vultos do voto

OS SOLDADOS DE ULYSSES

Em 2022, três homens driblaram a blitz da PRF para formar a primeira linha de frente contra o golpe de Bolsonaro
Eva e Felipe vão votar novamente em Lula nas eleições deste ano - FOTO: Gabriela Wolynec
Eva e Felipe vão votar novamente em Lula nas eleições deste ano - FOTO: Gabriela Wolynec

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Três homens caminham sob o sol. Um deles tira o celular do bolso e começa a gravar com a câmera frontal, passando o aparelho ao amigo, que diz: “Aê Bolsonaro Urubu, aqui é os eleitor do Lula.” Estão sozinhos, exceto pelo azul do céu, as palmeiras, e os fios elétricos que ladeiam a estrada de terra. “Andando a pé, 25 quilômetro, pra ir votar, que tu botou a Federal aqui no povoado pra ir proibir o povo de votar pro Lula… Filha da puta...”, continua. “Corno! Sem vergonha... Tu é um urubu, rapaz. Mas nós vota é pro Lula e tu vai sair daí, peste!” O primeiro homem retoma a câmera, mostrando o próprio rosto. “Cabelo liso, tu vai pro inferno, cabelo liso…” E explica o motivo da indignação: “Pra tu criar vergonha de botar lá o diabo de polícia, que polícia tem o que fazer n’outro serviço, botando pra prender as moto alheia, na hora da votação! É com medo, corno… É que nós somo aqui do Maranhão. Pode vim que nós tamo te esperando. Nem que nós corre quando tu vim.” O homem dá uma boa risada e encerra a gravação de 66 segundos. 

A publicação original do vídeo tem um pouco mais de 30 mil curtidas no TikTok, o que não é tanta coisa. Mas essas imagens correram a internet nos dias que seguiram a derrota de Jair Bolsonaro. A gravação feita por Felipe Veloso, Miro e Raimundinho no dia do segundo turno ocorreu enquanto o trio driblava uma blitz da Polícia Rodoviária Federal. Em várias regiões do Nordeste, sobretudo no interior, a PRF montou operações de fiscalização para checar a condição de veículos e condutores. O que se soube após a eleição é que o plano fora arquitetado por Silvinei Vasques, o bolsonarista que comandava a corporação à época, para dificultar a circulação de pessoas durante o pleito – e, assim, diminuir os votos em Lula na região onde ele é mais forte. 

A estratégia de Vasques foi descoberta durante as investigações sobre o  Oito de Janeiro. Ele e outros 28 integrantes do núcleo duro bolsonarista foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal pela arruaça na Praça dos Três Poderes. Mas, muito antes de Bolsonaro pisar na Papudinha, de os generais sentarem no banco dos réus, de a PF desvendar o plano para impedir cidadãos de participarem do pleito, do quebra-quebra na praça dos três poderes, de o resultado das urnas ser contabilizado e de as primeiras notícias sobre a ação da PRF chegarem ao restante do país, Felipe, Miro e Raimundinho enfrentaram uma pequena odisseia.



A ideia de gravar a saga até a urna de votação foi de Felipe, que tem 56 anos e é pai de cinco filhos. Ele tem estatura mediana, pele morena, um sorriso largo, e está sempre de boné. Dos três envolvidos na caminhada, foi o único que aceitou conversar comigo em março deste ano, quando estive em Caxias, município a 300 km da capital São Luís e que fica na divisa com o Piauí. 

Felipe é casado com Eva Assunção. Um pouco mais alta que o marido, ela costuma usar os cabelos pretos partidos no meio e presos em um rabo-de-cavalo. Quando nos vimos pela primeira vez ela usava um batom rosa-choque, combinando com a cor do esmalte. Os dois nasceram e passaram a maior parte das suas vidas em um povoado nas redondezas de Caxias, onde também moram Miro e Raimundinho. Hoje, o casal vive em uma casa alugada próxima ao Centro da cidade. Se mudaram para lá para ficarem mais próximos das escolas dos filhos que hoje já estão crescidos. 

