questões cinematográficas

GODARD ANTISSEMITA? (2)

Em 1976, quando “Aqui e em outro lugar” foi lançado em Paris, uma bomba que não chegou a explodir, colocada por um grupo militante sionista chamado “Olho por olho”, levou ao cancelamento da exibição em um cinema. Outra sala manteve o filme em cartaz e foi atacada dias depois pelo mesmo grupo que soltou ratos no cinema e deixou para trás uma lata de gás com inscrições em hebreu. Noticiado pelo “Le Monde”, o episódio é ralatado por Richard Brody em “Everything is Cinema – The Working Life of Jean-Luc Godard” (sem edição brasileira).
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Em 1976, quando “Aqui e em outro lugar” foi lançado em Paris, uma bomba que não chegou a explodir, colocada por um grupo militante sionista chamado “Olho por olho”, levou ao cancelamento da exibição em um cinema. Outra sala manteve o filme em cartaz e foi atacada dias depois pelo mesmo grupo que soltou ratos no cinema e deixou para trás uma lata de gás com inscrições em hebreu. Noticiado pelo “Le Monde”, o episódio é ralatado por Richard Brody em “Everything is Cinema – The Working Life of Jean-Luc Godard” (sem edição brasileira).

Para Brody, a indignação de Godard, negando que o filme pudesse ser considerado prejudicial a Israel e ao bem estar dos judeus, expressava também seu egocentrismo. “Ele deixava de ver o conteúdo e o significado das imagens que filmou: sem perceber, sua imersão no equipamento de video e na teoria o haviam trazido de volta à espécie de esteticismo ingênuo de que ele tinha investido a si mesmo e ao resto da Nouvelle Vague.”

Ao opor “o conteúdo e o significado” das imagens a um “esteticismo ingênuo”, o que Brody faz é acusar Godard de formalismo – o mesmo crime atribuído a Eisenstein na década de 1930, configurando inesperada comunhão de ideias entre um jornalista americano contemporâneo e antigos dirigentes stalinistas.

Vendo “Aqui e em outro lugar”, o “egocentrismo” de Godard salta aos olhos. Difícil é entender como ele pode ser criticado por isso se, desde o título, “Tudo é cinema – a vida de trabalho de Jean Luc Godard” expressa a simbiose entre vida e obra do cineasta. No prefácio, Brody informa ter sido o próprio Godard quem disse a ele que “tudo é cinema” e deixa claro qual é a premissa da biografia: “Para Godard, o cinema sempre tem sido inseparável da sua experiência pessoal – e sua própria identidade tem sido inseparável do cinema.”

Para Brody, “Aqui e em outro lugar” é um filme “de exortação doutrinária […] que apesar da crítica do material filmado inicialmente [em 1970] expressa, por sua relação dúbia com o público alvo, a mesma advocacia inquestionada da causa Palestina e hostilidade com Israel que motivou a primeira filmagem.” Para comprovar essa afirmação, Brody cita o trecho da narração em que Anne-Marie Miéville – co-diretora do filme – critica o grupo palestino que sequestrou e matou onze atletas israelenses durante a olimpíada de Munich, em 1972, “não por suas ações mas por sua tática: em vez de exigir a soltura de prisioneiros palestinos por Israel, ela diz, deveriam ter exigido que as redes de televisão transmitissem imagens do Setembro Negro [grupo militante palestino] na final de cada competição, e só deveriam ter matado os reféns se essa exigência não fosse atendida.” Para Brody, “as palavras dela não são menos tendenciosas” do que as imagens filmadas por Godard e o então co-diretor do filme, Jean-Pierre Gorin, em 1970.

Brody não deixa de registrar, porém, que a intenção declarada por Godard ao montar “Aqui e em outro lugar”, quatro anos depois, era fazer uma auto-crítica da “pura exortação militante” que os motivou a fazer a filmagem.

O que prevalece quase quarenta anos depois é esse propósito de interrogar as imagens e o fato do filme estar sendo feito. Acima de leviandades, como o comentário sobre a ação do Setembro Negro em 1972, e das críticas ao estado de Israel, “Aqui e em outro lugar” é um filme sobre sua própria realização.

Egocêntrico, leviano, propenso a fazer piadas sobre judeus podem ser atributos da personalidade de Jean Luc Godard, mas estão longe de atestarem seu antissemitismo. Para Richard Brody, porém, a trajetória de Godard, do avô materno às amizades da juventude, e de filmes como “Aqui e em outro lugar” à “Nossa música” (2004), é marcada por manifestações de preconceito antissemita. Segundo Brody, “Nossa música” é “uma diatribe disfarçada de meditação, uma obra de preconceito abusivo disfarçada de reflexão calma, um trabalho rancoroso encoberto por uma máscara”. [continua]


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