questões cinematográficas

LINA CHAMIE NO PALÁCIO

Diretora de “Tônica Dominante” (2000) e “Via Láctea” (2007), Lina Chamie participa em competição, com o curta-metragem “São Silvestre”, da 16ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que começa esta semana em São Paulo e no Rio. Sexta-feira, Lina esteve no Palácio da Alvorada com um grupo de colegas, a convite da presidente Dilma Roussef. A seguir, o comentário dela sobre esse encontro.
Imagem Lina Chamie no Palácio

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Diretora de “Tônica Dominante” (2000) e “Via Láctea” (2007), Lina Chamie participa em competição, com o curta-metragem “São Silvestre”, da 16ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que começa esta semana em São Paulo e no Rio.

Sexta-feira, Lina esteve no Palácio da Alvorada com um grupo de colegas, a convite da presidente Dilma Rousseff. A seguir, o comentário dela sobre esse encontro.

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Visita à presidenta ou a arte de ouvir

É um convite raro, no mínimo inesperado. Desses que caem do céu, ou neste caso, mais precisamente do planalto. Veio primeiro por telefone, chegando a mim de maneira truncada via recado.

Estava em Curitiba, onde leciono. No intervalo de uma aula, liguei en passant para saber como estavam as coisas em casa. A verdade é que liguei sem nenhuma pré-disposição para, de fato, ouvir como estavam as coisas em casa. Liguei simplesmente para confirmar que “em casa” existe e pertenço a algum lugar. Bem, entre outras coisas que apressadamente não ouvi, me passaram o recado que deveria responder a um telefonema imediatamente, já! Já?! Respondi impaciente, já não dá! Sem chance! Nem pensar, estou no meio de uma aula, sem tempo. E antes que eu pudesse retrucar com algo do tipo, – só se for o Papa – ou a presidenta do Brasil, há, há! Ouvi, é de Brasília, coisa importante, é do Itamaraty. Ah tá, me passa o número… Já!

Telefonei e fui atendida por alguém que foi direto ao ponto, a Senhora esta convidada para um jantar em homenagem às cineastas brasileiras com a presidenta Dilma Rousseff, no dia 25. Puxa que honra! A senhora confirma? Puxa que honra! Então a Senhora está confirmando? Puxa, que honra!

A predisposição para ouvir

O Palácio da Alvorada nos recebeu aberto, sob todos os aspectos, a começar pela arquitetura. “Portas por onde”, como diria o poeta, e neste caso sequer portas. Espaços, espaços amplos e ao mesmo tempo bem definidos. Entre a precisão dos traços e os vazios, certa informalidade no ar. Acho que nossa expectativa formal perante o evento, pelo menos a minha, embora confesse que um cineminha e jantar são meu programa predileto, desapareceu diante da leveza com que a presidenta surgiu para nos cumprimentar.

Depois de alguns drinks no salão principal, seguimos a presidenta num tour pelo Palácio, sua casa, à ‘La Dolce Vita’, porém nada decadente, muito pelo contrário, tudo alvorada. Para mim o momento mais emocionante foi a visita à biblioteca, que é lindíssima, e sóbria contém o silêncio das palavras.

O protocolo foi seguido de maneira elegante e imperceptível tornando-se o movimento natural de todos, ou melhor, todas. Proeza dos que comandam a partir de uma predisposição para ouvir.

Ou seria a tal intuição feminina a nos guiar pelo Palácio com tanta naturalidade? Tenho sempre grande dificuldade para entender essas generalizações sobre o feminino e o masculino. Ainda volto à primeira das hipóteses enquanto tese: a proeza dos que comandam a partir da predisposição para ouvir. Ou simplesmente, a proeza dos que comandam e ponto.

Enfim, se por um lado já se insinuava a sutil lição do ouvir que a presidenta generosamente nos dava, por outro já se acentuava a tagarelice de 30 mulheres juntas. Sem dúvida interessante contraste sonoro, em decibéis mais agudos, ao grave silêncio dos livros na biblioteca.