Caxias tem muitas motos, poucos capacetes, e ainda menos placas. São mais de 40 mil motocicletas. Diz-se, na região, que a moto é o novo jegue – o principal meio de transporte do trabalhador. Os ônibus, por exemplo, não chegam a 250 e apenas 14 deles rodam em linhas de transporte público. A diminuta frota só foi implementada em 2017, e mesmo assim, por determinação do Ministério Público. Há ruas asfaltadas, outras com calçamento de pedra e várias de terra. Os quarteirões são salpicados por casas pequenas, lotes vazios e construções que ficaram pela metade, agora tomadas por mato. Apesar da ampla disponibilidade de terrenos, há poucas árvores. Não existem engarrafamentos na cidade, mas o trânsito não é exatamente tranquilo.

Ainda assim, passam bastante tempo no “interior”, como chamam. A comunidade nos arredores de Caxias tem dois caminhos de terra que formam um “T” cercado de pastos, plantações de milho, e cocais por todos os lados. Não há contagem oficial do número de habitantes, residências, ou famílias. Há quem diga que todos os vizinhos têm algum grau de parentesco e não há mais de quarenta construções, entre casas – de alvenaria ou de pau a pique – e pequenos depósitos. 

Depois de umas quatro décadas trabalhando na roça e cultivando aquela terra, Felipe resolveu mudar de carreira para se tornar pedreiro. Erguer casas, explicou, dá menos trabalho do que fazer o chão dar frutos. No plantio perde-se muito –  para a chuva, para o sol, ou para as pragas. E cada colheita perdida é trabalho dobrado. Uma parede de tijolo e cimento não – uma vez erguida, lá fica. Enquanto caminhávamos pelo vilarejo, ele me mostrou orgulhoso a reforma que tinha feito na casa do tio-avô de sua esposa. Falou de como paredes verde-escuras ficaram lisinhas, do alpendre circundando todo o perímetro da construção, das colunas grossas e retas sustentando as telhas de barro, e das portas e janelas de uma madeira trabalhada que devem ter um século de existência.


No dia da eleição, os três se encontraram por volta das 9 horas na estrada de terra que liga o povoado à BR-226. A ideia, contou Felipe, era pegar carona na garupa de Miro ou Raimundinho. No entanto, diante dos rumores que circulavam pelo WhatsApp dos moradores da região, resolveram deixar as motos em casa. Lá já corria a informação de que a PRF estava fazendo blitz nas estradas. Então, decidiram que a melhor opção para chegar ao local de votação era ir a pé. O destino era o Povoado Baú, uma localidade rural distante 7,5 km (e não os 25 km que Felipe diz no vídeo). Um punhado de nuvens fazia pouco para amenizar o calor do sol. Mesmo com trajes leves – de camiseta e chinelo – os três suavam. Nas mãos levavam só o celular e os títulos de eleitor.

No caminho, quando passaram pelo simpático Restaurante da Rosinha, na beira da BR-226, encontraram os policiais da PRF. Felipe refez o caminho comigo – desta vez de carro – e apontou o local exato onde, quatro anos antes, estava estacionado um caminhão-prancha lotado de motos. “Eles estavam bem escondidinhos", disse. Os agentes da PRF escolheram um lugar à sombra de duas grandes árvores, em frente a um terreno onde agora está sendo construído um posto de gasolina. Na época, porém, o mato alto do lote ocioso encobria a blitz, tornando-a invisível para quem vinha dos povoados à Oeste. 

A Rosinha, do restaurante, me disse que não prestou muita atenção nos policiais porque, como acontece em todo pleito, o vai e vem de eleitores deixa o estabelecimento cheio. Ela disse, no entanto, que viu o caminhão da PRF indo embora cheio de motos e voltando vazio para buscar mais. Uma das motocicletas levadas foi a do pai de um dos genros de Felipe. Ele foi recuperar o veículo dias depois, no pátio da corporação, em Caxias, onde deixou um montante próximo de mil reais em multas e taxas. Na época, era quase o valor de um salário mínimo.

O trio chegou em Baú antes do meio-dia. Ainda passaram horas em pé, esperando na fila lotada de eleitores. Depois de votarem em Lula como planejado, voltaram para casa no fim da tarde do mesmo jeito: andando. 

Na edição de 5 de setembro do ano passado, Celso Rocha de Barros, cientista político que integra a bancada do Foro de Teresina junto dos jornalistas Ana Clara Costa e Fernando de Barros e Silva, relembrou a história de Felipe e seus amigos. “Nunca vou deixar de me impressionar com aquela imagem dos caras indo a pé votar”, disse. “São os soldados do Ulysses Guimarães, soldados da democracia brasileira”, completou, lembrando a figura do emedebista símbolo da redemocratização. 

