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NO RASTRO DE ORIDES FONTELA

As glórias e agruras da poeta homenageada na Flip deste ano
Obra e trajetória de Orides Fontela tem sido redescoberta após anúncio da Flip - Divulgação/Fritz Nagib
Obra e trajetória de Orides Fontela tem sido redescoberta após anúncio da Flip - Divulgação/Fritz Nagib

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Das muitas histórias, algumas já folclóricas, sobre a poeta Orides Fontela, começo por esta: ela tinha 15 anos, usava um vestido maior que seu corpo miúdo e ficou desesperada ao ouvir o professor recitar Navio Negreiro, de Castro Alves, na escola. Ela se levanta aos prantos, coloca as mãos na cabeça e grita: “Que horror, que sofrimento, meu Deus!” A classe cai na gargalhada, e ela chora ainda mais com a humilhação.

O episódio ilustra a personalidade de alguém que pareceu estar sempre deslocada por onde passou. Vencedora do prêmio Jabuti e poeta admirada por intelectuais da estirpe de Antonio Candido e Marilena Chauí, Orides Fontela teve dificuldade para se entrosar entre seus pares e nunca foi devidamente reconhecida pelo público. Marginalizada, morreu tuberculosa e sozinha, em 1998, aos 58 anos, em um sanatório em Campos do Jordão, no interior de São Paulo.

Desde fevereiro, no entanto, sua obra – e trajetória – tem sido redescoberta após o anúncio de que ela será homenageada na próxima edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. A curadora da festa, Rita Palmeira, diz que a escolha por Orides ocorreu por diversas razões. Uma delas é a necessidade de homenagear uma mulher, já que dois homens foram celebrados em 2024 e 2025: João do Rio e Paulo Leminski, respectivamente. 

Além disso, a curadora anseia levar os versos de Orides a um público mais amplo. “Conheço a poesia dela desde que eu era estudante de letras na Unicamp, nos anos 1990, e nunca entendi porque a obra dela, tão celebrada no meio acadêmico e no dos poetas, nunca foi além desse público. Uma das hipóteses, que vai ser debatida na Flip, é a de que a pecha de mulher difícil pode ter contribuído para essa invisibilidade, o que tem um viés de gênero forte, já que homens difíceis se tornaram os poetas malditos celebrados.”

Para aproveitar a curiosidade em torno da autora, a editora Hedra decidiu relançar seus cinco livros: Transposição (Instituto de Espanhol da USP, 1969), Helianto (Duas Cidades, 1973), Alba (Roswitha Kempf, 1983), Rosácea (Roswitha Kempf, 1986) e Teia (Geração Editorial, 1996).

“Ao ver os livros separados, na forma como a editora está relançando, o leitor vai poder enxergar a poesia de Orides como um caleidoscópio, que vai formando novas imagens a cada nova obra”, diz a crítica literária Ieda Lebensztayn, que coordenou o relançamento das novas edições.


Orides nasceu em São João da Boa Vista, município a 216 km de São Paulo, onde estive no fim de abril. Acompanhada da cantora lírica Neusa Menezes, que integra a Academia de Letras da cidade, perguntei aos jovens que encontrei pelo caminho sobre a escritora. Nenhum deles a conhecia, tampouco sua poesia. A pianista Guiomar Novais, o sambista Geraldo Filme e a também poeta Pagu, homenageada pela Flip em 2023, são sanjoanenses mais populares.

A casa onde Orides nasceu ainda existe: tem paredes pintadas de azul claro e janelas de alumínio. Filha única (“amostra grátis”, como dizia), ela cresceu na companhia das primas, pois o imóvel era geminado com o de parentes. “Minha avó, que conviveu com ela nesse quintal, contava que ela parava a brincadeira, se sentava em uma mesa e escrevia, escrevia...”, afirmou Fábio Nogara, músico e compositor de 30 anos.

Fábio, que cresceu ouvindo sobre as excentricidades da prima de sua avó, é hoje o responsável pela burocracia que envolve os direitos autorais da obra de Orides. Procurado pela editora Hedra, se viu na função de ir atrás de outros parentes distantes da autora para obter uma procuração: chegou a quinze pessoas. “Tinha até gente que eu já conhecia, como um amigo do meu irmão, que eu sequer imaginava que também era familiar da Orides.”

A escola onde a poeta estudou – Grupo Escolar Joaquim José – ainda está de pé e faz parte da rede estadual de ensino. Tentei conhecer o local, mas fui impedida por um funcionário (que não conhecia Orides ou seus livros). O cinema, que ela frequentava com o pai, o marceneiro Álvaro Fontela, segue ativo. A ida dos dois às sessões era uma atração à parte, me disse Neusa Menezes. “Quem os via se sentava longe porque ela [Orides] interagia com os personagens na tela, aos gritos. Isso quando ela não lia legendas em voz alta para o pai analfabeto.”

