questões cinematográficas

“MELANCOLIA” – SONO PROFUNDO E LOAS

Enquanto o bonequinho do Globo está imerso em sono profundo, Melancolia recebe loas no Estado e na Folha de S. Paulo. Mesmo reconhecendo o direito de divergir, a disparidade das avaliações chama atenção. No Estado, Luiz Zanin Orichio qualifica Melancolia como “excelente” e lhe atribui a cotação máxima de cinco estrelas; na Folha, Inácio Araujo considera o filme “ótimo”.
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Enquanto o bonequinho do está imerso em sono profundo, Melancolia recebe loas no Estado e na Folha de S. Paulo. Mesmo reconhecendo o direito de divergir, a disparidade das avaliações chama atenção.

No Estado, Luiz Zanin Orichio qualifica Melancolia como “excelente” e lhe atribui a cotação máxima de cinco estrelas; na Folha, Inácio Araujo considera o filme “ótimo”.

Na hipótese da crítica ter alguma influência na decisão de ir ver o filme, leitores do terão deixado de ver o “excelente” e “ótimo” Melancolia, enquanto os do Estado ou da Folha podem ter saído do cinema maldizendo os críticos paulistanos. E lamentando não terem ficado em casa dormindo, como o bonequinho, talvez completasse André Miranda. De qualquer modo, será que o bonequinho e as estrelas, no fundo, não menosprezam a inteligência dos leitores?

O mesmo filme considerado por André Miranda, no , “esquemático, tanto pela estrutura quanto pelos personagens um tanto caricatos”, para Luiz Zanin Orichio, no Estado é “simples em sua compreensão imediata. Mas que tem, ao que parece, outras implicações e leituras”. Para tratar do tema da melancolia, segundo Orichio, Lars von Trier fala do “mal do mundo, sem que qualquer causa se apresente para explicá-lo”. Para Trier, “o homem contra si mesmo é o cataclisma fundamental. Donde essa estranha e pungente ficção científica, aparentada a ‘Solaris’ e ‘Stalker’, de Tarkovski. Não apenas pela estética, mas pela preocupação de entender, em chave metafísica, a inquietação fundamental do presente.”

Orichio estaria tratando do mesmo filme ao qual, segundo André Miranda, faltaria direção, perguntaria um leitor desavisado.

Inácio Araujo, na Folha, por sua vez, também elogia Melancolia, mas propõe ver o filme de outro ângulo, perguntando se “não seria esse choque de planetas, com seu sentimento de fim de mundo iminente, uma premonição do selvagem ataque contra um acampamento de adolescentes por um neonazista norueguês. E não seria esse ataque metáfora de um fim de mundo, ou do fim do percurso de uma Europa que reluta em aceitar a existência do outro?”

Dias antes da estreia de Melancolia e das primeiras críticas serem publicadas (2/8), Vladimir Safatle escrevera na Folha que “a metáfora não poderia ser mais clara a respeito desta doença que assombra a época e retira nossas forças a ponto de dissolver o mundo de nossos interesses. Doença que perdeu seu nome de origem para ser, atualmente, chamada de ‘depressão’. Dificilmente encontraremos um filme que retrate de maneira tão forte e realista tal quadro clínico. Mas sua grandeza está em outro lugar. Numa época como a nossa, raras são as obras que nos lembram como a confrontação com o que Spinoza chamava de ‘paixões tristes’ é, muitas vezes, a única maneira de aprender a lidar com o caráter brutal e contingente do fim, da perda, do insensato.”

Enquanto isso, o bonequinho dorme. Não seria o caso de aproveitar que ele está dormindo e aposentá-lo de vez junto com as estrelas usadas para dar cotações? Parece difícil conciliar o exercício da crítica com o de guia de consumo.

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