Lembrando aquele segundo turno, quatro anos depois, Celso me disse que aquele dia “foi um terror”. Quando soube da ação da PRF no Nordeste, ele imaginou que muita gente daria meia-volta ao se deparar com os bloqueios, o que seria uma reação compreensível. E essa supressão do eleitorado poderia ser decisiva em uma disputa acirrada como aquela. Mas não foi. Graças, em grande parte, aos eleitores que, como Felipe, Miro, e Raimundinho, fizeram de tudo para chegar às urnas.

“Eu nunca tive que fazer o que esses caras fizeram para exercer a minha cidadania”, disse Celso. Esse é provavelmente o motivo pelo qual ele vê tanta beleza em um gesto que é absolutamente corriqueiro na vida de seus autores. Para muita gente, para quem a cidadania não vem tão fácil, uma caminhada é o de menos.

“A gente tem, muito por um preconceito absurdo, a ideia de que o setor econômico mais pobre, que vota no Lula, seja mais passivo”, reflete. Esse episódio desmente o senso comum. “Não é só que o cara vota no Lula. O cara vai a pé votar no Lula. Porque ele fala: eu sei que isso é sério, eu sei o que isso significa. E, sobretudo, eu não vou deixar ninguém me impedir de fazer isso. Foi para isso que o Ulysses lutou.”

Os eleitores foram os primeiros na linha de frente contra as investidas autoritárias de Bolsonaro. Depois, já sob o terceiro mandato de Lula, as instituições começaram a reagir. Vasques e parte da cúpula bolsonarista envolvida no Oito de Janeiro acabou julgada e presa pelo STF. No que diz respeito às ações da PRF, as investigações mostraram que a delegada da Polícia Federal (PF) Marília Ferreira Alencar, então diretora de inteligência do Ministério da Justiça, encomendou um relatório de “business intelligence” identificando, principalmente na região Nordeste, municípios onde Lula era o franco favorito. Em seguida, o então ministro da pasta, Anderson Torres, deu aval à operação, cuja implementação ficou a cargo de Vasques. Ele pegou 24 anos e seis meses de prisão. Na véspera do Natal, rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu para o Paraguai, onde foi capturado. Atualmente, cumpre pena no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha, que fica dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. 

Em Caxias, a condenação gerou pouco alvoroço. Felipe acha que Vasques “precisa pagar pelo que fez”, mas também me disse que a prisão tem pouca influência em sua vida. Sua atenção está quase sempre voltada para o celular. Não à toa foi dele a decisão de gravar e publicar o vídeo sobre a odisseia até a urna. Exagerar a distância – aumentando dos 7 km para os 25 km – não foi um erro de cálculo, mas um floreiro “para fazer mídia”, me disse. 

Com o aparelho em mãos, oscila entre a conversa e a tela. O som ligado emite aquela trilha sonora repicada característica do TikTok, com vídeos curtos passando um atrás do outro. Felipe gosta de assistir conteúdo de outros pedreiros, “para ver como é que o pessoal está fazendo as coisas”. Ele mesmo entrou na onda e publicou alguns registros dos seus trabalhos, tentando surfar no sucesso do vídeo sobre a odisseia eleitoral. A coisa não vingou. “Minha filha diz que eu tenho que mostrar fazendo a obra, como o pessoal faz”, contou. “Mas eu só gosto de mostrar o serviço pronto.” Ele prefere deixar o telefone de lado enquanto trabalha. 

Miro e Raimundinho não são dados aos holofotes, tanto que preferiram não dar entrevistas. Felipe também é tímido, ainda que um pouco mais desenvolto com estranhos. Talvez por isso tenham recusado um convite de Ricardo Rodrigues, presidente da Câmara de Vereadores de Caxias e da direção estadual do PT no Maranhão para assistir à posse de Lula, em Brasília. A ideia de conhecer a capital do país era boa, mas os detalhes de transporte e hospedagem não estavam muito claros. Havia, ainda, um certo clima de tensão no país. “Se alguma coisa dá errado lá, a gente não conhece ninguém para ajudar”, explicou Felipe. Resolveram que bastava ver a festa pela televisão. “Eu queria ter ido”, disse Eva, interrompendo o relato do marido. Ela estava de pé, na beira da porta da casa que alugam em Caxias, olhando o movimento da rua. “Eu gosto de viajar.”


