questões cinematográficas

“OS EUA CONTRA JOHN LENNON” – A COISA AQUI TÁ PRETA

Poucas vezes um final feliz terá sido tão aberrante quanto em “Os EUA contra John Lennon”. O clímax do documentário é o momento em que o “estrangeiro indesejado”, como John Lennon chegou a ser chamado, recebe o “green card”, legalizando a permanência dele, como residente, nos Estados Unidos. Depois de cinco anos de luta, a vitória ocorre no dia do aniversário dele e do nascimento do seu filho. O que aconteceu apenas quatro anos depois, em 1980, não chega a ser ignorado de todo, mas se reduz ao som de tiros e a imagens de pessoas chorando na vigília fúnebre. Yoko Ono comparece para coroar a mistificação. Nas palavras dela, “tentaram matar John mas não conseguiram, por que a mensagem dele está viva”.
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Poucas vezes um final feliz terá sido tão aberrante quanto em “Os EUA contra John Lennon”. O clímax do documentário é o momento em que o “estrangeiro indesejado”, como John Lennon chegou a ser chamado, recebe o “green card”, legalizando a permanência dele, como residente, nos Estados Unidos. Depois de cinco anos de luta, a vitória ocorre no dia do aniversário dele e do nascimento do seu filho. O que aconteceu apenas quatro anos depois, em 1980, não chega a ser ignorado de todo, mas se reduz ao som de tiros e a imagens de pessoas chorando na vigília fúnebre. Yoko Ono comparece para coroar a mistificação. Nas palavras dela, “tentaram matar John mas não conseguiram, por que a mensagem dele está viva”.

Por mais conhecido que seja o ato final da relação dos Estados Unidos com John Lennon, é estranho que mereça apenas atenção passageira em “Os EUA contra John Lennon”. Se houve, de fato, um enfrentamento entre os Estados Unidos e ele, como passar por cima do assassinato cometido por um jovem cidadão americano numa calçada de Nova Iorque?

De resto, “Os EUA contra John Lennon” segue os preceitos mais convencionais do que os americanos chamam de documentário. Mais uma vez, um conjunto de entrevistados é ouvido, em planos padronizados, e suas falas são editadas para demonstrar tese previamente formulada. Em vez da palavra fim, esses filmes deveriam ter a legenda c.q.d. (como queríamos demonstrar).

Em documentários como “Os EUA contra John Lennon”, não há lugar para dúvida. É um jornalismo de certezas, no qual só cabem versões acabadas dos fatos, sem ambiguidades. São filmes que ignoram os avanços feitos pelo cinema em direção a verdades contingentes, relativas, parciais, desconfiando das tentativas de mostrar eventos do passado como, supostamente, teriam realmente ocorrido. Não se trata mais, para esses filmes, de mostrar a vida como ela é, mas de tentar mostrar como veio a ser o que é. “Os EUA contra John Lennon” ignora essas conquistas e insiste, como continua a ser tendência dominante, numa forma caduca de tratar traumas do passado.

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Anunciada, a frente fria chegou a Curitiba na sexta-feira à noite. Um táxi salvador me depositou no shopping mais próximo. As opções eram “Homem de ferro 2”, “A hora do pesadelo”, “Viajo por que preciso, volto por que te amo”, “Os EUA contra John Lennon” e um quinto filme cujo título me escapa. Já tendo visto o filme de Karim Ainouz e Marcelo Gomes (estreando, excepcionalmente, no mesmo dia no Rio, São Paulo, Curitiba e outras capitais)  achei que filme dublado  ou de terror seriam dose forte demais para encerrar o dia. Vi então, com apenas dois casais na platéia, “Os EUA contra John Lennon”. Vendo “Viajo por que preciso, volto por que te amo” havia umas seis pessoas, três das quais alunos a quem recomendara o filme. Soube depois que os cinemas desse shopping estão sempre vazios. Será possível? A chuva e a virada do tempo devem ter contribuído para a vazante. Mas, desse jeito, a coisa aqui vai continuar preta.


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