questões cinematográficas
Jul 2011 06h34
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Depois de ter lido a coluna de Amir Labaki, na sexta-feira à noite (http://www.etudoverdade.com.br/periodico/coluna/coluna.asp?lng=), apalpei meu corpo e, mesmo sem estar sentindo dores ou ter ferimentos visíveis, fui direto para o hospital. Asseguro a eventuais interessados que tomografias e raios X comprovaram que estou bem, sem lesões ou fraturas, apesar dos supostos “escorregões” que teria dado, segundo Amir.
Não deveria ser preciso lembrar que o primeiro passo para a cura é admitir a doença. Em sua coluna, porém, Amir procura negar que a cultura do documentário esteja ameaçada pela dificuldade dos filmes conseguirem ser exibidos e pelos sofríveis resultados de bilheteria que vêm obtendo.
Sabemos que não é apenas o documentário a sobreviver numa tenda, ligado a aparelhos que mantém fluxo de oxigênio suficiente apenas para que não se extinga. O cinema brasileiro como um todo – o que apenas acentua a gravidade do problema – é mantido numa espécie de unidade de tratamento intensivo, sendo difícil supor que possa ter sobrevida criativa nessas condições. A alternativa é redirecionar os pressupostos legais, financeiros, culturais e comerciais do modelo de produção atual. Mas para isso, é preciso admitir antes a existência da enfermidade.
A estreia de 35 documentários em média por ano, citada por Amir, não desmente que haja superprodução, considerando que a maioria desses filmes teve passagem efêmera pelo circuito exibidor. O que se pode deduzir da grande quantidade de filmes inéditos, e do resultado de bilheteria dos que foram lançados, é que as salas de cinema – uma vitrine importante – não podem ser tomadas como principal mercado capaz de servir a uma produção que ambicione vir a ser autossustentável.
Amir pretende ainda separar cultura de mercado. Há um viés anacrônico, pré-industrial, nessa argumentação. Mercado é cultura, como escreveu em um célebre artigo nosso recém-falecido colega Gustavo Dahl. O que não implica em atribuir ao mercado poderes de cura milagrosos, mas, ao mesmo tempo, nos obriga a evitar a fatalidade que representa a condenação do cinema brasileiro a ser um eterno produto de estufa, sujeito aos humores de quem controla o grau de umidade.
Em vez de negar evidências, seria mais produtivo refletirmos sobre possíveis alternativas. Entre outras possibilidades para difundir documentários, uma que vem se consolidando é a de “Shalom amigos”, disponível no site do “Le Monde”.
Amir Labaki é um dos nossos heróis da cultura do documentário. Pedindo escusas por citar a mim mesmo, reitero o que escrevi no prefácio do livro dele – “É tudo cinema” (São Paulo: Imprensa Oficial, 2010 ):
[…] As tarefas da empreitada se multiplicam. E o vencedor da batalha não está definido. Mas Amir, otimista devotado à causa, pode ficar tranquilo. No desfecho, qualquer que seja, terá travado o bom combate.
Um certo grau de cegueira talvez seja condição do heroísmo.
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