Esse desejo ou ansiedade de dizer algo à presidenta (oportunidade única), e ao mesmo tempo ouvir e ser ouvida pela presidenta (oportunidade única), a ponto do gesto de falar suprimir justamente a possibilidade de se ouvir, foi aos poucos sendo substituído por um frisson pela imagem, num frenesi de tirar fotos, fotos e mais fotos. Fotos com a presidenta.

Ela então nos conduziu à sala de cinema, de novo, espaço amplo, onde fez um discurso em que citava e contextualizava as mulheres. De maneira articulada, firme e ao mesmo tempo delicada, a presidenta homenageou as mulheres como aquelas que muitas vezes contam suas histórias em silêncio. Não deixou de falar da fome que existe no País, mas falou também de outra fome, a fome de cultura que também existe, silenciosa.

O cinema eos diálogos

Iniciou-se o filme, e falando em silêncio, ou talvez seduzido pelo silêncio, o som da projeção começou a falhar. Os diálogos sumiam por completo. Certamente não precisava consultar o protocolo para entender que não era o tipo de situação pra gritar – êê olha o som!!! Me bateu um desespero, solidariedade básica à diretora Anna, e sobretudo, angústia por estarmos perdendo os diálogos tão sagazes do filme. Não me contive e num sobressalto “gritei” baixinho – Anna! Eu sei resolver isso! (herança dos meus tempos de estudante/projecionista). Saímos da sala e fomos correndo para a cabine de projeção, pedi para o projecionista – tira o dolby, deixa SR ou Mono que seja, tanto faz, o som “piora”, mas ouviremos os diálogos. Viu Anna? O som “piorou”, mas os diálogos voltaram! E Anna também já tinha voltado para a sala. Ok, fiquei falando sozinha, mas o importante é que o diálogo voltou.

Depois da projeção fomos para a sala de jantar. Sempre com generosa e suave disposição nossa presidenta foi de mesa em mesa, a todas ouviu, com todas falou. Recebeu filmes de presente, e de presente comentou filmes. Após a sobremesa passeamos pela varanda do Palácio que dá para o vasto jardim, e outro momento emocionante para mim foi ouvir a presidenta falar sobre as capivaras que ali não vi.

Já no café, coda do encontro, troquei impressões com Eliane Cantanhede, jornalista. Perguntei curiosa – puxa é sempre assim, tão informal, tão próximo… Ela me respondeu que não, esta era uma noite muito atípica, mas que havia ali um traço característico deste início de governo: ouvir, no sentido mais profundo do verbo, ouvir como primeiro passo para compreender. Algo sofisticado e precioso entre os seres inteligentes, governantes ou não, mulheres ou homens, cineastas ou jornalistas. Em seguida fez um breve e positivo balanço dos governos desde Fernando Henrique até o presente momento, concluindo, – e quem diria, esta noite, quem sonharia esta noite. Única.

Sim, vale dizer que, além das cineastas, também estavam ali jornalistas mulheres e Ana de Hollanda, nossa ministra da Cultura, que também ouviu, e como…

Aliás, ultimamente tenho pensado muito nesta questão do ouvir em relação ao próprio fazer cinema. Não seria o documentário uma forma de tentar ouvir o outro? Antagônica à ficção em seu ponto de partida, de contar para o outro. É, mas acho que isso é outro assunto.

Dizer

Conforme a noite avançava, meu discurso imaginário retrocedia, tudo que eu queria era agradecer à presidenta. Obrigada Dilma, pelo gesto generoso de, ao nos ouvir, nos dar voz. De nos fazer sentir “em casa”, pertencendo a algo, seja a maior metade do planeta, isto é, o sexo feminino, ou a seleta categoria, cineastas brasileiras.

É impossível como artistas não vivermos neste embate dialético, em que o outro, que nos diz, e nos ouve, nos define. Dialética esta, fundamental também ao exercício do governo e da política.


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