Apesar de algumas recordações espalhadas por São João da Boa Vista, a presença de Orides na memória do município é pequena. O prefeito Vanderlei Carvalho (PSD) afirma que isso se deve a personalidade reclusa da escritora. “O isolamento que ela viveu ainda se reflete no desconhecimento de muitos jovens sanjoanenses. O poder público reconhece a necessidade de aproximar sua poesia concisa dos estudantes”, afirmou por e-mail. 

Ele se lembra vagamente da poeta, embora fosse ainda criança quando ela foi embora. “Era uma figura envolta em mistério, quase um mito urbano de inteligência e isolamento; comentavam sobre uma mulher que ‘falava difícil’ e vivia mergulhada em livros de filosofia.”

Por influência de Davi Arrigucci Jr., crítico literário e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Orides deixou São João da Boa Vista e se mudou para São Paulo entre 1967 e 1968. Conterrâneos, eles estudaram na mesma escola no município interiorano. “Ela era uma menina singular, observadora e bem-humorada. Era três anos mais velha que eu, mas convivíamos na biblioteca. Às vezes, a via no consultório do meu pai, que ficava na nossa casa”, recorda-se o crítico. 

Ao ler o poema Elegia publicado em O Município, jornal local, o crítico incentivou a escritora a estudar filosofia na USP. “Ela tinha uma mente muito filosófica.” Para impulsionar a incipiente carreira da amiga, Arrigucci Jr. enviou dois de seus poemas ao escritor Décio Almeida Prado, à época crítico literário do jornal O Estado de S. Paulo, que os publicou.

Orides foi morar na Avenida São João, no Centro, na Casa do Estudante, uma moradia para alunos de baixa renda da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Entrou na USP em 1969 e se formou em filosofia três anos depois. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em abril de 1996, por ocasião do lançamento do livro Teia, ela explicou a escolha do curso. “Você cai aqui nesse planeta, um lugar esquisitíssimo, não tá entendendo nada. Eu queria entender e cheguei à conclusão de que estou aqui para escrever versinhos.” 

Após concluir a graduação, deu aulas no ensino primário, em uma escola pública no bairro da Penha, na Zona Leste, mas a experiência durou pouco. “Como professora, era péssima”, diz Gustavo de Castro, jornalista, professor da Universidade de Brasília e autor de Enigma Orides, biografia da autora publicada pela editora Hedra em 2015 e que será relançada neste ano. 

Em São Paulo, Orides lançou todos os seus livros, assumiu a vida boêmia, fez e desfez amizades, perambulou pelas ruas sem destino e se embriagou nos botecos do Centro. Os causos mudaram: sai a menina que interagia com os atores no cinema e entra a “louca dos gatos” (ela os amava e odiava na mesma medida). Viveu o alcoolismo, teve crises nervosas e experimentou tempos de penúria. “Isso tudo são fases, faz parte do passado”, tergiversou ela na mesma entrevista para a Folha. “Ela teve muitas amigas, fiéis até o final da vida. Muita gente a ajudou”, ponderou Arrigucci Jr.

Católica de origem, adotou o zen-budismo em 1972, após se formar em filosofia. “Meio sem querer, tornou-se monja da primeira turma de religiosos zen-budistas formados no Brasil pelos japoneses, fundadores do Templo Busshinji, no bairro da Liberdade”, escreveu Castro, seu biógrafo, no artigo A mística de Orides Fontela: revolta e selvageria, de 2015. Ao ser batizada, ela teve a cabeça raspada e recebeu o nome de Myoshen Xingue (“Mente Florescida”).

A mente inquieta, que oscilou entre a genialidade e certa dose de desequilíbrio, era um dos seus traços. Castro diz que a esquizofrenia e a bipolaridade rondavam sua vida e que a escritora procurou ajuda em hospitais psiquiátricos – já adulta, ela recebeu o diagnóstico de “distúrbio da simbolização”, quando há dificuldade de elaborar angústias e emoções. “Com o tempo, ela se desencantou com a psiquiatria e passou a dizer que preferia conversar com os pretos-velhos da umbanda, porque, além de não cobrarem nada, conseguiam acalmá-la”, afirmou o biógrafo.

Nos últimos anos de vida, Orides foi despejada do apartamento que alugava em São Paulo, na Rua Cesário Mota, na Vila Buarque, e voltou a viver na Casa do Estudante. Tinha 55 anos, era uma das maiores poetas do país e se mantinha com uma aposentadoria de 423 reais (cerca de 4 mil reais em valores corrigidos). Dividia a residência com jovens de todas as idades. Um deles, um estudante peruano, a encontrou passando mal e pediu socorro. Ela morreu em 2 de novembro de 1998. “Uma semana antes ela me ligou, estava muito nervosa. A acalmei e disse que ela já tinha feito muito, que tinha escrito uma grande obra”, relembrou Arrigucci Jr.

Com a ajuda de amigas, Orides foi enterrada em Campos do Jordão. Em 2016, em uma ação coordenada pela Academia de Letras e pela Unifae (Centro Universitário das Faculdades Associadas), seu corpo foi cremado e levado para São João da Boa Vista. 

Suas cinzas estão no Memorial Orides Fontela, na Academia de Letras, em uma prateleira tão espartana quanto foi sua vida. Estão ali os dois prêmios que ganhou, ambos na categoria poesia: o Jabuti, em 1983, por Alba (uma réplica, pois ninguém sabe o paradeiro da estatueta original), e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), de 1996, por Teia. Há ainda uma máquina de escrever e a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, na categoria Grã-Cruz, que recebeu postumamente do Ministério da Cultura, em 2007. Em uma prateleira abaixo, seus livros e obras sobre ela. Ao lado, sua cadeira de balanço.


A escrita de Orides tem influências diversas. “Ela bebeu de muitas fontes: concretismo, modernismo, poesia visual, místicos espanhóis e filosofia”, afirma Arrigucci Jr, que cita intercessões com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. “Orides leu muito, juntou diversas referências e fez disso tudo uma poesia depurada, concisa e singular”, complementa Rita Palmeira, da Flip.

Sua obra foi marcada por aproximações e distanciamentos em relação à própria biografia. Maria Célia Marcondes, professora aposentada de São João da Boa Vista, diz que poemas como A Paisagem Natal, Herança e Soneto à minha irmã (nascida morta) carregam traços da vida no interior. As reminiscências aparecem também em Transposição, seu primeiro livro, no qual ela já anuncia ao mundo sua forma objetiva e reflexiva. 

Orides chamava a obra de selvagem por ter sido toda escrita durante a adolescência em sua cidade. Nele, há poemas bem conhecidos como Fala e Meio-dia. “Ele não apenas incorpora o pensamento, como explora suas possibilidades criativas por meio do experimento poético da linguagem que opera por fragmentação e concisão”, diz a crítica literária Nathaly Felipe no posfácio da edição atual. 

O segundo livro, Helianto (sinônimo de girassol), é definido pela autora como uma obra menos etérea, possivelmente por ter sido feito no mesmo período no qual ela se formou em filosofia. Quando Orides planejava o lançamento de Alba, de 1983, Arrigucci Jr. apresentou a escritora a Antonio Candido, um dos principais críticos literários do país, que escreveu o prefácio do título. O texto diz que Orides “trabalha na base de uma parcimoniosa opulência ou, de maneira mais simples, que produz muito significado com pouca palavra”. 

A obra vencedora do prêmio Jabuti tem versos que giram em torno da luz e da lucidez (Alba, do latim albus, pode ser branca ou alvorecer). Arrigucci Jr. acredita que esse apreço pela luminosidade seja resquício da terra onde nasceram. “É que São João da Boa Vista é uma cidade claríssima.”

Três anos depois veio Rosácea, que para Augusto Massi, crítico literário e professor de literatura brasileira da USP, “é a soma de todos os livros” que Orides havia publicado até então por reunir uma “dicção mais autobiográfica e uma gramática pessoal”. Ele está preparando um livro com poemas de Orides que dialogam com o público infantil. 

Em 1995, Orides foi convidada para um evento na Academia de Letras de São João da Boa Vista. A recusa, batida à máquina e guardada em seu acervo, é uma relíquia – e também um atestado da periclitante condição da autora: “Agradeço de coração o convite recebido para a reunião da Academia de minha terra, mas... não vai dar. O real me deixou realmente ‘dura’, e, no momento, está difícil pensar em viajar.”

No ano seguinte, entretanto, Orides foi à cidade para lançar Teia, seu último livro e vencedor do APCA. Menos hermético, o título transparece uma necessidade da autora de se tornar compreendida e alcançar um público maior – ela estava deprimida porque muitas editoras recusaram o projeto por causa da sua fama de briguenta. 

Talvez por isso tenha sido o que ela mais se esforçou em divulgar. Deu entrevistas a jornais e na televisão, como no programa Onze Meia, de Jô Soares, fato raro em sua trajetória. “Não é por glória que estou fazendo todo esse auê, é por dinheiro”, disse a poeta à Folha. Ela se intitulava como “proleta” (proletária e poeta).

A crítica Ieda Lebensztayn, da editora Hedra, entende que o poema O Espelho (do livro Rosácea) é uma síntese de sua obra. Eis os versos:

espelho: atra

vés

de seu líquido nada

me des

dobro

Ser quem me

olha

e olhar seus 

olhos

nada de 

nada 

duplo

mistério.

Não amo

o espelho: temo-o

“Há nele um impasse entre o ser sujeito e ser objeto que traz um mistério, mas que também revela um imenso vazio existencial”, afirma Lebensztayn. Outro mais simbólico desse vazio existencial pode ser O Antipássaro, publicado em Teia, sua obra derradeira. Quem é esse pássaro cuja vida é tão desajeitada?

Um pássaro
seu ninho é pedra

seu grito
metal cinza

dói no espaço
seu olho.

Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.

Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura.
Apesar.


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