vultos mineiros
Leandro Aguiar, de Belo Horizonte 17 Out 2026
9 min de leitura
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Era manhã de segunda-feira, 11 de maio, quando Leonardo Almeida Ferreira, de 47 anos, foi consultar seu saldo bancário no celular. Não esperava grande coisa: ficaria feliz se os 400 reais por um bico de auxiliar jurídico que fizera na véspera estivessem disponíveis, para que assim pudesse pagar sua conta de luz.
Em vez disso, tomou um susto. O dinheiro até havia sido depositado, mas fora bloqueado em razão de uma dívida de 3 milhões de reais contraída em seu nome. Ferreira não segurou as lágrimas, sentiu dores no peito, dificuldades em respirar e foi acudido pela mulher logo antes de desmaiar. “Aí você já viu, né? Ambulância, hospital, internação... Quando contei pro médico sobre a operação da Polícia Federal, o cara até assustou”, lembra Ferreira, com a saúde e o bom humor parcialmente restabelecidos.
Ferreira vive em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e cursa o oitavo período de direito em uma universidade privada. Antes, era tesoureiro na mineradora Green Metals. Depois de quatro anos na empresa, em julho de 2018, Ferreira foi informado de que assumiria o posto de diretor estatutário. A mudança, diz, não tinha espaço para negociações – a outra opção era ser demitido. Seu salário subiu de 3,5 mil reais para 5 mil reais, porém sem vale-transporte e alimentação, já que deixou de ser funcionário para tornar-se, para fins jurídicos, sócio da mineradora. Mas a aparente promoção era um embuste: Ferreira era diretor e sócio apenas no papel e seguia com as mesmas funções de antes. Em outras palavras, ele virou um “laranja” da mineradora.
Até meados de 2024, um emaranhado de mais de quarenta empresas, muitas criadas com o objetivo de despistar a Polícia Federal e o Ministério Público, operaram um esquema bilionário de mineração ilegal na Serra do Curral, patrimônio ambiental de Belo Horizonte. O esquema incluía funcionários da Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, da Agência Nacional de Mineração (ANM) e até da Polícia Federal, todos muito bem pagos para fazer vista grossa às ilegalidades.
A Green Metals, que em 2016 assumiu o controle da Empresa de Mineração Pau Branco (Empabra), era uma dessas mineradoras. Ironicamente, o nome da Green Metals faz referência à suposta sustentabilidade ambiental que guiaria os negócios da empresa. Para os investigadores, o que se dava era exatamente o contrário: os planos de recuperação ambiental da Serra do Curral da Green Metals não passariam de uma fachada para explorar os minérios contidos no cartão postal de BH.
Ainda de acordo com a Polícia Federal, a Empabra e outras companhias do segmento que dilapidaram a serra utilizaram laranjas como Ferreira para ocultar os reais beneficiários do esquema e blindar o patrimônio das empresas. E, entre esses reais beneficiários, havia alguns nomes graúdos.
Quando Ferreira começou a trabalhar na Empabra, em 2014, quem dava as ordens eram Luis Fernando Franceschini e Lucas Kallas – este último um dos empresários mais ricos do Brasil. Ele é ex-sócio de Daniel Vorcaro, o banqueiro enrolado do Master, em empreendimentos farmacêuticos e de gestão de capitais. As digitais de Vorcaro também aparecem em outra empresa envolvida na exploração da Serra do Curral: a Taquaril Mineração, que tinha como acionistas a WJ Consultoria, administrada por seu cunhado Fabiano Zettel, e o Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo Master.
Enquanto trabalhou na Empabra, Ferreira viu de perto os malfeitos da empresa. Por ter causado graves danos ambientais, a mineradora tinha um acordo com o Ministério Público prevendo destinar 15% de seu faturamento bruto à reparação da Serra do Curral. Foi graças a esse acordo que ela pôde seguir operando até o embargo mais recente de suas atividades, em maio de 2024. “Nunca foi feita a recuperação ambiental”, relata Ferreira.
Para tapear a fiscalização, conta o ex-funcionário, a Empabra usava fotos antigas em seus laudos técnicos, simulando trabalhos de revegetação. Outras despesas, sem relação com o reflorestamento, eram apresentadas como prova do cumprimento do acordo.
