questões cinematográficas
Mar 2011 15h40
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Começa hoje, em Londres, seminário de 4 dias a cargo de Werner Herzog, criador da Rogue Film School. Duas vezes por ano, desde 2009, a Escola aporta em diferentes cidades do mundo, oferecendo a oportunidade de sentir a “excitação de levar um tiro não fatal” e o aprendizado das habilidades necessárias para “neutralizar a burocracia”.
Traduzido para português, o nome da Rogue Film School seria Escola de Cinema Errante, embora “rogue” também queira dizer canalha, traste etc. – mais uma pequena provocação herzoguiana.
Os participantes do seminário, viajando por conta própria de vários quadrantes do mundo, inclusive do Brasil, passaram por uma seleção e pagaram mil e quinhentos dólares para poderem participar, advertidos de que o seminário não é para pessoas de espírito leve: “é para quem viajou à pé, trabalhou como segurança de ou guarda de hospício, está disposto a aprender a abrir cadeados ou falsificar autorizações de filmagem em países que não apoiam seus projetos. Em resumo: é para os que têm sensibilidade para poesia. Para os peregrinos. Para os que sabem prender atenção contando histórias para crianças de quatro anos. Para os que têm uma chama interior queimando. Para os que têm um sonho.”
Laptops, celulares e quaisquer outros brinquedos eletrônicos estão proibidos.
A bibliografia indicada para o seminário inclui, entre outros títulos, “Gargantua e Pantagruel”, “O relatório Warren”, “A verdadeira história da conquista da Nova Espanha” e “Geórgicas”.
Está prevista para segunda-feira a publicação neste blog de relato sobre os três primeiros dias do seminário.
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Enquanto isso, aqui no Brasil, estreia “Cópia fiel”, escrito e dirigido por Abbas Kiarostami. Vi o filme há uma semana, mas deixo, por enquanto, eventuais leitoras e leitores interessados entregues a Consuelo Lins, que comentou o filme quando foi exibido no Festival do Rio, em setembro do ano passado (leia aqui).
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A dupla de diretores de “Restrepo” cumpre uma das missões tradicionais do contador de histórias – trazer narrativas de terras distantes. Os jornalistas Sebastian Junger e Tim Hetherington passaram mais de um ano imersos em um pelotão do 503º regimento de infantaria do exército americano, no Vale Korengal, no nordeste do Afeganistão, próximo à fronteira do Paquistão. A construção e defesa de um posto avançado é a missão observada pelas câmeras de Junger e Hetherington.
A esse registro são intercalados depoimentos dos soldados gravados na Itália, em estúdio, com fundo preto, depois deles terem sido desmobilizados.
Além de viajantes de longo curso, forçados pelas próprias circunstâncias da gravação, Junger e Hetherington obedecem o preceito básico do documentário filiado à tradição do cinema direto – não interferem nos eventos registrados no Afeganistão. Ao mesmo tempo, por acompanharem de perto o que ocorre, não são observadores neutros, nem distantes.
Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, em 2010, e concorrente ao Oscar de melhor documentário este ano, “Restrepo” é um feito em termos de empenho físico dos realizadores, o que talvez tenha impedido de dar conta do absurdo da guerra que estão documentando, além de insistirem em buscar tom emotivo nos depoimentos dos soldados gravados na Itália.
O remoto vale no nordeste do Afeganistão onde “Restrepo” foi gravado fica relativamente perto – calculo que à cerca de 400 quilômetros – da fronteira do Tagequistão, onde Alexander Sokurov filmou, em 1994, “Vozes espirituais”, série de 5 episódios sobre um posto avançado de soldados russos. Em forma de ensaio, sem traço de linguagem jornalística ou apelo emocional, rompendo com as convenções narrativas do cinema documentário, “Vozes espirituais” oferece ao espectador uma nova experiência existencial, o que está longe de acontecer no caso de “Restrepo”.