando você estiver ouvindo, a gente já vai ter lido.

Ana Clara Costa: Mas essa, essa matéria é sobretudo mérito do João Batista, que é aquilo que vocês conhecem e amam.

Fernando de Barros e Silva: Nosso queridão super repórter.

Celso Rocha de Barros: Só feras.

Ana Clara Costa: E aí, já que a gente está falando desse assunto, quero abrir um pequeno parêntese aqui. A Veja publicou essa semana. Bom, eles publicaram falas extremamente comprometedoras do David Alcolumbre com o Daniel Vorcaro, mas eles publicaram também diálogos do Luciano Huck com o Daniel Vorcaro. Nesses diálogos que a Veja publicou do Luciano Huck com o Daniel Vorcaro, o Luciano Huck, ele parabeniza o Daniel Vorcaro e elogia ele, deseja tudo de bom para ele, na noite que ele foi preso, porque foi o dia em que ele anunciou aquela operação com a Fictor, que era uma operação totalmente fraudulenta, impossível de ser realizada, porque a Fictor era uma pirâmide, está sendo acusada de operar uma pirâmide financeira. Ela não tinha capital para comprar o Master. Eles eram tão complicados, digamos, quanto Daniel Vorcaro naquela época, já era sabido isso, que a Fictor era um esquema, já havia denúncias e denúncias na CVM, enfim. E o Daniel Vorcaro também já era sabido. Todo mundo sabia que a situação do banco era insustentável. Isso já era público, já era público que ele tinha emitido bilhões de reais em CDB sem lastro. Já era conhecido. Mesmo diante disso, o Luciano Huck foi lá e elogiou o negócio, elogiou o cara, disse que desejava o melhor para o cara, que o cara merecia sair daquela e tal. E eu queria falar isso, Fernando, porque o Will Bank, que era um dos bancos picaretas do Daniel Vorcaro era patrocinador do programa do Hulk, né? E eu tenho uma apuração disso que é o seguinte, antes de o Bank se tornar patrocinador, o Luciano Huck consultou algumas pessoas do mercado. Enfim, gente importante, tipo Armínio Fraga, para saber o que essas pessoas achavam do Daniel Vorcaro. E ele foi advertido a não entrar nessa porque todo mundo disse pra ele que esse cara é um picareta.

Celso Rocha de Barros: Todo mundo no mercado sabia.

Ana Clara Costa: E ele mesmo assim topou. Então eu acho que assim, essa informação coroa um pouco esse diálogo que saiu sem a gente ter contexto.

Fernando de Barros e Silva: O que você destacou que ele falou com Vorcaro, ele mandou mensagem para Vorcaro na noite de 17 de novembro de 2025, pouco antes do Vorcaro ser preso, e a mensagem é a seguinte:"Vi a boa notícia da compra do Master agora no JN. Muito bom! Congrats! Você merece sair inteiro dessa turbulência toda".

Celso Rocha de Barros: Celular do Vorcaro na véspera da prisão tava animado, hein?

Fernando de Barros e Silva: Fora que o Luciano Huck divulgou no programa dele uma plataforma para as pessoas acharem candidatos no Legislativo que dava match, segundo ele, que foi tirada do ar porque ela só indicava candidatos de direita na prática. O Nabil Bonduki foi um dos que entrou, candidato a deputado, entrou com ação. A Justiça Eleitoral tirou do ar a ferramenta que o Luciano Huck tinha indicado. E ele falou: "ah, é uma ferramenta apartidária, não te induz a nada". Induz. Esse cinismo, assim, essa demagogia, essa bom mocismo disfarçado, sabe? Uma coisa, interesse cívico, etc, onde não tem nenhum interesse cívico, não tem nenhum bom mocismo, tem só dinheiro. Isso me deixa realmente aperreado.

Ana Clara Costa: Eu queria colocar mais um contexto aqui, Fernando, porque a gente entende que no caso da Globo, por exemplo, esses apresentadores, eles que muitas vezes buscam os patrocinadores para os seus programas, isso é comum. Então fica muito a cargo do Luciano Huck ter grana para viabilizar o programa dele na Globo de domingo. É assim com outros apresentadores. Foi assim com Faustão. O Faustão tinha o maior salário da Globo porque ele ganhava em cima dos patrocínios do programa dele. E o Faustão, que conseguia muitas vezes aqueles patrocinadores. E o Faustão, ele gostava de, na verdade, alimentar essa rede de patrocinadores. Ele, e aí eu falo em sentido literal mesmo, ele fazia toda semana na casa dele, em São Paulo, um jantar.

