questões cinematográficas
Jun 2010 09h12
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Uma crítica americana chamou “Mademoiselle Chambon” de “Desencanto” francês, o que só se explica pela recorrente tendência da indústria cultural para fazer versões banalizadas de obras de alta qualidade. Esse foi o caso de “Amor à primeira vista” ( “Falling in Love” ), dirigido por Ulu Grosbard – um “Desencanto” vulgarizado, apesar das atuações de Robert De Niro e Meryl Streep, produzido nos Estados Unidos em 1984.
Quem lembra de “Desencanto”/“Brief Encounter”, dirigido por David Lean em 1945, baseado na peça “Still Life”, de Noël Coward, com Trevor Howard e Celia Johnson nos papeis principais, notará sem dificuldade as inúmeras diferenças de “Mademoiselle Chambon”, mais significativas do que vagas semelhanças. Quem não viu, ou não se lembra, pode ver, ou rever “Desencanto”/“Brief Encounter” sem medo e comparar os dois filmes.
Uma primeira diferença marcante está no fato de “Desencanto”/“Brief Encounter” ser muito falado, traço proveniente da origem teatral e do roteiro em forma de rememoração. “Mademoiselle Chambon”, por sua vez, além de não ser narrado em flashback, valoriza acima de tudo o silêncio. No roteiro do diretor Stéphane Brizé e Florence Vignon, adaptação de um romance de Eric Holder, mais do que os diálogos, o que conta são as pausas e reticências, além dos olhares.
Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain têm atuação marcada por hesitações e atitudes de constrangimento, chegando a dar impressão de estarem improvisando falas e gestos. Conseguem, dessa forma, dar um tom recatado a seus personagens, o pedreiro Jean e Mademoiselle Véronique Chambon. Ele um trabalhador braçal, ela uma professora primária; ele se exprimindo por construções e reformas, ela através da música. O que Jean tem a oferecer é a troca de uma janela, Véronique uma interpretação ao violino, um tanto desafinada, de “Salut d’amour”, de Elgar.
Ao contrário do concerto para piano e orquestra nº 2, de Rachmaninoff, bem usado, mas apenas como trilha, em “Desencanto”/“Brief Encounter”, em “Mademoiselle Chambon” a música é integrada à ação, tendo função dramática específica. Quando Jean vai buscar o filho na escola, vê a professora pela primeira vez fazendo mímica de tocar violino; depois dele ter trocado a janela do apartamento dela, Véronique toca para ele, de costas, e a música continua, agora como trilha sonora, na cena seguinte em que Jean volta de carro para casa, sem demonstrar que está transtornado. Finalmente, os subentendidos se explicitam, sem que uma palavra seja dita, enquanto ela volta a tocar a peça de Elgar para o aniversariante e os convidados na festa de 80 anos do pai de Jean.
A narrativa elíptica também diferencia “Mademoiselle Chambon” de “Desencanto”/“Brief Encounter”. No filme dirigido por Stéphane Brizé, as situações nem sempre se completam, sequências sendo interrompidas sem resolução, ficando muita coisa no ar – o que não ocorre no de David Lean, de narrativa que hoje talvez já se possa chamar de clássica.
Onde “Mademoiselle Chambon” quase perde o rumo é ao recorrer a metáforas, como as explicações de Jean sobre a profissão de pedreiro, dadas para os alunos de Véronique, ou o vento na folhagem das árvores. Nessas cenas, Stéphane Brizé tangencia a obviedade e revela certa insegurança em sustentar até o fim justamente o que faz de “Mademoiselle Chambon” um filme tocante – a capacidade de narrar o que não é aparente, sem ser através de narração e diálogos.
A estação de trem, local do breve encontro criado por Noël Coward e David Lean, na sequência final de “Mademoiselle Chambon” é o lugar onde Jean e Véronique não se unem. Ela parte sozinha, ele volta para casa onde a mulher dele o espera. É mais uma, entre várias diferenças dos dois filmes.
As virtudes de “Mademoiselle Chambon” o diferenciam de “Desencanto”/“Brief Encounter”. Passados 65 anos, o filme de David Lean resiste ao tempo. O de Stéphane Brizé continuará a ser visto com prazer em 2075? Acredito que sim.