11 Ago 2026
18 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
No início dos anos 2000, Wesley e Joesley Batista comandaram a expansão acelerada da JBS. Compras bilionárias, apoio financeiro do BNDES, proximidade com líderes políticos e influência crescente em Brasília transformaram a empresa em uma potência sem precedentes. Mas a mesma rede de relações que impulsiona o crescimento também ajuda a explicar sua maior crise. O episódio acompanha os bastidores do escândalo de corrupção de 2017 até a prisão dos irmãos – e mostra como Wesley e Joesley se tornaram protagonistas de um terremoto político que atingiu praticamente todo o sistema partidário brasileiro.
Leia o perfil dos irmãos Batista escrito em 2015 por Consuelo Dieguez: https://piaui.uol.com.br/revista/101/2384-o-estouro-da-boiada/
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Trovão Mídia e revista piauí.
Consuelo Dieguez: No dia 25 de outubro de 2012, Joesley Batista estava no altar da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, a preferida dos ricos e famosos da cidade. Era a celebração de seu casamento com a jornalista Ticiana Villas Boas, apresentadora do telejornal da Band. Eles tinham se conhecido num evento empresarial no ano anterior. Joesley estava de meio fraque preto, colete e gravata de seda cinzas, calça de risca de giz e camélia branca na lapela. Esperava pela entrada da noiva. Ela usava um vestido da Chanel feito sob medida. Ticiana foi a Paris pelo menos vezes no jatinho do futuro marido para fazer as provas de roupa. O buquê era de camélias brancas, assim como a lapela do noivo. Ornava com a decoração da igreja, toda em flores brancas. Joesley vivia seu auge pessoal e profissional. Em 2012, aos 40 anos, era um dos mais bem-sucedidos empresários brasileiros, junto com Wesley, que éum ano e dez meses mais velho. Os irmãos goianos também despontavam no mercado internacional. Tinham comprado a Swift, a Pilgrim's e a Smithfield nos Estados Unidos. Em São Paulo, Joesley circulava em uma Lamborghini, tinha comprado uma mansão no luxuoso bairro Jardim Europa, viajava pelo mundo e jatinhos particulares e cruzava os mares em seu iate. O casamento era a coroação da boa fase do Joesley e também do Wesley, que renovou votos de casamento semanas depois em São Paulo, com Alessandra Garcia, em evento menor, mas não menos luxuoso. Depois da cerimônia na igreja, a festa de Joesley e Ticiana foi na área externa da sede da JBS, em uma estrutura construída especialmente para o casamento. A decoração contava com 50 mil orquídeas e o buffet do restaurante Fasano, um dos ícones da elite paulistana. Vários grandes empresários e celebridades compareceram e se esbaldaram na pista de dança, embalados pelos shows de Ivete Sangalo, amiga de Ticiana, e da dupla sertaneja Bruno e Marrone. Entre os cerca de mil convidados, estavam políticos capazes de influenciar os destinos do país. Figuras como Michel Temer, do PMDB, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, do PT, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, o candidato do PMDB a Prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita, e o líder sindical e deputado federal Paulinho da Força. Wesley e Joesley Tinham muito dinheiro. Isso não era novidade para ninguém. Mas agora mostravam para todo mundo que também eram íntimos do poder.
Consuelo Dieguez: Eu sou Consuelo Dieguez e esse é O Berro do Boi, uma série original da Trovão Mídia, com a revista piauí. Episódio três: O abate. Sorte no amor e nos negócios também. Wesley e Joesley não paravam de crescer. Em junho de 2013, pouco tempo depois do casamento, a JBS deu um novo salto. A empresa comprou a marca Seara Alimentos, especializada em frango do frigorífico Marfrig, por quase seis bilhões de reais.
Sonora: A aquisição inclui todas as 30 unidades de processamento de aves e suínos e todos os produtos industrializados da Seara, além da empresa de couros Zenda.
Consuelo Dieguez: O negócio não foi bom só para a JBS. Também serviu ao Banco Nacional de Desenvolvimento, o BNDES. O Marfrig era um dos frigoríficos escolhidos como campeão nacional, tinha recebido financiamento para comprar a Seara e virar um colosso mundial na área de alimentos. Mas o conglomerado Marfrig Seara não deu certo e o banco ficou com o mico na mão. 2 bilhões e meio de reais em títulos de dívida de uma empresa praticamente quebrada. Com a compra da Seara, Wesley e Joesley, parceiros do BNDES há anos, resolveram o problema do banco e a JBS entrou em um novo mercado no Brasil, o segmento de frango. Wesley E Joesley tem apetite pelo risco e uma disposição incomum entre os mega empresários brasileiros para apostar em empresas gigantescas que estejam quase quebrando. Dentro da JBS, eles são vistos como heróis. Donos de empresa que botam a mão na massa, ou melhor, na carne. A história da família que saiu do interior goiano com pouco ou nenhum estudo formal, que abatia boi no meio do cerrado e que virou um império global, está na cultura cotidiana dos 280 mil funcionários que trabalham lá. A obsessão em tirar o máximo de carne na hora de refilar a costela, em encher o caminhão até a tampa, em não desperdiçar nada, define os irmãos Batista. Como me disseram, é no centavo que Wesley e Joesley fazem o bilhão. Mas esse apetite todo por comprar empresas concorrentes tem que ser regulado. É o que faz o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. O órgão investiga fusões e aquisições de empresas para evitar a criação de monopólios e garantir a livre concorrência. A aquisição da Seara pela JBS foi autorizada pelo Cade sem qualquer restrição. Ou seja, o Cade permitiu que a JBS ficasse com todas as marcas da Seara, como a Resende, a Massa Leve e a Doriana. Só que pouco tempo antes, num caso similar, o Cade agiu de outra forma. No processo de fusão da Sadia com a Perdigão, que criou a BRF, outra gigante do setor de alimentos, o Cade exigiu que a empresa se desfizesse de várias marcas para evitar concentração de mercado.
Sonora: A Brasil Foods deverá suspender a venda de diversos produtos da marca Perdigão. Além disso, a Batavo, outra marca da Brasil Foods, não poderá vender derivados de carnes processadas como salsichas e hambúrgueres durante quatro anos.
Consuelo Dieguez: Essa diferença de tratamento com a JBS chamou minha atenção na época, por que o caso deles era diferente? E, de repente, muita gente da imprensa e do mercado começou a se perguntar o que é que Wesley e Joesley têm. Estamos em 2014, ano eleitoral, e, pela primeira vez, a JBS foi a maior doadora de campanha do país à frente dos grandes bancos e construtoras. Desembolsou 367 milhões de reais para candidatos de quase todos os partidos nas campanhas para presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Vale lembrar que nessa época ainda era legal empresas doarem para campanhas eleitorais. A jornalista Raquel Landim conta em seu livro Why Not, sobre a trajetória dos irmãos Batista como Joesley e seu assessor faz tudo, Ricardo Saud, celebrar a reeleição de Dilma para a presidência e a eleição de muitos candidatos apoiados pela JBS em suas campanhas.
Sonora: A primeira mulher presidente do Brasil foi reeleita na disputa mais apertada da história.
Consuelo Dieguez: Um minuto e 38 segundos depois da confirmação da vitória de Dilma sobre Aécio Neves, o presidente do Senado, Renan Calheiros, ligou para Joesley. Renan deu parabéns primeiro. Joesley retribuiu e disse: "Foi sofrido, mas ganhamos, hein presidente? Não tem vitória fácil". O empresário e o político ficaram de se encontrar depois. Desligaram e seguiu a celebração na casa de Joesley, com direito a champagne Veuve Clicquot e mergulho na piscina. Naquela eleição de 2014, a bancada da JBS no Congresso, como diz Landim em seu livro, ganhou 167 deputados federais, além de 179 deputados estaduais vencedores em 23 estados. O que é que Wesley e Joesley têm? Competência, dinheiro e, nesse momento, mais do que nunca, influência e poder em Brasília. Em fevereiro de 2015, logo depois das eleições, publiquei uma longa reportagem na revista piauí. O título é "O Estouro da boiada". Você consegue ler a matéria online e o link está na descrição desse episódio. Era um perfil de Wesley e Joesley Batista que contava a ascensão impressionante dos irmãos. Na época, entrevistei Joesley na casa dele, em São Paulo. Chovia muito. Sentamos para conversar embaixo de uma jabuticabeira. Faz mais de dez anos, mas não me esqueço desse dia. Embora estivéssemos no meio do jardim, não caiu um pingo d'água na gente. Tinha uma cobertura que nem dava para ver acima da copa das árvores. Perguntei sobre as doações eleitorais. Joesley me disse que precisavam fazer essa contribuição porque a JBS estava em mais de 20 estados. E ele tinha que "participar da vida democrática". Joesley considerava os mais de 300 milhões de reais das doações um valor normal, apesar de representar quase 60% do lucro da empresa no último trimestre do ano. E emendou: "Somos a maior empresa do Brasil. É natural que sejamos os maiores doadores". Natural para o Joesley. Só que para boa parte do Brasil, não mais. A Operação Lava Jato tinha acabado de começar e foi crescendo entre 2015 e 2016, revelou uma série de escândalos de corrupção que envolviam doações eleitorais e caixa dois, entre outras formas de propina. As relações entre empresários e governo, de forma geral, viraram alvo de investigações e de desconfiança pela opinião pública.
Sonora: Palavras de ordem contra o governo da presidente Dilma, o ex-presidente Lula e a corrupção foram ouvidas ontem no Brasil inteiro. Ao todo, houve atos em 337 cidades, em todos os estados.
Sonora: E o teu futuro espelha essa grandeza. Terra adorada.
Consuelo Dieguez: Milhões de pessoas foram às ruas contra a corrupção. O ápice da crise veio com o traumático processo de impeachment da presidente Dilma. E foi aí que a maré começou a virar para Wesley e Joesley Batista. Nos primeiros meses de 2017, Wesley e Joesley estavam muito pressionados. Estavam sendo investigados por suspeitas de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro, entre outros ilícitos. Eram seis operações do Ministério Público e da Polícia Federal: a Greenfield, a Carne Fraca, a Cui Bono, a Lama Asfáltica, a Sepsis e a Bullish. O cerco se fechava. Os irmãos estavam com medo de ir para a cadeia, como tinha acontecido com Marcelo Odebrecht. Mas o maior temor de Wesley e Joesley era de que os bens da empresa fossem bloqueados, como me falou o advogado deles, Pierpaolo Bottini.
Sonora: Você imagina: se um dia bloqueado acaba a empresa. A ação vira pó e você nunca mais recupera.
Consuelo Dieguez: No fim de fevereiro de 2017, a situação chegou no limite. Joesley convenceu Wesley a fazer um acordo de colaboração, a famosa delação premiada, para escapar da prisão e salvar a empresa. Para orient- los no processo da delação. Eles contrataram escritórios de advocacia de São Paulo, que, por sua vez, contratou Marcelo Miller. Miller era especializado em acordos de delação. Só tinha um problema: quando foi contratado para trabalhar para os irmãos Batista, ele ainda era oficialmente do Ministério Público e atuava justamente na equipe da Lava Jato do procurador geral da República, Rodrigo Janot. Ou seja, existia um conflito de interesse. Miller já tinha pedido demissão, mas não tinha cumprido a quarentena do serviço público. Isso ia ser um problema para os irmãos mais para frente. Antes de fazer a delação, Joesley fez um cálculo para conseguir um bom acordo. Precisava entregar algo grande às autoridades e precisava fazer isso rápido. Antes mesmo de assinar a colaboração premiada, saiu gravando conversas que mantinha com políticos. Orientado por Miller. Joesley estava até disposto a produzir provas contra pessoas próximas, inclusive convidados do seu casamento.
Sonora: Onde tem um banheiro?
Consuelo Dieguez: Ele usava um gravador espião de bolso disfarçado de pendrive, que o acompanhava até quando ia ao banheiro. Era um artefato bem simples. Por isso, às vezes fica difícil de entender o áudio. Uma das primeiras gravações que ele fez foi essa aqui.
Sonora: Como é que eu... O que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com o Eduardo.
Sonora: Tem que manter isso, viu?
Consuelo Dieguez: Tem que manter isso, viu? Era a resposta do então presidente da República, Michel Temer, para o Joesley.
Sonora: Todo mês. Também... eEu tô segurando as pontas. Tô indo.
