questões cinematográficas
Jul 2011 14h31
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Não esperava voltar ao assunto tão cedo, mas Fábio Andrade, editor da “cinética”, e meu ex-aluno, mandou e-mail provocador no final de maio, fazendo reparos indiretos ao antigo professor.
As críticas veladas que se referem à idolatria do Fábio por Apichatpong Weerasethakul ficam para serem comentadas, se for o caso, em outra ocasião – só vi dois filmes do diretor tailandês, o que talvez seja pouco para insistir que a adoração por ele me parece resultar de um equívoco. Agora mesmo, Fábio manda notícias de uma exposição de Apichatpong Weerasethakul, em Nova Iorque, na qual “três dos videos são brilhantes”. Guardo meu ceticismo a respeito até conhecer melhor seus filmes
Retomo aqui apenas a provocação do Fábio relativa à série de posts, publicados em janeiro e fevereiro, sobre o suposto antissemitismo de Jean-Luc Godard, na qual foi feita referência à biografia de Richard Brody, “Everyting is Cinema, The Working Life of Jean-Luc Godard”, publicada em 2008 (não editada no Brasil). Lembro que o último post acaba com a observação de que “seria preciso se concentrar na obra e deixar o indivíduo Jean-Luc Godard de lado, o que Richard Brody, em particular, tem dificuldade em fazer”.
Em defesa de Godard, que segundo Fábio pagaria o preço de “produzir uma arte de natureza dialética, em época em que a dialética já parece completamente estrangeira à própria arte”, o editor da “cinética” foi buscar um artigo de Bill Krohn, publicado também em 2008, no nº 38 da revista “cinemascope” (leia aqui), em que o crítico americano, correspondente em Hollywood por vinte anos da revista “Cahiers du Cinéma”, declara-se “indignado com a afirmação feita por Brody de que Godard é um antissemita e com as provas espúrias de racismo que pretende ter encontrado nos filmes.”
A refutação de Bill Krohn é feita em termos contundentes. Recorrendo a um personagem de Philip Roth em “Fantasma sai de cena”, afirma que “simplificações ideológicas e reducionismos biográficos resumem” sua reclamação com Brody.
Depois de acusar “Everyting is Cinema, The Working Life of Jean-Luc Godard” de ser “longo” e “desigual”, Bill Krohn estende seu artigo além do razoável, descendo a minúcias – pelas quais chega a se desculpar com o leitor – para refutar uma série de fatos relatados por Richard Brody. Com isso, perde o foco da discussão, menospreza o interesse que a biografia de Richard Brody, apesar de tudo, preserva e acaba apenas repetindo o mesmo argumento que já serviu outras vezes para negar o antissemitismo de Jean-Luc Godard – a diferença que haveria entre ser antissionista e ser antissemita.
Bill Krohn se propõe expressamente a detonar a biografia de Richard Brody que ele, por sua vez, acusa de ser uma destruição a machadadas ( hatchet job ) de Godard, baseada numa “retórica de difamação”. Nesses termos, o artigo, mesmo sendo interessante, acaba não servindo para uma avaliação crítica ou ideológica da obra de Jean-Luc Godard, nem fazendo contribuição original para o debate específico sobre seu suposto antissemitismo.
No final, Bill Krohn tenta fazer uma interpretação psicanalítica da biografia escrita por Richard Brody, o que resulta em simplificações equivalentes às que acusa Brody de ter feito. Para concluir, Krohn volta a recorrer a Philip Roth: “Espantoso é, também, que proezas e realizações sejam consumadas na retribuição feita por uma inquisição biográfica. O homem que controla palavras, o homem que passou a vida inventando histórias, acaba, depois da morte, lembrado, se tanto, por uma história inventada sobre ele, sua marca oculta de abjeção descoberta e descrita com franqueza intransigente, clareza, certeza presumida, com preocupação séria por delicadas questões morais, e com um grau de prazer nada reduzido.”
Quando respondi, no final de maio, ao e-mail do Fábio Andrade, perguntei se ele havia lido “Réponse du muet au parlant – En retour à Jean-Luc Godard”, de Alain Fleischer ( Éditions du Seuil, 2011. Não editado no Brasil. ), diretor de “Morceaux de conversations avec Jean-Luc Godard” – série de encontros lançados em DVD pela Éditions Montparnasse (não lançada no Brasil). Como o Fábio não me respondeu, fiquei sem saber se ele leu o livro e viu os DVDs.
Se tiver lido e se atualizado, terá notado que a questão do suposto antissemitismo do Godard parece não ter fim. E que há contribuições mais recentes para o debate do que o artigo de Bill Krohn.
Depois da biografia de Antoine de Baecque (“Godard biographie”, Grasset, 2010. Não editada no Brasil) tratar da questão de maneira mais equilibrada do que Bill Krohn, Jean Narboni e Jean-Luc Godard abordaram o assunto no encontro que tiveram em Rolle, na Suiça, filmado por Alain Fleischer, mesmo ele tendo sido levado a cortar cerca de 20 minutos dessa conversa da versão final.
No livro, Alain Fleischer resume sua posição a respeito, reacendendo o debate ao negar que faça sentido distinguir antissionismo e antissemitismo: “O antissionismo como pensamento político – de esquerda, de direita, de centro, dos extremos? –, como programa de governo e de ação, é a resposta às questões políticas da França, as quais são todas, portanto, representadas em conjunto pelo sionismo, ativo no país, sob forma nefasta, prejudicial aos franceses? Uma resposta afirmativa não estaria longe de equivaler à avaliação feita pelos alemães do papel dos judeus na Alemanha do Terceiro Reich e mesmo em toda a Europa, com as consequências conhecidas. […] Se o antissionismo dos não-judeus quer dizer, como o termo parece indicar, hostilidade ao sionismo – quer dizer à volta e instalação dos judeus em Israel –, deve-se entender que os antissionistas querem ver os judeus nos países da diáspora ( onde conheceram a sorte conhecida no coração do século 20)? Godard e Dieudonné [ ator e humorista francês ] […] amam a tal ponto os judeus que preferem manté-los na Suiça e na França, em vez de vê-los partir? Ou bem estão a tal ponto convencidos que o território de Israel pertence preferencialmente aos árabes (os que hoje são chamados de palestinos, mas cujas origens são tanto no Egito, na Jordânia ou no Líbano) que eles achariam mais justo ou mais cômodo ver os judeus instalados em outro lugar, não importa onde, como foi concebido pelos nazistas: Madagascar, Argentina, Austrália ( com a condição que não ocupem, por exemplo, um território considerado vital para os cangurús…)?[…] A verdade é que, para um antissionista, os judeus não têm lugar em nenhum local, e eles são indesejáveis em todo lugar: é o que não há exagero nem deslocamento em chamar, a meu ver, de antissemitismo. […] Não estou longe de acreditar que os inimigos mais nocivos de Jean-Luc Godard se encontram nas fileiras dos que se proclamam seus [admiradores] incondicionais.” [pp.50-52]
Fábio Andrade e Bill Krohn, “[admiradores] incondicionais”, teriam algo a dizer sobre isso?
Leia também: