questões cinematográficas
Nov 2010 20h04
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Entrevista de Sylvie Lindeperg, autora de “Nuit et Brouillard, Un film dans l’histoire”, dada a Jean-Louis Comolli e publicada originalmente na revista “Images Documentaires”, (nº 63, 2008), está reproduzida no primoroso catálogo do forumdoc.bh.2010 que está em curso até dia 28.
Este é o 14º Festival do Filme Documentário e Etnográfico/Fórum de Antropologia, Cinema e Video, organizado e produzido a cada ano, em Belo Horizonte, por uma equipe de valorosos entusiastas ligados à Associação Filmes de Quintal, sempre acompanhado por um catálogo que é um acontecimento à parte.
Na entrevista, Sylvie Lindeperg esclarece alguns aspectos das questões às quais nos referimos no post anterior, e ajuda a tentar esclarecer o enigma de Nilton (veja aqui o post):
“As imagens gravadas [filmadas seria o correto] nos guetos poloneses inscrevem-se de maneira exemplar numa lógica de propaganda. Podemos falar de sua aparente contradição: de um lado, a política de invisibilidade pretendida pelos nazistas explica a raridade absoluta de imagens gravadas [sic] no perímetro dos centros de extermínio (não basta somente liquidar, é preciso destruir os sinais do assassinato); do outro lado, uma profusão de imagens foi rodada nos guetos. A história dessas ‘tomadas’ ainda está por ser construída.
Fritz Hippler, que dirigia a seção cinematográfica dentro do Ministério da Propaganda, conta em suas memórias que Joseph Goebbels lhe dera ordem de ir filmar nos guetos. Os conselhos do ministro do Reich para a Educação do Povo e a Propaganda revelam sua vontade de fixar ‘o judeu’ no seu estado original, de apreender sua ‘verdadeira natureza’ nos guetos, pois, ele explica, a raça judia vai desaparecer e é preciso conservar dela o arquivo.
[…]
Muitas sequências foram filmadas no gueto de Varsóvia entre 1940 e 1942 pelos câmeras nazistas. Elas trazem, na maioria das vezes, um olhar antisemita que está de acordo com uma visão racialista ‘do judeu’. Os câmeras procuraram nos guetos fabricar imagens que não faziam referências à realidade mas que estivessem de acordo com seu imaginário antisemita. Essas imagens trazem o olhar nazista traduzido por vários procedimentos bastante conhecidos: contra-‘plongées’, enquadramentos particulares, trabalho com as lentes focais etc.
[…]
No meio da população judia, os câmeras selecionam rostos que correspondem ao tipo ideal do imaginário antisemita, chegando à beira da caricatura nos momentos do enquadramento mais fechado.
[…]
Por exemplo, certas cenas mostram refeições opulentas, regadas a champagne, depois das quais os figurantes judeus, vestidos com belas roupas, saem pelas ruas pulando cadáveres. Os nazistas usam essa violência para dividir a população. Com cinismo, eles chegam a enviar a conta para a comunidade judia pagar.”
Suspeito que meu amigo Nilton continuará intrigado, por considerar, com razão creio eu, que vistas hoje há algo nessas imagens que escapa inteiramente à intenção de quem as encomendou e filmou.
A entrevista completa de Sylvie Lindeperg a Jean-Louis Comolli está no catálogo do forumdoc.bh.2010. Download pode ser feito aqui.