Consuelo Dieguez: O empresário tinha insinuado que estava pagando propina mensal ao ex-deputado federal Eduardo Cunha, como eu falei no comecinho do primeiro episódio desse podcast. Mas gravar escondido do presidente da República no encontro à noite, no subsolo do Palácio Jaburu foi só o começo. Em meados de março, Joesley foi ao gabinete de Rodrigo Rocha Loures, em Brasília, que na época era deputado federal e assessor direto do presidente Temer.
Sonora: Eu to entrando lá com o pedido da liminar. E diz que o superintendente consegue dar. Se ele me der, acabou!
Sonora: Posso ligar?
Sonora: Lógico. Pode.
Consuelo Dieguez: Joesley estava lá para pedir uma ajuda e, de novo, estava gravando tudo para depois usar no acordo de delação. Uma empresa de gás do seu grupo empresarial estava em disputa com a Petrobras e precisava de uma liminar no Cade, o órgão de regulação de concorrência.
Sonora: - Alô?
Sonora: - Dr Gilvandro está na linha
Sonora: – Pois não… Alô? Tudo bom Gilvandro?
Consuelo Dieguez: Rocha Loures conseguiu falar com o Gilvandro Araújo, que era o presidente do Cade, na hora, na frente de Joesley. Loures pediu a Gilvandro que olhasse com carinho para a questão da empresa de gás, sem mencionar o nome de Joesley. Depois que Rocha Loures desligou o telefone. Joesley se mostrou satisfeito com o que ouviu.
Sonora: Desse negócio é o seguinte, ó. Vamo lá vamo entregar e.. Enfim, se der certo, é uma fantasma que eu tirei da minha frente. A gente resolve o problema no curto prazo. Um ano dois ano, aí. O Temer mandou falar, vou falar pra você. Nós vamo abrir desse negócio aí, 5 %.
Consuelo Dieguez: Joesley prometeu pagar 5% do lucro do negócio de gás à Rocha Loures, caso ele conseguisse influenciar o Cade a decidir a seu favor. O deputado respondeu:
Sonora: Tudo bem, tudo bem. Pronto.
Consuelo Dieguez: Uma semana depois, Joesley se encontrou com o então senador Aécio Neves, no Hotel Unique, em São Paulo, de novo com o gravador no bolso, de novo de olho na delação. Na conversa, os dois combinaram o pagamento de propina de Joesley para Aécio. Eram 2 milhões de reais que seriam usados pelo político para pagar Advogados que fariam sua defesa na Lava Jato.
Sonora: Você vai lá em casa, o...
Sonora: Fred?
Sonora: Se for o Fred, eu ponho um menino meu no meio. Se for você, sou eu, entendeu? Tem que ser entre dois. Não dá pra ser...
Consuelo Dieguez: Foi quando combinava o recebimento do dinheiro que veio a conhecida resposta de Aécio:"tem que ser um que a gente mate ele antes de fazer delação". Quatro dias depois, Joesley foi a Brasília para fazer sua primeira reunião na Procuradoria Geral da República. Foi junto com seu assessor, Ricardo Saud, e dois advogados. Entregaram aos procuradores os áudios de Temer, Rocha Loures e Aécio, o presidente, um deputado e um senador. O cálculo de Joesley parecia estar dando certo. Os áudios caíram como uma bomba para os investigadores. Dez dias depois, Joesley voltou a Brasília e ofereceu ainda mais.
Sonora: Normalmente acontece o seguinte: se combina o ilícito, se combina o ato lá de de corrupção com o político, com o poder público. Lá, o dirigente do poder público e daí para frente se procede o pagamento.
Consuelo Dieguez: Como Joesley conta nessa reunião registrada pela própria PGR em Brasília, suas empresas tinham pagado meio bilhão de reais para políticos em troca de favores nos últimos anos.
Sonora: Os pagamentos são feitos das mais diversas maneiras, seja nota fiscal fria, seja dinheiro caixa dois, seja até mesmo doação, até mesmo doação política oficial.
Sonora: Então, muitas das doações que o senhor vai relatar aqui, tidas como oficiais registradas no TSE...
Sonora: Na realidade são contrapartidas.
Sonora: É uma propina disfarçada, propina disfarçada de doação política. Enfim.
