questões cinematográficas
Set 2011 08h29
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No momento, apenas dez filmes ocupam mais de 80% do circuito exibidor do país, formado por pouco mais de 2500 salas. Entre eles, , Planetados Macacos:a origem e Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2. Duas produções brasileiras integram esse grupo – Assaltoao Banco Central e Cilada.com. E dos dez, o único que vi, no papel de avô, foi .
Dessa constatação deduzo estar sofrendo de sintonite, mal do qual não sou a única vítima e cuja cura, que eu saiba, não é conhecida.
Por contraditório que pareça, há um aspecto saudável em ter me mantido alheio a esses grandes sucessos comerciais. Minha mãe nonagenenária, que foi ver um deles – Amor a toda prova – recomendou que me mantivesse distante por ser muito ruim e poder prejudicar minha saúde.
Amanhã, porém, meu estado geral deve se agravar, pois aceitei participar de um debate sobre Notícias da antiguidade ideológica, de Alexander Kluge, filme de 9 horas em que o diretor, nas palavras do texto de divulgação do evento, “a partir de apontamentos de Sergei Eisenstein para filmar O capital, de Karl Marx, entrevista poetas (entre eles Hans Magnus Enzensberger e Durs Grünbein), filósofos (entre eles, Peter Sloterdijk), cineastas e críticos de cinema (entre eles, Tom Tykwer, Werner Schroeter e Oksana Bulgakowa) sobre a atualidade das ideias de Marx e do projeto de Eisenstein”. Diante disso, alguém poderá dizer: "assim não é possível, você está abusando e nunca ficará curado".
Como o filme de Kluge está sendo lançado em DVD pela Versátil, tenho ao menos o consolo de ter a confirmação de que não estou sofrendo de sintonite sozinho.
Enquanto os filmes brasileiros de forma geral – e documentários em particular –, continuam a fazer passagens breves pelas salas de cinema – Pacific foi visto até o momento por 358 espectadores –, tudo parece continuar na mesma. Nunca se investiu tanto no cinema brasileiro, inclusive em documentários –, ainda que a demanda por recursos seja sempre superior à oferta; nunca se produziu tanto; e nunca um número tão grande de filmes passou em branco, ou quase, recebendo às vezes menos atenção do que mereciam ou sendo incompreendidos pelos críticos da grande imprensa.
A continuar nesse rumo, as possibilidades de sobrevivência parecem precárias. É possível imaginar que o estado de coisas atual perdure para sempre? O mais grave é que poucos parecem preocupados em investigar a etiologia e possíveis tratamentos para a pandemia de sintonite que atinge amplo setor do cinema brasileiro.
Depois do resultado comercial fraco em Porto Alegre, que comentei há três semanas, Diáriode uma busca* estreou no Rio e em São Paulo sexta-feira passada (26/8), tendo chegado a meros 1300 espectadores acumulados nas três cidades. É mais um indicador de que a situação atual é insustentável a médio prazo.
Na véspera do lançamento, O Globo preferiu ignorar o documentário dirigido por Flávia Castro, apesar dos prêmios recebidos em festivais, e do reconhecimento generalizado do seu interesse e qualidade, preferindo dedicar a meia-página da crítica semanal a Planeta dos Macacos: a origem, filme que um cronista do Segundo Caderno já havia qualificado como sendo “esquisito” – esquisitice que segundo ele daria ao filme “alguma personalidade”. De acordo com esse cronista, o abuso de computação gráfica não é “de todo mal”, uma vez que “seus efeitos especiais” são “os melhores da temporada" e darem, “enfim, alguma credibilidade à ‘interpretação’ digital”.
No dia seguinte desse elogio enviesado, o crítico escalado para comentar Planeta dos Macacos: a origem atribui cotação média ao filme (bonequinho atento sem aplaudir), dizendo tratar-se “de um entretenimento munido de qualidades suficientes para prender a atenção do espectador através da exibição de conquistas tecnológicas, sintetizadas em toda a sequência em que os macacos dominam São Francisco (com direito a clímax na ponte Golden Gate), mas que não exercita da melhor maneira a gramática cinematográfica”.
Um inusitado critério editorial deu dois espaços amplos, em dias seguidos, a um filme “esquisito” “que não exercita da melhor maneira a gramática cinematográfica”, segundo o cronista e o crítico do próprio jornal, enquanto no dia da estreia dedicou umas poucas linhas a Diário de uma busca – apesar do bonequinho aplaudir o filme, cotação superior à de Planeta dos Macacos: a origem, e o crítico considerar que “a exploração de sua própria identidade leva a autora a um retrato extremamente sensível da infância no exílio”.
A falta de justificativa para essa diferença de espaço dado aos dois filmes é reforçada pela matéria de primeira página sobre Diário de uma busca, no Segundo Caderno, trêsdias antes. Se o filme merece esse espaço, por que não dedicar também a ele a crítica de quinta-feira, véspera da estreia? Ainda mais considerando que sua cotação é superior à de Planeta dos Macacos: a origem, ofilme escolhido. Deve haver alguma razão para isso, mas é difícil saber qual é.
Na Folha de S.Paulo, Inácio Araujo consegue a proeza de elogiar e criticar Diário de uma busca pelo mesmo motivo. Elogia o fato do filme revelar que “nem toda busca chega a um resultado”, persistindo “o mistério da existência”. Louva também “o ponto de chegada, onde o enigma se dobra sobre si e nos é relançado”. Ao mesmo tempo, escreve que “pode-se objetar que o longa é não raro dispersivo, que a narração em off nos levará por caminhos que parecem ter interesse só familiar”. Flávia, segundo Araujo, teria se entregue “em não raros momentos às facilidades da filmagem digital.”
Ora essa! Eis um belo exemplo de crítica de somatória zero. Araujo parece não perceber que são exatamente suas restrições que permitiram a Flávia Castro fazer o que ele elogia. Foram a suposta dispersão, o foco nas relações familiares e os recursos da filmagem digital que permitiram a Diário de uma busca se livrar do compromisso de chegar a um resultado.
Entre os críticos dos grandes jornais diários, foi Luiz Zanin Oricchio, no Estado de S.Paulo, quem melhor comentou Diário de uma busca, contradizendo Inácio Araujo ao escrever que justamente por se desviar da reconstrução das circunstâncias da morte do pai, Flávia Castro “engloba sua própria memória de filha de militante político. E nessa digressão reside todo o encanto e também a emoção desse filme muito especial”, fazendo “o retrato da tragédia de uma geração. O olhar da filha, orientado pela disposição férrea em ir até o fundo dos fatos, empresta à história a ternura que só a faz mais pungente e significativa.”
Tamanha discrepância revela as agruras a que Diário de uma busca está sendo submetido pela crítica, contribuição decisiva para propagar a pandemia de sintonite.
* Diáriode uma busca é coproduzido e distribuído pela Videofilmes, empresa da qual o editor e redator de “piauí” João Moreira Salles é sócio.
Flávia Castro,por sua vez, colaborou comigo escrevendo o roteiro de uma série de documentários atualmente em finalizacão. De minha parte, assisti Diáriode uma buscamaisde uma vez enquanto estava sendo montado.