O BERRO DO BOI #4 - A REFRIGERAÇÃO

No quarto episódio do podcast, Wesley Batista fala com Consuelo Dieguez
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Depois da prisão, do desgaste público e da ameaça de perder tudo, os irmãos Batista desaparecem dos holofotes. Mas, enquanto enfrentam batalhas judiciais e tentam preservar os negócios, a JBS segue operando e crescendo. Em entrevista inédita e exclusiva com Consuelo Dieguez, Wesley Batista relembra os anos mais difíceis da família, fala sobre as consequências da delação e apresenta sua versão para os acontecimentos. O episódio mostra como os Batista atravessaram o período de maior vulnerabilidade de sua história e prepararam o terreno para uma nova fase de expansão.

Leia a reportagem de Breno Pires sobre o caso Eldorado: O vale-tudo

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Trovão Mídia e revista piauí.

Consuelo Dieguez: O Réveillon de 2017 para 2018 foi diferente do que Wesley e Joesley estavam acostumados. Nada de festa na ilha de Angra dos Reis. O cenário agora era carceragem da Polícia Federal no bairro da Lapa, em São Paulo. Em março de 2017, Joesley achava que ia conseguir escapar da prisão, como ele mesmo falou nesse áudio que vazou.

Sonora: Que no final não vai ser preso. Vamos fazer tudo menos ser preso.

Consuelo Dieguez: Mas achou errado. No réveillon do mesmo ano, os irmãos já estavam detidos havia quatro meses. Wesley e Joesley ficava em celas individuais, separadas, com mesa, banco e beliches de concreto, como conta uma nota do jornal O Globo da época, eles tinham direito a um colchão cada um, trazidos pela família Batista. Por volta das oito da manhã, recebiam café e um pão com manteiga. Deixavam a cela duas vezes ao dia para banho de sol por duas horas. Pela manhã e ao fim da tarde faziam exercícios físicos e jogavam futebol com os demais detentos no pátio da carceragem. Nas celas, passavam a maior parte do tempo lendo. Acompanhavam o Jornal Nacional por uma televisão ligada no corredor. Wesley e Joesley podiam receber a visita diária dos advogados. Mas a da família apenas uma vez por semana, às quintas-feiras. O encontro com parentes acontecia em uma ala coletiva. Ticiana Villas Boas, a esposa de Joesley, ia visitar o marido toda quinta. Essa rotina era fixa. A ceia de Natal daquele ano caiu num domingo. Wesley e Joesley passaram sozinhos, cada um em sua cela. A única novidade naquela noite foi o cardápio, que incluiu panetone e rabanada. Em fevereiro de 2018, os advogados dos irmãos conseguiram a soltura de Wesley no Superior Tribunal de Justiça. Alegavam que aquela prisão preventiva dele estava longa demais. Já durava seis meses. Era desproporcional. 16 dias depois, foi a vez de Joesley voltar para casa. Os dois deveriam usar tornozeleira eletrônica, mas na época ela estava em falta. Os irmãos ainda aguardavam o julgamento definitivo, agora fora da cadeia.

Consuelo Dieguez: Eu sou Consuelo Dieguez e esse é o Berro do Boi, uma série original da Trovão Mídia com a revista piauí. Episódio quatro: A Refrigeração.

Consuelo Dieguez: Onde é que eu entro, moça? Por lá? Obrigada, viu? No começo de uma tarde de junho de 2025, eu cheguei à sede da JBS, na Marginal Tietê, em São Paulo, para entrevistar o Wesley Batista. Uma curiosidade: o prédio fica a seis minutos de carro da carceragem da Polícia Federal.

Consuelo Dieguez: Oi, tudo bom? Sou Consuelo, da revista piauí.

Sonora: Já tem cadastro, né?

Consuelo Dieguez: Tenho.

Consuelo Dieguez: Encontrei o Wesley na cabeceira da mesma mesa, na mesma sala onde eu tinha entrevistado ele dez anos antes para o perfil que publiquei na revista piauí.

Consuelo Dieguez: Você está falando que o agro tem uma transformação na minha geração sertanejo nas capitais e tal. Era coisa assim, de caipira, de o sertanejo era no interior do Brasil.