Consuelo Dieguez: Joesley tinha entregado parceiros e confessado crimes em grande escala que aconteciam no dia a dia de Brasília. As gravações escondidas que Joesley fez de Temer, Rocha Loures e Aécio foram tão impactantes que as autoridades decidiram agir logo para evitar que novos crimes fossem cometidos. Nas semanas seguintes, o Ministério Público e a Polícia Federal recrutaram Joesley e Ricardo Saud para fazer as chamadas operações controladas. O objetivo era flagrar os políticos nos atos de corrupção.
Sonora: As imagens foram feitas pela Polícia Federal. A missão era acompanhar a entrega de parte dos 2 milhões de reais acertados entre o empresário Joesley Batista e o senador afastado Aécio Neves, do PSDB.
Consuelo Dieguez: Além da entrega de dinheiro para Aécio, a Polícia Federal acompanhou a entrega de dinheiro de Ricardo Saud para o deputado Rocha Loures. Era o pagamento pela ajuda de Loures junto ao Cade, que afinal tinha tomado decisão favorável à empresa de gás dos irmãos Batista.
Sonora: Deputado foi flagrado em outro local, saindo do estacionamento ao lado de uma pizzaria no Jardim Paulista. Ele corre com uma mala na mão até um táxi. O motorista já esperava por Loures com o porta malas aberto. O deputado joga a mala e, antes de entrar, ainda olha desconfiado para tras e vai embora.
Consuelo Dieguez: Menos de uma semana depois, logo no início de maio de 2017, Wesley e Joesley enfim assinaram o acordo de colaboração. O cálculo deu certo. Em troca não só da delação, mas também de uma multa de mais de 225 milhões de reais, os irmãos Batista receberam a imunidade penal, uma garantia da justiça de que, apesar de terem confessado inúmeros crimes, não seriam presos, não iam sequer usar tornozeleira eletrônica. Foi a delação premiada mais rápida do Brasil. Wesley e Joesley decidiram delatar em fevereiro. No começo de maio, já estavam imunes. Para os irmãos, o risco foi alto, mas parecia que o pior estava ficando para trás. Na delação, firmada também por outros sete funcionários da JBS, os irmãos Batista expuseram a promiscuidade das suas relações com boa parte da classe política. O suborno não tinha ideologia. Era business as usual. Além do presidente Temer, do PMDB, os delatores implicaram em atos ilícitos os ex-presidentes Lula e Dilma do PT.
Sonora: Na fase do presidente Lula, chegou acho que uns 80 milhões de dólar. Depois, na Dilma, chegou nos 70 ou ao contrário, 70 na do Lula, 80 no da Dilma. Por que pagávamos? Porque o Kassab foi ministro por algumas vezes. Cada partido que ia decidindo se queria por fora, por dentro, nota fria, dinheiro, caixa um, caixa dois... Era propina. Era proprina.
Consuelo Dieguez: Sobrou para todo mundo. Guido Mantega, Antonio Palocci, Gilberto Kassab, Ciro Nogueira, Eduardo Cunha, Marcos Pereira, José Serra, Marta Suplicy, entre muitos outros. Foram citados políticos de 28 partidos no total, incluindo deputados, senadores e ministros. Na época, em plena Lava Jato, eram comuns os vazamentos de operações policiais e de investigações. Hoje a gente sabe que era, inclusive, parte da estratégia dos procuradores soltar trechos de delações para influenciar o debate público. O acordo de colaboração feito por Wesley e Joesley ficou em segredo até o fim da tarde de 17 de maio de 2017. Eles já tinham dado seus depoimentos e levado suas famílias e até o iate de Joesley para fora do Brasil. Até que o repórter Lauro Jardim publicou uma nota no site do jornal O Globo. Para os irmãos, o pior ainda estava por vir.
Sonora: O colunista Lauro Jardim revelou no site do jornal O Globo que o dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, entregou ao Ministério Público Federal uma gravação feita em março deste ano. Nela, Joesley Batista conta ao ex, ao presidente Michel Temer, que está pagando pelo silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.
Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley se tornaram os agentes do caos. Aos olhos da opinião pública, os irmãos viraram quase sinônimo de corrupção. Relendo hoje a imprensa daqueles fatídicos dias depois que vazou o "tem que manter isso aí", parecia que era só uma questão de quando Michel Temer ia cair. Menos de um ano depois do impeachment da Dilma, O Globo chegou a publicar um editorial pedindo a renúncia de Temer. Como se sabe, Temer não renunciou, mas também não perdoou o que considerava uma traição de Joesley. Colocou a máquina pública para funcionar contra os dois irmãos e suas empresas. Um dos advogados que participou do acordo de delação me contou que, "por terem delatado boa parte do mundo político, passaram a sofrer ataques da Receita Federal, do Cade, da CVM". Os antigos amigos viraram inimigos. Já Rodrigo Janot, chefe da Procuradoria Geral da República, passou a tentar reverter a impressão negativa que ele e sua equipe deixaram na sociedade. O acordo que tinham firmado parecia muito favorável aos dois irmãos. Wesley e Joesley estavam na defensiva. Tentavam conter a crise de credibilidade junto ao mercado. Venderam empresas importantes do grupo J&F, como a Alpargatas, que faz as Havaianas. Tudo para continuar com o plano de não ser preso e não quebrar. Só que eles deram um passo em falso. No fim de agosto, mandaram os últimos materiais da delação, mas em um dos áudios que enviaram, tinham deixado, sem perceber, o gravador ligado por tempo demais.
Sonora: Na minha cabeça. O Marcelo é do MPF. Ponto.
Consuelo Dieguez: Esse áudio é de uma conversa entre Joesley e Ricardo Saud, seu assessor, o Marcelo e o Marcelo Miller, que, como contei há pouco, trabalhou como advogado para a JBS no acordo de delação com o Ministério Público Federal, mas ainda estava na quarentena depois de ter se demitido do cargo de procurador do Ministério Público Federal.
Sonora: Ricardo, nós somos. Nós somos o joia da coroa deles. O Marcelo já descobriu e já falou o Janot, o Janot nós temos o cara. Nós temos o pessoal que vai dar todas as provas que nós precisamos. Ele já entendeu isso.
Consuelo Dieguez: A conversa veio a público e piorava ainda mais a imagem do procurador geral da República, Rodrigo Janot, dava a entender que Janot sabia que tinha uma pessoa próxima da sua equipe fazendo jogo duplo em favor dos irmãos Batista. E ainda que Janot poderia estar, de alguma forma, envolvido no esquema. A resposta de Janot foi radical pediu ao Supremo Tribunal Federal a suspensão dos benefícios obtidos por Wesley e Joesley no acordo de colaboração e pediu a prisão de Joesley por omissão de informações na delação. Em 10 de setembro de 2017, Joesley se entregou à Polícia Federal, em São Paulo. Era domingo. Na quarta-feira, três dias depois, a polícia prendeu Wesley em sua casa. Ele era acusado pelo Ministério Público em São Paulo de insider trading, ou seja, informação privilegiada para manipular o mercado. O advogado Pierpaolo Bottini, que defendeu os irmãos nesse caso, considera o episódio insólito. Nunca ninguém foi preso no Brasil por causa de insider trading.
Sonora: Não era um crime que geralmente você tem esse tipo de medida cautelar. É um crime econômico, financeiro. Então, quando em uma situação muito específica que jamais ia se repetir, então não é que alguém estava continuamente afetando a ordem pública. Era uma coisa completamente sem sentido aquela prisão, entendeu?
Consuelo Dieguez: Afinal, o cálculo de Joesley não deu tão certo assim. 11 de junho de 2025. Eu estou chegando aqui na sede da JBS para conversar com Wesley Batista.
Consuelo Dieguez: Oi, tudo bom? Sou Consuelo, da revista piauí.
Sonora: Assim, eu jamais, jamais imaginei. Jamais imaginei que podia ser preso.
Consuelo Dieguez: No próximo episódio de Berro do Boi, você ouve a minha entrevista exclusiva, inédita, com Wesley Batista. O Berro do Boi é um podcast original da Trovão Mídia e da revista piauí. Ideia original de Anna Bonomi, José Orenstein e Luna Grimberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Dieguez, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Assistência de roteiro da Giovana Romano Sanchez. Consultoria de roteiro da Luna Grimberg. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Mouallem. Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original de Arthur Decloedt e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidônio. Pela revista piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação, André Petry; editor-executivo, Daniel Bergamasco; e a produtora executiva, Mari Faria.