Fernando de Barros e Silva: Alimentar mesmo.

Celso Rocha de Barros: É alimentar.

Fernando de Barros e Silva: No sentido literal.

Ana Clara Costa: Ele fazia um jantar, uma pizzada na casa dele toda semana em São Paulo, para os empresários. E aí as pessoas iam. E era divertido porque ele chamava artistas, fazia ali um mini Faustão ali só para os íntimos.

Fernando de Barros e Silva: Jogadores de futebol.

Ana Clara Costa: Exato. Ele alimentava essa rede de patrocínio. Então é normal, no caso do Luciano Huck, um apresentador manter contato com os patrocinadores ou possíveis patrocinadores. A questão é que, nesse caso específico que as mensagens mostram, ele foi um pouco além, porque ele estava muito bem informado, porque ele é o tipo de gente que é muito bem informada. Não dá para dizer que ele é inocente ou é ignorante. E mesmo assim ele tava ali bajulando uma pessoa com suspeitas gravíssimas sobre ela, que mesmo que vamos supor na hipótese do Vorcaro não ser preso e conseguir responder em liberdade, etc, já seria muito feio você manter um patrocínio de um de uma empresa desse banqueiro no seu programa, diante de tudo que já se sabia naquela época. Então, assim, nem o fato de ser comum você buscar o seu próprio patrocinador justifica o que se viu nas mensagens do Luciano Huck.

Fernando de Barros e Silva: Só para constar, a matéria da Veja diz que o programa teria obtido 83 milhões com o patrocínio e ele, pessoalmente, 26 milhões. Isso é o que diz a reportagem. Com esses 26 milhões, dá até para ele colaborar com o financiamento do Dark Horse. Muito bem. Vamos passar do domingão para o domingo, né, Celso?

Celso Rocha de Barros: Pois é.

Fernando de Barros e Silva: Estamos aqui a véspera da eleição. Vamos falar um pouco de algumas disputas ao Senado que você andou aí observando.

Celso Rocha de Barros: Bom, antes de mais nada, é sempre bom alertar o ouvinte que a eleição para Senado, especialmente quando tem duas vagas, é o pesadelo dos analistas políticos. Para vocês terem uma ideia segundo a Quaest, 45% dos eleitores não sabem quantas vagas para o Senado vão estar em disputa esse ano. Ou seja, o cara não sabe se vai ter que votar em uma ou duas pessoas. Isso provavelmente indica que o segundo voto vai ser decidido ainda mais na última hora do que o primeiro. E isso quer dizer que a pesquisa, no momento que a gente tem agora é um quadro muito imperfeito, muito mais imperfeito do que para presidente da República. Então, por exemplo, muita gente que gosta de falar mal de pesquisa fala das pesquisas para Senado, que muitas vezes erram, mas é muito difícil mesmo. As pessoas só começam a prestar atenção nisso. Faltando pouco tempo para eleição, a pessoa pensa "quem é que eu vou votar? Deixa eu ver quem são".

Fernando de Barros e Silva: Os próprios responsáveis pelas pesquisas tem salientado isso, exatamente essa dificuldade.

Celso Rocha de Barros: Isso. Não, são profissionais muito competentes e eles estão querendo justamente se precaver, porque vai aparecer um cara depois dizendo "pô, vocês erraram aí as pesquisas" e o cara vai dizer "não, as pessoas que só começaram a prestar atenção nisso no final". E o máximo que eu posso fazer é pegar aqui a opinião do pessoal que está prestando atenção. A projeção do tamanho das futuras bancadas depois da eleição no Senado é mais complicado ainda por causa da questão dos dois votos, porque sempre é possível que o primeiro colocado na pesquisa não entre, porque, por exemplo, o segundo e o terceiro colocado. Fizeram uma dobradinha e aí soma os votos de um com voto do outro. E a pessoa que estava liderando a pesquisa o tempo todo não é eleito.

Fernando de Barros e Silva: Fica em terceiro.

Celso Rocha de Barros: Exato. Há uma chance razoável de isso acontecer em vários estados. Quase sempre a favor da direita. A Benedita da Silva, que liderou todas as pesquisas até agora para o Senado do Rio de Janeiro, ela está aparecendo nas pesquisas próximas dos dois candidatos extrema direita, o Carlos Jordy e o Carlos Portinho, o que cria um risco dela ficar de fora, apesar de ser a candidata preferida do eleitorado, se você só comparar um por um. Porque é possível que o pessoal do Jordy e o pessoal do Portinho faça uma dobradinha perfeita, todos os votos de um vá para o outro e eles acabem tirando a Benedita. Tem instituto que faz controle para isso. Pessoalmente, eu acho que a Benedita entra, mas o risco existe.

Fernando de Barros e Silva: Também acho, porque quem está na frente é o Paes. Isso conta, né? O governador conta muito para o voto no Senado.

Celso Rocha de Barros: Exato. Porque é isso que eu ia dizer. O país tem um candidato ao Senado, que é o Pedro Paulo. O Pedro Paulo, eu tenho quase certeza que vai ter mais voto do que as pesquisas estão dando. Vou ficar muito surpreso se não tiver, porque ele é o candidato Eduardo Paes, que lidera as pesquisas. E o Pedro Paulo deve fazer dobradinha com a Benedita. Então isso é um dos motivos que me faz achar que a Benedita entra. Mas em vários lugares tem alguém mais progressista ou pelo menos democrata na frente, que pode não entrar pelas dobradinhas de direita, que estão muito mais frequentes do que as dobradinhas de esquerda ou de esquerda com centro. Enfim, uma coisa assim. Novamente, a confiabilidade dos números de pesquisa para o Senado é menor do que para os outros cargos. Mas a gente está fazendo uma projeção com base no que, no que a gente vê, né? Outro caso é São Paulo. Por exemplo, São Paulo, eu devo dizer assim, não é declaração de voto, até porque eu não voto em São Paulo. Mas eu acho que vai ser muito triste se Simone Tebet e Marina Silva não se elegerem.

Fernando de Barros e Silva: No Senado, são duas vagas por cada estado. É tudo igual, mas tem um simbolismo essa eleição para o Senado em São Paulo, porque as duas foram candidatos a presidente da República e são presidenciáveis. A Marina Silva é uma líder internacional. Não é uma referência da política brasileira só.

Celso Rocha de Barros: Marina Silva é uma das brasileiras mais importantes da história, Marina Silva é uma das pessoas mais importantes do mundo.

Fernando de Barros e Silva: É isso. Então, tem um simbolismo grande a eleição em São Paulo, no Senado, e a gente corre o risco realmente de ver a dobradinha do PL, que é o André do Prado e o Derrite, o facínora que foi da Rota e foi secretário de Segurança Pública do Tarcísio, levando o porquê da desistência do Ricardo Salles, por manobra do Tarcísio. Ricardo usou o dinheiro público do Fundo eleitoral e desistiu.

Celso Rocha de Barros: Milhões de dinheiro.

Fernando de Barros e Silva: Milhões.

Celso Rocha de Barros: Bernardo de Mello Franco lembrou isso na coluna. E por que ele saiu? Justamente para fazer com que a dobradinha de Derrite e André do Prado se torne uma dobradinha perfeita. Porque a dobradinha imperfeita não vale tanto assim.

Ana Clara Costa: Dilui, né?

Celso Rocha de Barros: Dilui. Exatamente. Então tem uma chance razoável do sujeito que o próprio Tarcísio não tá com muita vontade de sair em foto do lado dele, que é o Derrite e do André do Prado, que muita gente na própria extrema direita não gosta dele porque ele virou candidato no lugar do Eduardo, numa história que não pegou muito bem lá para a direita. É bem possível que um ou dois desses caras tomem o lugar de Simone ou Marina Silva por causa desse voto conjugado, né? Torço para que Marina Silva e Simone Tebet entrem porque, como você disse, essa eleição tem um aspecto simbólico também. É um confronto entre um tipo de Brasil e um outro tipo de Brasil, né, cara? É um confronto entre duas das pessoas que mais trabalharam por desenvolvimento sustentável no governo Lula. Sobre a pessoa que mais trabalhou sobre o governo sustentável do Brasil. Sobre uma das pessoas que mais trabalhou por desenvolvimento social no mundo e dois idiota, né cara, que é puxa-saco de fascista que não serve pra nada.

