questões cinematográficas

“INCÊNDIOS” – POETA ATURDIDO

Às 2h08 da madrugada de domingo, recebi e-mail de Armando Freitas Filho dizendo que chegara em casa há pouco “completamento aturdido pelo excelente filme ‘Incêndios’”. Ele relutou um pouco mas acabou aceitando escrever sobre seu aturdimento.
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Às 2h08 da madrugada de domingo, recebi e-mail de Armando Freitas Filho dizendo que chegara em casa há pouco “completamento aturdido pelo excelente filme ‘Incêndios’”. Ele relutou um pouco mas acabou aceitando escrever sobre seu aturdimento.

“Incêndios” e “Biutuful” acabaram ficando de fora da premiação do Oscar, o que talvez deponha a favor de ambos. “Trabalho interno”, por sua vez, conforme previsto por Amir Labaki, foi escolhido melhor documentário de longa-metragem.

Armando dedica o texto “para Cri, que me ajudou a ver o filme”.

Entrei no cinema cego. Não sabia quase nada do filme, nada do diretor, dos atores. Por que fui, assim, às cegas? Por que era um filme de ficção, não era baseado em nenhuma “história real”. Afinal, a boa ficção é muito mais abrangente para a nossa curtição, de prazer ou sofrimento, na maioria esmagadora das vezes, do que qualquer história centrada num caso, que se autolimita, naturalmente. Tinha lido, também, distraído, uma crítica da Susana Schild, que exaltava o filme. Mas como sou um mero espectador de cinema, me sinto livre da crítica, por assim dizer. Já basta para meu sistema nervoso ter que lidar com a crítica literária. Por que fui, então, assim, como que brincando de cabra-cega? Por um motivo preciso: era um dos candidatos a melhor filme estrangeiro, no Oscar. Filme estrangeiro, que não seja dos Estados Unidos, sempre me interessou, até porque são difíceis de ver num mercado assolado e ocupado por filmes de Hollywood. Logo vi que, se eu estava brincando de cabra-cega, os personagens do filme faziam o mesmo, só que não era de brincadeira: era à vera, era uma busca de vida e morte, visceral, no âmbito de uma família, que vai montando seu puzzle de encontros e desencontros e que quando o completa se detém num absurdo aritmético: 1 + 1 é igual a 1. Uma das personagens principais desse filme é uma brilhante professora de alta matemática, território de longa pesquisa árida, vida afora, e solidão, por natureza, o que torna a descoberta especialmente dolorosa, pois sua via-crúcis familiar combina com sua atividade profissional, sem o prazer de solução desta. Sim, entrei no cinema cego, e saí com os olhos arregalados. “Incêndios” é daqueles raros filmes que vai para casa conosco, para todo o sempre, com poder de incendiá-la de alguma forma. (AFF)

Armando Freitas Filho


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