As sucessivas visitas da Justiça à sede da Empabra e a confusão com a multiplicação de CNPJs não eram ignoradas por Kallas. É o que comprova um e-mail enviado por ele aos seus sócios em março de 2017, ao qual a PF teve acesso, revelado pelo portal O Fator. “Hoje esteve o oficial de Justiça e falamos que não existe GM [Green Metals], e sim Empabra. E temos, além de uma filial, um alvará de 2017 ativo! Importante foco total nesse assunto, pois estamos deixando batom na cueca”, alertava.
Em 2018, por divergências com os sócios, Kallas deixou a empresa. Saiu em boa hora, pois em julho de 2019 a PF deflagrou a operação Poeira Vermelha, que investigou a mineração ilegal na Serra do Curral. Entre os alvos, estavam a Empabra e seus donos. No fim de 2022, Ferreira foi dispensado da empresa, embora parte das dívidas vinculadas a ela permanecessem em seu nome.
A Poeira Vermelha desdobrou-se em outras duas operações, a Parcours e a Rejeito, que foram às ruas em março e setembro de 2025 para cumprir mandados de prisão e busca e apreensão. Parte das informações que embasaram as operações foram fornecidas por Ferreira, que, não sendo investigado, apresentou-se voluntariamente à PF para contar o que sabia.
Como consequência das operações, em junho deste ano quarenta pessoas foram indiciadas por suspeita de corrupção. Entre elas, o atual diretor-geral da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa. Franceschini, atual dono da Empabra, também está na lista, assim como Kallas, que, embora não conste mais entre os sócios da empresa, segue na área de mineração: ele é fundador da Cedro, e só se afastou da administração da empresa em julho deste ano, logo após ser indiciado.
Em nota enviada à piauí, a ANM disse que “não foi comunicada oficialmente sobre o relatório final da investigação” e que “permanece à disposição das autoridades para prestar as informações”. A Empabra não respondeu aos contatos da reportagem.
Kallas é um velho conhecido da polícia mineira por seus malfeitos na Serra do Curral e em outros recantos do estado. Em 2008, quando investia na construção civil, uma de suas empresas recebeu a visita da PF. Como contou o repórter Allan de Abreu em uma reportagem publicada em maio de 2023, Kallas era um dos investigados na Operação João de Barro, que apontou a ele e a seu pai, José de Melo Kallas, como suspeitos de operar desvios milionários de recursos públicos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Kallas foi preso, mas logo conseguiu o benefício de responder em liberdade às ações penais que decorreram da investigação. A lista dos crimes dos quais é suspeito é variada: fraude em licitações, corrupção ativa e tráfico de influência, além de duas ações cíveis por improbidade administrativa. Das cinco ações criminais, foi absolvido em duas, condenado em uma, por tráfico de influência, e teve a pena prescrita em outra, por fraude em licitação.
Já em 2020, a Cedro Mineração foi investigada por desmatamento ilegal em áreas de mineração em Nova Lima e Belo Horizonte. A Polícia Civil descobriu que a mineradora não só devastou o meio ambiente, mas aproveitou para extrair minério de ferro sem as devidas licenças ambientais. Depois que a Cedro firmou um acordo com o Ministério Público, comprometendo-se a empregar 2 milhões de reais em projetos ambientais na região, o caso foi para a gaveta.
Cinco anos depois, as operações Parcours e Rejeito trouxeram à tona novas suspeitas contra Kallas e outros empresários da mineração. Para a PF, são eles os arquitetos da “distopia ambiental” na Serra do Curral: as mineradoras envolvidas no esquema deixaram para trás uma cratera de 70 metros de profundidade abrigada numa área de 66 hectares, destruíram um córrego e contaminaram parte das águas subterrâneas que abastecem a capital mineira. Proporcional à destruição foram os ganhos de quem se envolveu nos crimes. O dano ambiental foi estimado pela PF em 832 milhões de reais, e o lucro com a mineração clandestina, em 1,44 bilhão de reais, segundo o Ministério Público Federal.