Ana Clara Costa: Idiota, você tá sendo gentil, falando do Derrite que há crimes.

Celso Rocha de Barros: Pois é, exatamente, entendeu? Então, assim eu reveria as minhas projeções de PIB para o Brasil dos próximos 50 anos se Derrite e André do Prado se elegerem senadores esse ano. Eu reveria para baixo todas as minhas expectativas sobre todos os indicadores brasileiros se esses dois caras se elegerem senadores e se um se eleger senador, eu também rebaixaria um pouco.

Ana Clara Costa: As mulheres de São Paulo darem o voto delas para o Derrite, que é um policial da Rota, que tem várias mortes nas costas.

Fernando de Barros e Silva: Expulso da Rota.

Ana Clara Costa: Foi expulso da rota por excesso de mortes.

Celso Rocha de Barros: Não é fácil isso não.

Fernando de Barros e Silva: Não.

Ana Clara Costa: Depois de expulso da Rota, se tornou influenciador no YouTube e aí virou deputado. E aí, de repente, ficou milionário.

Celso Rocha de Barros: Ele trabalhou enquanto a gente dormia.

Ana Clara Costa: Construiu uma mansão num condomínio próximo de São Paulo, anda de jatinho o tempo todo. Ele é desse tipo, tipo esses caras que o Vorcaro comprou, que só sabe andar de jatinho, sabe? De repente você acorda um belo dia, homem, é geralmente homem, tá? Desculpa.

Celso Rocha de Barros: É fato.

Fernando de Barros e Silva: Não tem que pedir desculpa. A gente assina embaixo, não é?

Ana Clara Costa: E aí o cara anda, assim, uma mulher de São Paulo entregar o voto dela pra isso, tendo alternativa. Seria triste, assim. Realmente não tô querendo fazer campanha pra ninguém aqui e nem voto em São Paulo, mas há mulheres candidatas em São Paulo.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Fernando de Barros e Silva: Eu acho que também sem hipocrisia. A gente não tem que fazer campanha para ninguém, mas tem uma questão de corte civilizacional aí como o Celso está falando, como você está falando.

Ana Clara Costa: Eu acho que assim, o Derrite é um candidato diferente do André do Prado, que é um político de direita.

Celso Rocha de Barros: Concordo com você.

Ana Clara Costa: O Derrite vai além. Ele tem outros predicados, entendeu?

Celso Rocha de Barros: Você tem toda razão.

Ana Clara Costa: É bem mais complicado.

Fernando de Barros e Silva: Ele é um pouco como o Adriano da Nóbrega, o matador do escritório do crime, que também foi expulso do BOPE.

Ana Clara Costa: Por excesso de mortes.

Fernando de Barros e Silva: Assim como o Derrite foi expulso da Rota, define um pouco de que lugar nós estamos falando.

Celso Rocha de Barros: Pois é. Bom, e se eu realmente contar para vocês todas dobradinhas de direita e extrema direita que podem tirar candidatos progressistas estão liderando a pesquisa, eu suspeito que uma parte da audiência vai entrar em depressão, então vou contar tudo. Mas é um risco real e eu só não acho que vocês devem entrar em desespero que, como eu disse, ainda vai ter muita mudança de voto e o cara que está em primeiro também não está em primeiro à toa, né cara? Deve ter bastante gente que gosta dele. No caso, inclusive são as mulheres que estão em primeiro, que eu acho que são mais ameaçadas desse negócio. Agora, se o PL fizer essa bancada toda que tá com cara que vai fazer, eu não vi nenhuma previsão com menos de 20 senadores para o PL.

Ana Clara Costa: O Rogério Marinho nos bastidores tá falando em 14.

Celso Rocha de Barros: Para essa eleição, né? Mas aí soma os que estão lá e não estão...

Ana Clara Costa: Eles estão somando, na verdade, os que já estão lá, mais o centrão mais pró direita, que daria uma bancada de 30 senadores que o PL teria uma bancada, mais alguns agregados que somaria 30.