Consuelo Dieguez: Wesley estava sorridente e mantinha o entusiasmo de quando a gente se conheceu, mesmo tendo acontecido tanta coisa desde o nosso último encontro.

Wesley Batista: Se aqui em São Paulo, você entrasse num carro e metesse um sertanejo a gata caía fora da hora.

Consuelo Dieguez: Na sala tinha dois assessores, além do Wesley. Eles controlavam o tempo da entrevista, que se estendeu além do previsto. Falamos de várias passagens da trajetória dos irmãos Batista, momentos sobre os quais você já ouviu nos episódios anteriores aqui da série.

Wesley Batista: Meu pai a vida inteira falou: "ó, seguinte, agarra com as duas mãos. Tudo que você for fazer na vida, pega com as duas mãos, você entendeu?".

Consuelo Dieguez: Por exemplo, quando a JBS comprou Swift nos Estados Unidos e o Wesley chegou lá para tocar o negócio sem falar uma palavra de inglês.

Wesley Batista: Fui para a fábrica, seguinte: cada, cada graminha de carne deixada na estrutura óssea do animal está jogando fora e deixava muita carne, muita carne no osso.

Consuelo Dieguez: Mas nada disso era novidade. Deixa eu te perguntar um assunto que é desagradável, mas eu vou ter que tocar nesse assunto com você. A delação.

Consuelo Dieguez: Essa é a primeira vez que você vai ouvir o Wesley falar abertamente sobre tudo o que ele e o irmão viveram na época do escândalo, da delação e da prisão.

Consuelo Dieguez: Como é que foi esse impacto na tua vida? O que que aconteceu naquele momento? O tempo que você ficou? Que vocês ficaram presos? Como é que foi isso para você? Psicologicamente, para a família?

Wesley Batista: Ô Consuelo, assim, primeiro assim, logicamente, tudo aquilo que aconteceu não foi uma coisa que, assim, que a gente se orgulha. Aquilo trouxe muito sofrimento. Muito. E não só para nós. Para mim, Wesley, meus pais, meus irmãos, para a família... Para a família de um modo geral, para todo mundo, meus filhos, tudo. Para empresa, para as pessoas. As pessoas sentiram junto conosco, sofreram junto conosco todo aquele, toda aquela tempestade e tal. Olhando hoje e não só hoje, mas depois, a gente olha e fala: "olha, algumas coisas, apesar de todo o sofrimento e apesar de nós não nos orgulhar daquilo, algumas coisas nós temos orgulho". Nossa família que a vida inteira foi unida, ficou mais unida. Mais unida. A empresa nós temos alguns orgulhos. Nós não demitimos um funcionário, nós não fechamos uma fábrica e nós não perdemos um executivo na empresa. Ninguém. Ao contrário, a turma pegou assim redobrada com a garra, porque sabe da nossa história, de como nós fizemos isso. Do amor que nós temos pela empresa. Então, assim, nós não deixamos de honrar um compromisso. Nenhum. Não atrasamos sequer um dia de pagar ninguém de nada. Honramos tudo. Outra coisa: vendemos o que precisava vender. E eu falava com os bancos, com os credores. Falar: "Olha, a nossa história foi feita de credibilidade. Meu pai a vida inteira falou, meu pai é um analfabeto, um semi-analfabeto que a vida inteira falou que tudo que nós construímos, que ele fez no começo da vida dele foi por causa do crédito dele que as pessoas acreditavam nele". Falava: "nós volta, para nós não tem nenhum problema. Nós volta lá pro frigorífico de Luziânia que eu comecei lá feliz da vida, porque eu faço o que eu gosto. Se precisar, nós vendemos tudo. Tudo para honrar os compromissos". E fizemos. Fizemos isso. Assim, logicamente, minha família sofreu pra burro, né? Meus filhos, você imagina meus netos, minha esposa, meus pais. Eu falava para o Joesley. Eu falei: "Joesley, nós temos filho, você imagina o papai e a mamãe. Imagina se eu tiver meus dois meninos numa situação daquela, né?".

Consuelo Dieguez: Por que vocês resolveram fazer aquela delação?