Em depoimento à PF, Kallas alegou que, até a sua saída da Empabra e da Green Metals, “todas as operações estavam regulares, com fiscalização mensal do Ministério Público Estadual e da Secretaria de Meio Ambiente, além de relatórios periódicos”. O que Kallas deixou de mencionar foi que a mesma operação que investigou as mineradoras também trata como suspeitos diversos servidores de órgãos ambientais estaduais e federais, que recebiam propinas para deixar passar as irregularidades que verificavam nas fiscalizações.
Indiciado pela PF pelos crimes de mineração ilegal, usurpação de matéria-prima da União, crimes ambientais, associação criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa, Kallas foi obrigado a rever seus planos pessoais e empresariais. Depois que Vorcaro foi preso pela primeira vez, em plena tentativa de fuga no aeroporto de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025, Kallas preferiu deixar o Brasil de vez e fixar residência na Flórida. Em nota à imprensa, o empresário afirmou que sua permanência nos Estados Unidos nada tinha a ver com a prisão do ex-sócio. “Kallas reside legalmente nos Estados Unidos com sua família há aproximadamente três anos, muito antes dos fatos citados.”
Já a segunda medida, tomada um mês após a segunda prisão de Vorcaro, em março deste ano, foi vender suas participações nos negócios que incluíam o ex-banqueiro. Kallas e Vorcaro eram sócios na Biomm, que atua na área de biotecnologia, e na gestora de capitais Latache. Ao UOL, Kallas apresentou à época a seguinte explicação para o afastamento do ex-sócio: “Resolvi sair desses dois negócios para concentrar no meu DNA que é ser majoritário. Meu negócio é mão na massa, é gestão, e não ser acionistas de empresa de capital aberto.”
Mas Kallas e Vorcaro mantêm ainda algo em comum: suas tentativas de cultivar boas relações com os ministros do STF. Conforme revelou o UOL em 17 de setembro, o Iter, instituto educacional fundado pelo ministro André Mendonça, relator no Supremo do inquérito que apura as falcatruas do Master, recebeu uma injeção financeira de 5,2 milhões de reais da Cedro Participações, grupo empresarial fundado por Kallas.
Victor Godoy, ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro e que preside o Iter, disse à Folha de S.Paulo que a bolada ajudou a cobrir “custos operacionais e iniciais” da entidade. Os repasses foram acertados em abril de 2024, mas em janeiro deste ano o Iter achou melhor devolver o dinheiro à Cedro, ainda que a conta-gotas. Até agora, 5,3% do montante foi devolvido à empresa de Kallas, segundo a Folha. A justificativa para a devolução do dinheiro, afirmou o Iter em nota à imprensa, é de que o instituto “já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira”.
De fato, não surpreende que o Iter tenha conquistado em tão pouco tempo uma “situação de sustentabilidade financeira”. Em pouco mais de dois anos de existência, o instituto foi irrigado pelas verbas de 28 contratos firmados com diferentes órgãos públicos. Coisa de 10,8 milhões de reais, sem a necessidade de licitações. Após a revelação desses acordos, em setembro, o ministro André Mendonça afastou-se do instituto.
Para defender-se dos inquéritos das operações Rejeito e Parcours, Kallas se inspirou outra vez em Vorcaro e contratou uma defensora bastante conhecida nos corredores de Brasília. Desde o início deste ano, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, é quem o representa. O relator dos processos sobre a mineração ilegal em Minas Gerais é o ministro Dias Toffoli, também diversas vezes mencionado nas conversas telefônicas de Vorcaro obtidas pela Polícia Federal.
Em nota à imprensa, a assessoria de Kallas disse ter “plena confiança na demonstração de inocência”, já que o “indiciamento requenta fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça”.
Enquanto Kallas passa seus dias na Flórida, Leonardo Ferreira, o ex-funcionário da Empabra, processa a empresa que pertenceu ao seu ex-patrão por fraude trabalhista. Sem recursos para um advogado, ainda não conseguiu provar à Justiça – e aos bancos – que não era um dos verdadeiros donos da mineradora. Por isso, também não consegue abrir uma nova conta bancária, o que já o impediu mais de uma vez de encontrar um emprego fixo. “Tenho o nome sujo, com mais de 4 milhões de reais em dívidas”, resume o ex-contador.