Celso Rocha de Barros: E aí é só, cara, eu não vou deixar de encher o saco das pessoas nunca por causa disso, porque eu sou um sujeito insuportável. Mas assim, eu queria novamente chamar a atenção que muitos desses caras vão se eleger porque fazem campanha dizendo que vão impichar ministro do Supremo Federal envolvido com o Master. E os partidos desses caras são os partidos que roubaram com o Vorcaro, que tentaram salvar o Vorcaro. Então esses partidos que roubaram, com Vorcaro estão prestes a ser recompensados com bancadas maiores na Câmara dos Deputados e no Senado.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, você não tem nada de insuportável. Você é o que diziam do imperador Tito: delícia do gênero humano, né Ana Clara?

Celso Rocha de Barros: Ô rapaz! Aí... entendeu? Parece mensagem do Vorcaro lá para aqueles amigos dele. Agora só queria falar uma coisa que eu fico chocado que essas coisas não sejam o centro da discussão da eleição. O jornal The Guardian descobriu que o governo Trump está usando recursos que tinham sido alocados no orçamento para defesa dos direitos humanos, vocês podem imaginar o quanto Trump se preocupa com direitos humanos. Deve ser realmente... Enfim. Mas eles estão usando o dinheiro que deveria ser destinado à defesa dos direitos humanos para promover a extrema direita ao redor do mundo. E nessa brincadeira, 1 milhão de dólares foi designado para fortalecer entidades da sociedade civil no Brasil que combatam o lawfare e a censura no Brasil. Fecha aspas. Entendeu? Então, basicamente está no Orçamento dos Estados Unidos 1 milhão de dólares, 5 milhões e poucos reais.

Fernando de Barros e Silva: É muito chocante isso.

Celso Rocha de Barros: Para ser entregue a organizações brasileiras que promovem a descredibilização da democracia brasileira. Vocês imaginem se o governo da China ou o governo de Cuba tivesse sido pego dando 5 milhões para a campanha Lula Livre, por exemplo.

Fernando de Barros e Silva: É o paralelo é esse.

Celso Rocha de Barros: Diz para mim que teria outro assunto no Jornal Nacional. Não teria. Diz para mim que teria outro assunto na capa de todos os jornais. Não teria. Então, assim, isso é uma daquelas coisas que eu imagino que os historiadores, quando olharem a campanha eleitoral de 2026, vão se perguntar por que ninguém deu atenção a esse negócio. E só para reforçar, o cara que, segundo o Guardian, está responsável pela distribuição dessa grana toda, é o nosso amigo Samuel Samson, que é um dos caras que o Marco Rubio queria mandar para o Brasil para abrir aspas, supervisionar, fecha aspas, as eleições brasileiras.

Fernando de Barros e Silva: Isso é perfeito e corrobora tudo o que a gente vem dizendo. Você vem insistindo sobre a centralidade da intervenção americana no processo político brasileiro. Ana Clara, para a gente encerrar, temos mais alguma coisa?

Ana Clara Costa: Bom, eu acho que as pesquisas mostram que todos os olhares estão de novo nos estados do Sudeste para a decisão da eleição presidencial. Em São Paulo, tem uma situação diferente da eleição passada, em que o Tarcísio, tudo indica, vai ganhar no primeiro turno. Mas a situação do Lula está um pouco melhor do que estava em 2022 na presidência. Então, tem muita gente que vai fazer o voto Lula, Tarcísio. A última Quaest mostrou Flávio na frente por seis pontos no primeiro turno, com 36 contra 30 do Lula.

Fernando de Barros e Silva: Em São Paulo você está falando?

Ana Clara Costa: Em São Paulo, estado de São Paulo. A gente tem que lembrar que no segundo turno de 2022, o Bolsonaro ganhou com dez pontos acima do Lula em São Paulo. E mesmo assim, São Paulo foi uma das responsáveis pela vitória do Lula, sobretudo a região metropolitana. E a situação do Lula está um pouco melhor esse ano. Em Minas, que é outra trincheira muito importante, o Cleitinho, tudo indica, leva essa. Vai para o segundo turno com o Patrus, mas tem mais chances de se eleger do que o Patrus. Toda aquela confusão para saber quem seria o candidato do Flávio Bolsonaro em Minas e o Cleitinho causou aquele alvoroço todo e no fim, abraçou de fato a campanha do Flávio e vai se eleger. Tudo indica. O Lula em Minas está bem empatado com o Flávio, embora com liderança numérica dentro da margem de erro. Agora com liderança numérica. No início do mês estava pior. O Flávio estava numericamente à frente. Agora está 41 a 40. Falando somente em segundo turno. A gente sabe que Minas condensa todas as especificidades do Brasil naquele território. Então muita gente diz que é o termômetro. Mas eu vejo mais como...

Celso Rocha de Barros: Uma boa amostra.

Ana Clara Costa: É uma amostra muito perfeita, né? Se você pegar as diferentes regiões do Estado. Mas assim, se a gente pegar agosto, julho, que foi quando a gente começou a falar dessa situação nos estados, o Lula estava melhor. Realmente o Flávio conseguiu dar uma arrancada. Eu conversei com algumas fontes minhas que estão acompanhando bem a política em Minas e a despeito das pesquisas mostrarem, falando de Senado, agora, Celso, Aécio, Carlos Viana, Domingos Sávio e Marília Campos na dianteira, as perspectivas são mais favoráveis hoje para Domingos Sávio e Carlos Viana, porque Aécio tem uma rejeição muito grande. Tem todo aquele patrimônio que ele conquistou ao longo dos últimos anos. O Domingos Sávio é do PL. Ele é um ex-tucano. Ele foi assim, um grande participante do impeachment da Dilma. Assim, ele era um dos deputados mais ativos ali, Sempre foi muito próximo do Aécio, até por essa proximidade regional, né, de ser do Estado de Minas. E hoje está concorrendo com Aécio e provavelmente vai ganhar Aécio. E ele migrou para o PL, que acabou que era o partido meio que mais adequado para as ambições dele, com certeza. O Aécio está indo pelo PSDB, a Marília Campos, pelo PT e o Carlos Viana está indo pelo PSD do Kassab, embora com um voto muito mais à direita no caso de Minas. Há estados em que o PSD tem o voto mais da esquerda.

Fernando de Barros e Silva: É, o PSD tem de tudo e todos se encontram na cestinha de dinheiro do Kassab.

Ana Clara Costa: Exato. Mas a questão é a seguinte a candidatura do Patrus acabou que não empolgou, mas ao mesmo tempo pegou todo aquele voto do PT, que é tradicional do PT em Minas. O que o cacifa para o segundo turno. Nenhum outro candidato mais ao centro ali conseguiu se cacifar. O Kalil tentou, o Gabriel Azevedo, pelo MDB, tentou, mas tudo indica que vai ser o Patrus que vai com o Cleitinho.

Fernando de Barros e Silva: Talvez seja importante ter segundo turno em Minas para a campanha presidencial. No caso de que haja segundo turno também para presidencial, que é o que a gente acha que vai acontecer, certo?

Ana Clara Costa: Sem dúvida. Mas essa em Minas vai para o segundo turno com o favorito da direita, com possivelmente senadores da direita eleitos. E uma disputa bem apertada.

Fernando de Barros e Silva: Não, é um cenário ruim, mas se tivesse uma vitória em primeiro turno, estou falando da direita para o governador em Minas, é um tempo de TV e uma visibilidade que a esquerda e o PT têm para fazer a disputa política, que pode ser importante.

Ana Clara Costa: É, o que possivelmente vai acontecer lá é um voto Cleitinho, Lula.

Celso Rocha de Barros: Teve voto Zema, Lula.

Ana Clara Costa: Exato. Exato. É o que deve acontecer lá. Mas assim, a situação do Lula era mais confortável há alguns meses com essa consolidação do Flávio, digamos, né? Se reorganizou na campanha e tal, começou a crescer. O cenário deixou de ficar tão folgado para o Lula em Minas como estava algum tempo atrás e tá tudo muito dividido.

Fernando de Barros e Silva: Bom, a gente encerra o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, Kinder Ovo. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Mari Faria, exercite aí a sua dose semanal de maldade. Pode soltar.

Sonora: Quem que é sua referência política? Primeiro que eu acho que você não tem nunca se inspirar em todo ser humano que, como eu, como qualquer outro, vai ter pecado, vai ter falhas, vai ter equívocos, vai ter acerto. Mas um que acertou tudo aqui e ainda morreu crucificado por nós foi Jesus. Então, assim, a maior referência para mim aqui na terra que teve, que foi Jesus Cristo.

