questões cinematográficas
Jul 2010 12h20
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Todo biógrafo deveria levar em conta o que o cineasta canadense Claude Jutra (1930-1986) declarou sobre Jean Rouch (1917-2004), a quem admirava: “Uma crônica da aventura rouchiana, com certeza é um projeto excitante, mas do qual me aproximo com cautela. Nunca admiramos sem reservas. Qualquer tributo contém alguma denúncia. Nenhum elogio merece confiança se não contiver um certo grau de maldade.” A citação é tirada de “Correndo atrás de Rouch”, relato de Claude Jutra, publicado no , sobre sua colaboração com Jean Rouch, em 1961, fazendo a quatro mãos o documentário “Nigéria, jovem república”.
Por ignorarem a declaração de Claude Jutra, roteiristas e diretores tendem a transformar seus biografados em santos. Pode ser a rainha Vitória e o príncipe Albert; John Keats e Fanny Brawne; ou Vittorio De Sica – todos disponíveis nos cinemas em “A jovem rainha Vitória”, “Brilho de uma paixão” e “Vittorio De Sica – Minha vida, meus amores”. São três hagiografias, entre tantas, que conseguem a proeza de mediocrizar o que poderia ter resultado em filmes interessantes.
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Na avalanche de entrevistas tecendo loas a Vittorio de Sica, o depoimento da filha dele, Emi De Sica, sobre o nascimento do neo-realismo “se non è vero, è ben trovato” (se não é verdadeiro, é uma boa história).
“Papai me contava um episódio no qual, uma vez, era domingo, e ele, que não tinha carro naquela época andava de bicicleta. Passando pela praça de Espanha [em Roma] viu Roberto [Rossellini] sentado na escadaria, tomando sol. Parou e perguntou:
‘Roberto, o que você está fazendo?’;
‘Devo fazer um filme com Anna, e convidei para o papel de um padre, um papel dramático, um cômico que se chama [Aldo] Fabrizi. E você, o que está fazendo?’;
‘Eu quero fazer um filme sobre os meninos que engraxam sapatos na via Veneto.’;
‘Tá bom!’;
‘Ciao, Roberto!’;
‘Ciao!’.
Papai dizia que naquele momento nasceu o neo-realismo.”
“Roma, cidade aberta” e “Vítimas da tormenta” (o título original, “Sciuscià”, refere-se à pronúncia dos meninos que ofereciam serviço de engraxate/“shoe-shine”), de fato, são filmes inaugurais do neo-realismo italiano, um do final de 1945, outro de 1946. Mas ao colocá-los no mesmo plano, como se tivessem a mesma importância histórica, e omitir os nomes de Cesare Zavattini e Luchino Visconti, parceiros na criação do neo-realismo, o que o depoimento da filha de Vittório De Sica faz é apenas tentar engrandecer, sem necessidade, a contribuição do seu pai. Exemplo de mistificação que esse tipo de filme se permite.
Diretor de mais de 30 filmes, ator em mais de 150, Vittorio De Sica mereceria um documentário feito com “cautela”, “reserva”, e “um certo grau de maldade”. Só assim, seria digno do talento dele.