questões cinematográficas
Jul 2011 08h58
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Como na semana anterior, cheguei a São Paulo sexta-feira passada e, no caminho do aeroporto para o hotel, procurei no jornal se havia uma sessão de “Mamonas para sempre” no fim da tarde. Esperança vã. Depois de seis semanas em cartaz, o documentário dirigido por Claudio Kahns saíra de cartaz em São Paulo na véspera, continuando em exibição apenas em duas salas de Manaus e uma de Indaiatuba. Segundo o portal Filme B, nas seis semanas iniciais foi visto por 15.412 espectadores e rendeu R$ 140.290,00, resultado que mal cobriria metade do custo da comercialização, em torno de R$ 120 mil. Para pagar o custo de produção seria necessário ter renda adicional de cerca de R$ 1 milhão, correspondendo a aproximadamente 100 mil espectadores, o que é inviável.
Só me restou ver a cópia em DVD de “Mamonas para sempre”, o que farei assim que possível. A opção acessível, na sexta-feira, foi ver “Filhos do João, Admirável Mundo Novo Baiano”, documentário dirigido por Henrique Dantas. Fui o 9º a entrar na sala e, na saída, contei dezessete espectadores. Mau presságio, confirmado pelo resultado do primeiro fim de semana, quando o filme foi visto por 2.817 pessoas, em 17 salas, com média de 166 por sala, um pouco inferior ao de “Mamonas pra sempre” nos seus três primeiros dias.
“Filhos do João, Admirável Mundo Novo Baiano” tem falatório demais e música de menos. Como se tornou regra em documentários brasileiros, uma série de entrevistas e frases esparsas são editadas para compor a narrativa. Dessa maneira, fica difícil provocar mais do que leve simpatia pelo grupo e impossível comprovar sua qualidade musical.
Conheço bem as dificuldades de trabalhar com material de arquivo. E a impossibilidade de incluir, por falta de autorização, o depoimento de Baby Consuelo, que chegou a ser gravado, pode ter agravado a pobreza do acervo. Ainda assim, a fragilidade de “Filhos do João, Admirável Mundo Novo Baiano” está na tentativa de recriar a trajetória do grupo, e sua efêmera experiência de viver em comunidade, sem imagens e sons suficientes para tanto. Tom Zé, por si só, por maior que seja sua verve, não é suficiente para sustentar um documentário.
Cheguei a pensar que não existissem registros documentais que permitissem mostrar a trajetória e os méritos dos Novos Baianos. No dia seguinte, porém, soube por minha colega, a editora Regina Dias da Silva, que existia um documentário, dirigido por Solano Ribeiro, que inclui registros de apresentações musicais do grupo.
Verifiquei que o documentário de média-metragem escrito e dirigido por Solano Ribeiro para uma televisão alemã, em 1973 – “Novos Baianos F.C.” –, com duração de 43 minutos, está disponível no YouTube desde 2009, dividido em 6 partes (veja abaixo). Diante disso, para quê ir ao cinema?
“Novos Baianos F.C.” tem, entre outros, o mérito da simplicidade, intercalando breves sequências documentais e informativas com excelentes números musicais. E é muito bem filmado, sendo o inspirado trabalho de câmera feito por Uli Burtin, diretor de fotografia austríaco estabelecido no Brasil desde 1981.
Além disso, “Novos Baianos F.C.” tem só quatro depoimentos, um deles mais breve, com duração de 36 segundos, definindo o que é ser novo baiano: “Novos baianos? Novo baiano é um cara que não adimitiu deixar de ser menino. É um cara que tem que saber pelo menos, saber uma… duas coisas pelo menos. Mas saber mesmo uma coisa. Assim como… uma coisa que seria, por exemplo, carregar um tronco de árvore enorme, assim, um quilômetro, dois. Um negócio assim, como, jogar futebol e fazer música, cantar, tocar, fazer como músico mesmo. É isso aí. Novos baianos é um cara além e que acredita que a vida tá começando.”
Passados quase quarenta anos e havendo acesso franqueado ao documentário “Novos Baianos F.C.”, para justificar a realização de outro filme sobre o grupo teria sido preciso, além de um acervo equivalente de números musicais, ou pelo menos a inclusão de alguns do filme de Solano Ribeiro, algo mais do que um mero recorte de depoimentos. É a isso que se resume o decepcionante “Filhos do João, Admirável Mundo Novo Baiano”.
Assista ao documentário Novos Baianos F.C., de Solano Ribeiro