Ana Clara Costa: Pablo Marçal?

Fernando de Barros e Silva: Não é o Pablo Marçal, eu ia falar isso também.

Celso Rocha de Barros: Não é o Cleitinho não, é?

Celso Rocha de Barros: Cleitinho!

Fernando de Barros e Silva: Ahhhhhhhhh! Acabamos de falar dele.

Celso Rocha de Barros: Até que foi melhor do que os caras que eu normalmente acerto, não que Cleitinho seja grande coisa, mas em geral os que eu acerto são muito ruins. Não foi tão melhor assim não. Deixa quieto.

Ana Clara Costa: Só porque estávamos falando dele.

Fernando de Barros e Silva: Então, para os anais, é o candidato ao governo de Minas Gerais pelo Republicanos, o Cleitinho. Cleitinho Azevedo. Em entrevista ao canal do jornal O Tempo no YouTube. Com isso, encerramos o Kinder Ovo. Vamos direto e reto para o melhor momento do programa, o momento das cartinhas, o momento de vocês. Correio elegante. Eu começo então. Depois do comentário da semana passada, a Mari Seratti parafraseou Caetano Veloso: "Eu quero ir, minha gente. Eu não sou daqui, eu não tenho nada. Quero ver Fernando rir. Quero ver Fernando dar sua risada".

Celso Rocha de Barros: Muito bom.

Ana Clara Costa: Fernando Irene hein, Fernando?

Fernando de Barros e Silva: Muito bom, Mari. Agora eu ganhei meu dia. Muito bom.

Ana Clara Costa: Legal!

Fernando de Barros e Silva: o Caetano fez no exílio essa música.

Ana Clara Costa: A Ana Paula Tutui rebatizou a gente com sotaque português: "Meu marido tuga, acabou de entrar na cozinha e perguntar 'Estás a ouvir o Foro da Teresinha?'". Da Teresinha.

Celso Rocha de Barros: Excelente.

Ana Clara Costa: "Não me espanta que ele reconheça as vossas vozes, pois estou com o Foro desde o episódio zero. Só não imaginava que ele não soubesse o nome correto do programa. Entretanto, confesso que aqui por casa, provavelmente agora vocês serão o Foro da Teresinha. Vida longa à revista e ao podcast".

Celso Rocha de Barros: E à Teresinha.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom!

Celso Rocha de Barros: Um abração para eles.

Fernando de Barros e Silva: E talvez a gente vá virar o Foro do Alentejo, né?

Celso Rocha de Barros: Pois é.

Ana Clara Costa: Teresinha é meio italiano, né? Teresinha. Piauiense. Conexão Piauí, Itália.

Celso Rocha de Barros: Boa.

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Celso Rocha de Barros: O Caio comentou: "galera, péssimo momento para fazer Ciências Sociais como segunda graduação. A gente fica triste duas vezes. E agora com fundamento teórico". Bem-vindo ao meu mundo, Caio. E @Cherrytaste postou: "Poxa, queria ouvir um rap sujo agora cedo no carro, mas tá a Liz", que deduzo que seja uma criança, "e meu pai. Então como substituição vou ouvir o Foro de Teresina, que é putaria do mesmo jeito". Já antecipando o programa de hoje.

Fernando de Barros e Silva: Antecipando. Exato. Exato. Falou isso sem saber.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Fernando de Barros e Silva: O que esperava.

Fernando de Barros e Silva: Bom, o que é bom acaba logo que não é tão bom também acaba. Assim, a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Você ouve o Foro toda semana no Spotify e nas demais plataformas de áudio. Também no Spotify, o assinante da piauí e assinantes do Clube da Novelo podem ouvir as reportagens da piauí narradas por seus autores. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é do Paulo Victor Ribeiro. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitsky. A edição é da Mariana Leão e do Paulo Victor Ribeiro. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. Foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, no Estúdio Rastro, do grande Danny Dee, onde estarei domingo. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau Fernando, Tchau pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até domingo.

Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Domingo nos vemos no YouTube ao vivo, as cinco da tarde. Uma ótima semana a todos, um ótimo voto a todos e até domingo e a semana que vem.


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