questões cinematográficas
Fev 2010 14h16
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Humpty Dumpty cai do muro e nem todos os cavalos/nem todos os homens do rei/conseguem juntar de novo seus pedaços. Pudera – o personagem da canção de ninar, conhecido de crianças educadas em inglês, tem a forma de um ovo.
Quem diz se sentir como Humpty Dumpty é o sargento Will Montgomery, veterano da Guerra do Iraque, personagem principal de . De volta aos Estados Unidos, condecorado por heroísmo em ação, além de medalhas, traz deficiência visual e motora. Designado para dar aos parentes a notícia da morte dos seus filhos, enfrenta as dificuldades da readaptação, tema, também, do consagrado “Os Melhores anos de nossas vidas”, de 1946. No filme dirigido por William Wyler, um dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, perdeu as mãos. Nem todos os cavalos/nem todos os homens do rei/etc.
Grande sucesso comercial, na época, “Os Melhores anos de nossas vidas”, entre outro filmes daquele ano, segundo os historiadores, teria comprovado que a experiência da guerra poderia trazer uma “nova maturidade ao cinema americano” (Thomas Schatz, “Boom and Bust”, p.353).
No famoso ensaio “William Wyler ou o jansenista da mise-en-scène”, publicado em 1948 na “Revue du Cinéma” e incluído no primeiro volume de “O que é o cinema?”, André Bazin escreveu que “a natureza do assunto, sua atualidade, sua seriedade, sua utilidade social exigiam em primeiro lugar um escrúpulo meticuloso de exatidão quase documentária. Samuel Goldwyn e Wyler quiseram fazer uma obra que fosse cívica e artística […] tratava-se de expor com a amplitude e sutileza necessárias um dos problemas sociais mais dolorosos do pós-guerra americano.”
A participação na guerra de William Wyler, assim como de Frank Capra e George Stevens, segundo Bazin, os teria levado a uma “ética do realismo”. “Sem essa experiência”, Wyler declarou, “não teria feito meu filme como o fiz. Nós aprendemos a conhecer o mundo melhor […] Somos forçados a reconhecer que Hollywood não reflete o mundo e o tempo em que vivemos.”
Para Bazin, “em ‘Os Melhores anos de nossas vidas’ o escrúpulo ético da realidade encontrou sua transposição estética na mise en scène […] Wyler quer apenas permitir ao espectador (1º) ver tudo; (2º) escolher como quiser. É um ato de lealdade com o espectador, um desejo de honestidade dramática. O jogo é feito às claras. Parece, de fato, vendo esse filme, que a decupagem habitual teria aqui algo de indecente como um passe permanente de prestidigitação.[…] A frequência de planos gerais e a nitidez dos fundos contribuem enormemente para confortar o espectador e lhe dar os meios de observar e escolher e, até, o tempo de formar uma opinião, graças à duração dos planos […] A profundidade de campo de William Wyler pretende ser liberal e democrática como a conscência do espectador americano e dos heróis do filme!” Continua…