Eva fez questão de dizer que votou em Lula toda vez que pôde e que, sempre que ele estiver na urna, votará novamente no petista. Os motivos, ela diz, estão ao alcance das mãos e dos olhos, todos os dias. Cícero Leão, um taxista amigo da família, concorda. Ele me apontou um deles enquanto conversávamos na casa de Jane de Castro, amiga de Eva e Felipe. Era um vaso de barro que estava encostado em um canto da varanda. “Aquilo ali era a geladeira do pobre antes do Lula”, disse. O pai dele, que era oleiro, produzia recipientes como aquele para manter a água fresca. Não havia, porém, onde conservar alimentos. Foi o programa Luz Para Todos, de 2003, que deu fim à era do querosene em boa parte do país.

O próprio teto sob o qual conversávamos, da casa de Jane, era resultado das políticas públicas lulistas. A dona não lembra de quando é a casa, construída por meio do Minha Casa Minha Vida Rural, “mas de antes de 2002 não é”, me disse, com certeza. Ela votou em Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022. Neste ano, repetirá a dose no petista, ainda que sem muita convicção. “Eu só mudei de ideia mesmo, que pelo que eu vejo aí tudo fica a mesma coisa.” Seu marido, Cléber, era um bolsonarista legítimo, mas se decepcionou com o capitão. “Não aguentou nem uma cana!” Ele lembrou que Lula, quando foi preso, se entregou de cabeça erguida. “Ele [Bolsonaro] não é o que ele diz que é.”

Flávio Bolsonaro foi mencionado enquanto Jane e Cléber compartilhavam melancias da sua horta com Cícero, Eva, e Felipe. A reação compartilhada por todos foi aquele movimento de sobrancelhas que fica em algum lugar entre o desdém e a pena. Em março, quando estive com eles, o candidato do PL não havia engrenado e sua presença na urna ainda era incerta. Fazendo um esforço de memória, Felipe citou a suspeita de envolvimento de Flavio no assassinato “daquela vereadora do Rio”. Estava falando de Marielle Franco, assassinada junto de seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. As investigações não apontaram a participação de Flávio no crime, mas o senador mantém relação estreita com pessoas próximas aos mandantes do assassinato: os ex-deputados Domingos e Chiquinho Brazão. 

Naquele dia, todos afirmaram que não votariam no filho primogênito de Jair. Jane disse que, no interior, Flávio não era tão conhecido como o pai. Ela definiu a família como “desagradável”. Cléber disse que eles são “vingativos”. Cícero complementou: “Ele tem raiva de pobre”, ressaltando sua rejeição à pauta do fim da escala 6x1. 


Assim que voltaram de Baú, depois de enfrentarem os mesmos 7,5 km de caminhada, Felipe, Miro e Raimundinho se refrescaram tomando uma cerveja junto com os vizinhos no povoado onde vivem. Foi nessa hora que decidiram publicar o vídeo gravado pela manhã. Hesitaram: “a gente ficou com medo do Bolsonaro vir atrás da gente”, contou Felipe. Enquanto o Brasil aguardava a apuração dos votos, ele abriu o TikTok e publicou não só o registro que acabou viralizando, mas também um outro que também havia sido feito pela manhã. 

O segundo vídeo teve pouca repercussão e não está mais disponível na internet. Nele, Felipe se aproxima da viatura da PRF, filma o carro de relance e depois mira a estrada. “Vamo passar por ela bem aqui … A sem-vergonha da desgraça, esse Bolsonaro da peste!”, disse, mostrando as costas dos amigos que andavam com ele. “Ê… Se o Bolsonaro fosse mais perto do Maranhão, nós ia tocar fogo, nós ia tocar fogo na casa dele, essa peste…” continuou, revoltado e ofegante. 

Em seguida, Felipe substituiu a ameaça hipotética por uma profecia: “Nós vamo votar no Lula”, disse. “Vamo botar ele no poder pra ele [Lula] botar ele [Bolsonaro] na cadeia, aquela desgraça…” Às 19h57, a televisão anunciaria a vitória do petista, para a satisfação do trio de amigos. “Nós tem força de caminhá.”


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É jornalista da Brut.