Wesley Batista: Ah, Consuelo, aquilo assim... Na verdade, não tem uma única coisa. Era notório que o Brasil estava num momento em que o Brasil estava passando de um monte de coisa, de criminalização, de doação para campanha eleitoral que não sei o quê. E nós, olhando aquela situação com a responsabilidade que tinha das empresas, e eu e Joesley ficava olhando e falava "olha, isso aqui vai acabar assim. Se nós ficar aqui de braços cruzados, nós estamos pondo a empresa exposta". Aí vem, busca e apreensão, busca e apreensão, busca e apreensão. Busca e apreensão. Aquilo vai minando, vai minando, vai te minando. Aí toma de novo. Toma. E o mercado olhando e falando "mas que diacho é isso?". Busca e apreensão. Minha mãe, o que é isso? Porque assim, a gente, você fala assim... Polícia, pelo amor de Deus, né? Polícia na sua casa? Fala "não sou bandido, não sou, não sou bandido. Sou gente do bem, sou gente honesta e trabalhadora". Tá, aquilo não combina. E aí, acabamos tomando uma decisão de falar "vamos fazer alguma coisa aqui". E aí fez o que aconteceu e tal.

Consuelo Dieguez: E como é que foi no dia que foi anunciada a delação de vocês?

Wesley Batista: Então, isso, como é que é? Então, aquilo assim foi um negócio... Primeiro, foi, foi chocante para nós, porque nós não sabia nada. Porque você faz um acordo, né? Como nós fizemos com as autoridades, com o Judiciário. Nós não sabia quando ia ser homologado e como iam usar aquilo. Como que o Ministério Público ia usar aquilo, se ele ia usar aquilo para abrir mais investigações, se ele ia usar aquilo individual, pontual, aqui, ali e tal. Quando veio aquele negócio, né? Que que saiu se tornando público, aquilo foi um impacto. Eu tava aqui no escritório, já era final da noite. Falei "meu Deus", né? Eu vendo na televisão e começou aquele negócio. Então, assim, é super importante, né? Você fica aí, todo mundo na empresa, ninguém sabia, né? Na família, na família.

Consuelo Dieguez: Aí o que, começaram a se ligar?

Wesley Batista: "O que que é isso que tá acontecendo?" e tal. E, assim, preocupação de um modo geral, né? De... Você imagina meus meus netos na escola, os filhos das minhas irmãs na escola não sei o quê e tal. Então, assim, aquilo cria um reboliço tremendo, né? Todo mundo na empresa, o povo ligando em casa não sei o quê. Eu cheguei em casa, meu filho. "Pai? Que que é isso? Você tá vendo aí? Você tá vendo aí na televisão?". E assim foi um, Foi um turbilhão, né?

Consuelo Dieguez: Mas poxa, teu filho e teu pai que seguraram a barra lá naquele naquele começo, como é que foi?

Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley tinham deixado o comando dos negócios. Formalmente, pelo menos. Em meio ao processo de delação e da prisão, foram suspensos de seus cargos executivos e também do conselho da JBS.

Wesley Batista: Meu pai, meu irmão mais velho.

Consuelo Dieguez: O Júnior.

Wesley Batista: O Júnior, que deu muito apoio até, até pessoal para meus pais. Meus pais já estavam com 80 e poucos anos de idade. O Júnior, meu filho mais velho e dois sobrinhos.

Consuelo Dieguez: Que vieram tocar o negócio.

Consuelo Dieguez: Nesses momentos de crise, é comum famílias se desestruturar, ainda mais quando tem tanto dinheiro envolvido. Mas não foi e nem é o caso da família Batista. Em especial, para os irmãos Wesley e Joesley.

Consuelo Dieguez: Porque assim as pessoas falam que vocês se complementam muito. Não tem Wesley sem Joesley, não tem. Como é que era a relação de vocês, pequenos? Vocês sempre se deram bem? Vocês brigavam? Como é que era?

Wesley Batista: Muito boa, assim, uma coisa eu te falo, e meu pai, se você conversar com ele... Nós temos muito orgulho da família que temos. E aí não é só eu e Joesley, eu, o Joesley e o Júnior, as três irmãs. Nós somos seis. Assim, nós nos damos muito bem, muito. E meu pai e minha mãe também. Essa família muito unida. E assim sempre, sempre nos demos, nos demos bem. Ah, briga de moleque e tal. Mas aí é coisa de de moleque na época de infância lá. Dez anos, onze anos, doze anos e tal. Mas tirando isso, temos divergência, temos opiniões diferentes, mas nos respeitamos, mas é por conta disso. As pessoas falam e têm razão. É pela complementariedade.

Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley deixaram a cadeia em março de 2018. Isso não ficou uma marca assim?

Wesley Batista: Nós, não... Ficou aprendizado, sem dúvida nenhuma. Ficou lições de vida pessoais, profissionais, no aprendizado. Agora não ficou ferida, entendeu? Não tem esse negócio de falar assim "Ah, tem alguma ferida?" Não. Não tem.

Consuelo Dieguez: A disposição para o trabalho continuava firme e forte. Tanto que, poucos meses depois da soltura, os irmãos se envolveram na maior disputa corporativa do Brasil. Antes da prisão, Wesley e Joesley tinham vendido 49% da Eldorado, a empresa de papel e celulose do grupo J&F para a multinacional Paper Excellence. Essa venda tinha sido parte do esforço dos irmãos para gerar caixa no meio da crise da delação e, assim, honrar todos os compromissos do grupo. A venda deveria acontecer. Em etapas em agosto de 2018, com os irmãos já fora da cadeia, tinha chegado o momento final. A hora da J&F vender o restante da Eldorado para o Paper Excellence. Mas o cenário tinha mudado tanto no mercado de papel e celulose como na situação dos irmãos. Wesley e Joesley estavam convencidos de que eles tinham negociado Eldorado por um valor excessivamente baixo. Queriam rever os termos da negociação. Do outro lado, a Paper Excellence estava irredutível e decidida a concluir a compra do Eldorado, como previa o acordo inicial. Começou aí uma gigantesca briga judicial que logo chegou aos mais estrelados escritórios de advocacia. Mobilizou os tribunais, incluindo o Supremo Tribunal Federal e contaminou os bastidores da política nacional. O processo se arrastou por quase sete anos e foi explicado em detalhes na revista piauí pelo repórter Breno Pires. O link para a reportagem está na descrição deste episódio. O texto conta, por exemplo, que a então esposa do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal, chegou a atuar como advogada da J&F no caso. Em maio de 2025, essa briga terminou. As empresas fizeram um acordo, a J&F recomprou os 49% da Eldorado que tinha vendido para Paper Excellence. Vitória de Wesley e Joesley.

Consuelo Dieguez: Deixa eu te perguntar uma coisa. Uma das coisas que falam muito de vocês é a relação de vocês com o Lula, que até o Lulinha seria dono da emprensa. Como é que foi isso? Como é que começa essa relação de vocês com o Lula? Porque, assim, ele dá muito apoio às empresas de vocês. Ele teve lá na inauguração, lá no Porto, lá em Itajaí. Então tem uma relação de apoio à JBS. Vocês estão sempre juntos em grandes eventos internacionais. Me explica como é que se começa essa relação e por que ela continua assim?

Wesley Batista: Primeiro, não tem relação. Eu sei disso. É, que as pessoas falam, que comentam, que "ah, é o Lula, é o Lulinha não sei o quê". Zero. Primeiro, assim, eu considero isso, que isso é uma coisa brasileira, que, assim, vamos falar assim, um defeito. Acho que a palavra correta é um defeito brasileiro de assim tudo tem que atribuir assim... Diferente um pouco. Por exemplo, eu convivi nos Estados Unidos, os Estados Unidos não atribui o sucesso das empresas ou das pessoas a elas mesmo. Não tem vergonha de tal. Aqui no Brasil tem um negócio que é um ranço, disso eu vou falar para você, sabe por que? Aqui, nesse lugar aqui, o Bordon, se você voltar lá nos anos 80, todo mundo falava que quem era dono do Bordon era o Delfim Neto.

Consuelo Dieguez: Quando ele fala nesse lugar aqui, está se referindo à atual sede da JBS, que fica no prédio onde antes era o tradicional frigorífico Bordon, que os Batista compraram no começo dos anos 2000.

