questões cinematográficas
Fev 2011 11h40
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Inquietante, “Inverno da alma” sugere a existência de algo subterrâneo, invisível, prestes a eclodir.
Não será por acaso que vulcões em erupção atraem cineastas e serviram de metáfora do cinema. O diretor e teórico Jean Epstein (1897-1953) filmou o Etna, em 1923, para “A montanha infiel”, um documentário perdido. Escreveu depois, “Le cinématographe vu de l’Étna” (“O cinematógrafo visto do Etna”, sem edição brasileira), publicado em 1926, em que faz uma meditação sobre o cinema. “Diante de nós: o Etna, grande ator que faz eclodir seu espetáculo duas ou três vezes durante o século […].”
Epstein fala de uma “gala de fogo. O incêndio se comunicava com o canto avermelhado do céu. À distância de vinte quilômetros, o rumor chegava por instantes como de um triunfo longínquo, de milhares de aplausos, de uma imensa ovação.”
Werner Herzog, por sua vez, filmou, em 1976, “La Soufrière”, vulcão ativo no sul da ilha Basse-Terre, em Guadalupe, no Caribe. O complemento do título original – “Esperando por uma catástrofe inevitável” – indica o sentido do projeto. “Assim que ouvi falar da erupção vulcânica, que a ilha de Guadalupe tinha sido evacuada e que um camponês tinha recusado partir, eu quis falar com ele e descobrir que tipo de relação com a morte ele tinha.”
Essa sensação de fatalidade marca filmes como “Inverno da alma”, dirigido por Debra Granik, a partir de roteiro adaptado do romance “Winter’s Bone” (sem edição brasileira), de Daniel Woodrell. São obras pouco comuns que tratam de tragédias anunciadas, procurando desvendar algo que está além do visível – sentimentos e emoções profundas em conflito.
Busca que no caso de “Inverno da alma” ocorre em dois sentidos: um, metafórico, vem da atmosfera tensa criada pela forma narrativa; outro, literal, consiste na saga da personagem adolescente, menina de 17 anos, à procura do pai, que nunca é visto, para manter a família unida.
Premiado no festival de Sundance em 2010, aclamado pela crítica americana, indicado em quatro categorias para concorrer ao Oscar, “Inverno da alma” rendeu cerca de 8 milhões de dólares no mercado mundial, bom resultado para um filme produzido por 2 milhões.
Lançado há três semanas no Brasil, foi visto por apenas cerca de 23 mil espectadores. Exibido em 15 cinemas, teve média de frequência por sala de 602 espectadores, com queda de 50% na segunda semana. Resultado sofrível, que pode resultar de não se enquadrar, de fato, nos moldes do entretenimento de massa servido ao espectador brasileiro, mas que é pré-determinado, em certa medida, pelo distribuidor ao definir o número de salas em que será feito o lançamento, sem levar em conta a qualidade do filme.
Sendo produção independente, de baixo custo, “Inverno da alma” ganha força por seu realismo, elenco sem estrelas e informalidade do estilo da filmagem. Mais do que diferença, há um abismo separando o filme de fantasias infantilóides como “O discurso do rei” e “Bravura indômita”, que ocupam toda a atenção da mídia. O cinema americano, Debra Granik demonstra, não pode ser avaliado em bloco. É preciso distinguir filmes que escapam da fórmula dominante.