questões cinematográficas
Nov 2010 20h09
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A historiadora Sylvie Lindeperg, autora de “Nuit et Brouillard, Un film dans l’histoire” (Paris: Odile Jacob, 2007), inédito no Brasil, esteve no Rio para uma palestra que dará também hoje, em Belo Horizonte, no “forumdoc.bh”.
Pena que meu amigo Nilton não tenha assistido. Ele, que sempre detestou “Noite e neblina” e ultimamente andou revendo sua opinião, teria acabado de se juntar aos admiradores do filme dirigido por Alain Resnais, lançado em 1956.
Segundo a autora contou, o próprio Claude Lanzmann, depois de ter lido o livro dela, teria parado de criticar “Noite e neblina”. Recompensa maior, Sylvie Lindeperg não poderia ter, considerando a declaração de Lanzmann, ao lançar “Shoah” em 1985 – já citada em post anterior –, numa referência implícita, entre outros a “Noite e neblina”: (leia aqui o post anterior)
“[…] eu não gosto de montagens de imagens de arquivo. Não gosto da voz ‘off’ comentando as imagens ou fotografias como se fosse a voz do conhecimento institucionalizado. Pode-se dizer o que se quiser, a voz “off” impõe um conhecimento que não surge diretamente do que se vê; e não se tem o direito de explicar ao espectador o que ele deve entender.”
( publicada originalmente na revista “Cahiers du Cinéma” nº 374, julho-agosto 1985, a entrevista dada a Marc Chevrie e Hervé Le Roux está reproduzida em “Claude Lanzmann’s ‘Shoah’ – Key Essays”, editado por Stuart Liebman, Oxford University Press, 2007 ).
Entre as questões tratadas por Sylvie Lindeperg na palestra, destaco apenas algumas entre tantas de interesse: (1) o uso em “Noite e neblina” de trechos da filmagem feita por Rudolph Breslauer, em 1944, por encomenda do comandante do campo de concentração de Westerbrok, na Holanda. As mesmas, aliás, a partir das quais Harun Farocki fez “Intervalo” em 2007 (leia aqui o post "Um Filme Inacabado – excesso e contenção"); (2) a projeção de “Noite e neblina” durante o julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, e o réu assistindo o filme de Alain Resnais; (3) a origem da música de Hans Eisler em que o hino nacional alemão é citado; (4) as alterações feitas na então Alemanha ocidental, eliminando da trilha musical a referência ao hino nacional; (5) as canibalizações posteriores de que “Noite e neblina” foi vítima, tendo chegado a ser transformado em material de arquivo de “Remember us”, documentário anticomunista feito para a televisão americana em 1960.
Lamento não ter podido esclarecer minha dúvida em relação à referência feita por Sylvie Lindeperg à sequência do embarque de deportados na plataforma da estação de trem de Westerbrok, na Holanda, em que, segundo ela, Resnais “perturba a falsa tranquilidade das cenas […] no meio das quais introduz um elemento estranho, encontrado no Studio de filmes documentários de Varsóvia” – dois planos, filmados na Polônia, mostrando um homem que caminha numa plataforma de trem, acompanhado por três crianças (“Nuit et Brouillard, Un Film Dans L’Histoire”, p.62).
Não vejo “tranquilidade” nas cenas da plataforma de embarque em Westerbrok. Além disso, sem comprovação de que os dois planos tenham sido inseridos por perturbarem “a falsa tranquilidade das cenas”, a interpretação de Sylvie Lindeperg me parece carecer de sustentação. Ainda mais considerando que o procedimento de incluir planos de épocas e contextos diferentes é adotado ao longo de todo o filme, sendo coerente com a maneira de Alain Resnais usar as imagens em “Noite e Neblina”.
Na época, como a própria Sylvie Lindeperg assinala, as informações disponiveis sobre as imagens de arquivo eram muitas vezes precárias, e Alain Resnais não hesita em usar imagens sem situar onde ou quando foram feitas. Um exemplo, entre tantos, é a famosa foto conhecida como “A Child at Gunpoint” (“Uma criança na mira da arma”), feita em 1943 e que em “Noite e neblina” faz parte de uma sequência que se refere às deportações ocorridas na década de 1930 (leia aqui o post "Um filme inacabado – Enigma de Nilton).
Ao Nilton e a todos recomendo, além da palestra de hoje em Belo Horizonte, a leitura urgente de “ ‘Nuit et Brouillard’ – Un film das l’histoire” de Sylvie Lindeperg.