Wesley Batista: Ah, tá sendo bem sucedido, tem que ser de alguém ou tem... Então começa por aí. Nós não temos. É assim quando você fala "Ah, o Lula ajuda vocês"... Não. Ajuda em nada, nada, nada, nada. Assim, não tem um nada que você fala assim que ajuda, me mostra que ajuda eu tive. Ah, ele ir inauguração, ele está fazendo o papel dele de político. É o contrário. Ele está indo num porto que é super relevante pra cidade, fazendo o papel político dele lá. Ele está indo em Campo Grande, no território do agro, aonde ele apanha. É o contrário. Assim, nós fazemos a inauguração de uma fábrica, de um porto. Eu, para mim, ele vê isso como a oportunidade dele aproximar de um setor que ele está distante. Ou distante ou que não tem afinidade com ele. Então assim, é isso, você fala assim "relação", mas não tem nada de relação. Nada, nada. Nós não conhecia Lula. Nada. Não temos histórico lá de trás, de família, de nada. Zero. Logicamente, a empresa foi crescendo. Hoje, a empresa como é e, por óbvio, não só presidente, mas presidente, ministro e tal, quer quer saber de investimento, quer saber de geração de emprego, quer saber o que nós estamos fazendo. E nós estamos fazendo. E como? Sim e como nós acreditamos no Brasil e falamos bem do Brasil, independente do mandato, do mandatário, da hora, porque nós acreditamos no país, não no mandatário da hora, porque eles estão lá, eles não são, né? E aí vai. A política é assim.

Consuelo Dieguez: Com Bolsonaro, como foi?

Wesley Batista: A mesma coisa, não tem nenhuma diferença. Nenhuma.

Consuelo Dieguez: Em 2018, ano em que Wesley e Joesley saíram da prisão, Jair Bolsonaro foi eleito presidente e nos quatro anos de mandato dele, os irmãos ficaram fora dos holofotes, mas continuaram comprando empresas pelo mundo. Adquiriram a Tulip, de alimentos, no Reino Unido e a Vivera, de alimentos à base de planta, na Holanda e viraram líderes de mercado na Europa. Na Austrália, compraram duas produtoras de salmão e uma de suínos. Se consolidaram nas áreas de finanças, com o PicPay, na mineração, com a LHG Mining e de óleo e gás com afluxos. Nesse período, Wesley e Joesley estrearam na lista de bilionários brasileiros da revista Forbes.

Wesley Batista: Você me pergunta assim na prática, na prática, mas nós tinha acesso aos ministros a discussões normais, como quando temos que ter. Então, assim, não tem. Tem um negócio que é assim e cá entre nós, Consuelo, até a gente até brinca, assim, sabe o negócio que é tão... Fala assim: "é mesmo, é?". Falavam que era do Lula. Agora daqui a pouco vão falar que é do Trump. É o seguinte, a piada vai lá. Daqui a pouco vão falar que é do Trump.

Consuelo Dieguez: Nessa hora, já mais para o final da nossa conversa, aproveitei para perguntar por que eles tinham sido os maiores doadores da festa de inauguração do segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos, em janeiro de 2025.

Wesley Batista: Nós queria ir lá conhecer, ver como é que é... E é isso. E todos aqueles eventos lá, você não é convidado. Nos Estados Unidos é pragmático. Você quer ir nos eventos e tal. Ou você é parte do governo ou você tem que contribuir com as festas da inauguração, entendeu? Então é assim, simples. Eu fui.

Consuelo Dieguez: Vocês foram na festa do Biden?

Wesley Batista: Não, não, não. Do Biden não.

Consuelo Dieguez: Por quê?

Wesley Batista: Foi naquela época da confusão, naqueles momentos complicados e tal.

Consuelo Dieguez: Pelo menos para a Justiça, parece que os momentos complicados, por ora, ficaram para trás. Então, em julho de 2023, Wesley e Joesley foram absolvidos da acusação de insider trading pela Comissão de Valores Mobiliários. Eles tinham sido presos preventivamente por causa dessa acusação. Em dezembro do mesmo ano, o ministro Dias Toffoli suspendeu a multa de 10,3 bilhões de reais que a J&F tinha acertado com o Ministério Público Federal, do chamado acordo de leniência, lá na época da delação.

Wesley Batista: Então, assim é duro, mas olhando... Passou. Nós olhamos para frente. Nós não somos gente de ficar remoendo o passado. Nós, graças a Deus, temos um espírito empreendedor, alegre, gostamo do que fazemos. E hoje a gente olha, bola para frente.

Consuelo Dieguez: Depois de sete anos afastados, em 2024, Wesley e Joesley voltaram oficialmente ao conselho de Administração da JBS. Sentada na sala da sede da JBS, naquele enorme prédio da Marginal Tietê, em São Paulo, é fácil esquecer que tem toda uma cadeia produtiva que sustenta aquele império. Uma cadeia que existe num outro Brasil. Um Brasil rural, do interior, do agro. Quer dizer, é fácil para mim esquecer. Para o Wesley, não.

Wesley Batista: A gente, bom, tem fábrica aí para tudo quanto é lado e a maioria fábrica no interior e o caramba. E, assim, é bonito de ver o desenvolvimento do interior do país. Você vai no Mato Grosso do Sul, você vai no Mato Grosso. Eu fazia tempo que eu não ia na Primavera do Leste. Aí nós fizemos essa sociedade com a Mantiqueira e a principal granja da Mantiqueira fica em Primavera.

Consuelo Dieguez: Aqui o Wesley está se referindo à compra feita pela JBS de 50% da empresa Mantiqueira, a maior produtora de ovos da América do Sul. Dona de marcas como a Happy Eggs e a Fazenda da Toca. A compra aconteceu em janeiro de 2025. Primavera do Leste fica no estado de Mato Grosso.

Wesley Batista: É chocante o movimento. O tanto de desenvolvimento e o agronegócio e as carretas e as plantação e fábrica de biodiesel, de etanol sendo construída. Mas assim, um negócio lindo de ver. Eu tenho falado: as pessoas estão errando, principalmente os economistas. Essa turma que vive aqui em São Paulo tem errado o prognóstico de como a economia vai crescer por causa disso, porque não vai para o interior. Você vai para o interior do Paraná, você vai para o interior de Santa Catarina, você vai pro interior do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, o agronegócio. As coisas estão funcionando. Aí sim, as pessoas ficam as vezes com uma visão muito da cidade. Aqui, São Paulo, Rio e o Brasil está acontecendo fora daqui. Muita coisa bacana.

Consuelo Dieguez: No próximo episódio de O Berro do Boi, eu te levo para esse outro Brasil de que o Wesley fala, para as fábricas e granjas da JBS.

Consuelo Dieguez: Os bois... nossa, menino, cada boizão, né?

Consuelo Dieguez: Para conhecer o que acontece nos lugares onde a maior processadora de proteína animal do mundo opera.

Consuelo Dieguez: Agente está passando aqui embaixo dos dutos que levam o vapor para a fábrica, movimentando a economia do Brasil.

Sonora: Cada caixinha dessa aí vai cem pintinho. Cem. Nem noventa e nove, nem cento e um. Cem.

Consuelo Dieguez: Mas também para conhecer o outro lado desse negócio.

Sonora: Com base nesses autos de infração, a empresa seria então inscrita na lista suja de trabalho escravo do Brasil. Então, o normal para qualquer empresa que estivesse na mesma condição, seria estar na lista suja hoje. Mas para JBS tudo é diferente, né?

Consuelo Dieguez: Te espero lá.

Wesley Batista: Literalmente aquele ditado que do boi a única coisa que não se aproveita é o berro. E é real, é real.

Consuelo Dieguez: Mas agora estão dizendo que até o berro...

Wesley Batista: Até o berro vou aproveitar a música e gravar. Vamos gravar o berro.

Consuelo Dieguez: Vai aproveitar.

Consuelo Dieguez: O Berro do Boi é um podcast original da Trovão Mídia e da revista piauí. Ideia original de Anna Bonomi, José Orenstein e Luna Grimberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Dieguez, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Assistência de roteiro da Giovana Romano Sanchez. Consultoria de roteiro da Luna Grimberg. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Mouallem. Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original de Arthur Decloedt e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidônio. Pela revista piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação, André Petry; editor-executivo, Daniel Bergamasco; e a produtora executiva, Mari Faria.


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