questões cinematográficas
Fev 2011 08h26
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Em seu artigo semanal, publicado sexta-feira passada (18/2/2011) no “Valor Econômico” e no site do Festival “É Tudo Verdade”, Amir Labaki indica “Trabalho interno” como provável vencedor do Oscar de melhor documentário de longa-metragem, prêmio a ser entregue nesse domingo.
A aposta de Amir indica divergência com o que escrevi neste blog no mesmo dia. Não vou repetir o que me faz considerar, além de péssimo, um caso de polícia o filme produzido, escrito e dirigido por Charles Ferguson. Amir, de seu lado, ao comentar o filme quando foi lançado no Festival de Cannes de 2010, escreveu que “era a mais importante tentativa de examinar em filme a crise financeira de 2008.”
Poderia até concordar, caso Amir tivesse escrito que “Trabalho interno” é o primeiro documentário de fôlego sobre o assunto, o que não deixa de ter algum mérito. Daí ter assinalado no post da semana passada que considero o filme relevante e atual.
Mas deixando de lado as declarações de intenção de Ferguson, o que me parece faltar ao comentário de Amir é uma análise dos fundamentos positivistas das premissas de Ferguson; da tentativa de vender como novidade o que não passa da redescoberta da pólvora; da utilização de dezenas de entrevistas editadas para demonstrar suas teses, da ausência de sentido ético e da convicção que a responsabilidade por tudo se resume a um grupo de banqueiros e políticos malévolos.
As credenciais acadêmicas e profissionais de Charles Ferguson não são comuns para um documentarista: graduado em matemática pela Universidade da California, doutor em ciência política pelo MIT, onde foi professor, lecionou também em Berkeley e no Brookings Institution, em Washington, depois de ter sido consultor da Casa Branca e do Departamento de Defesa, além de empresas como Apple, Xerox, Motorola, e Texas Instruments. Com um currículo desse seria razoável esperar mais do que apenas a perspicácia de eleger assuntos relevantes da atualidade – caso tanto do seu primeiro filme, “Sem fim à vista”, quanto de “Trabalho interno”.
O que falta aos dois filmes é se livrar da influência de Karl Popper, filósofo da ciência que Ferguson deve ter sido obrigado a ler na faculdade. Se o propósito da ciência, assim como de toda atividade humana, segundo Popper, consiste em resolver problemas, esse deixou de ser o objetivo predominante do cinema documentário. A ruptura com o compromisso de demonstrar teses – possível graças, inclusive, ao ensinamento do próprio Popper, segundo o qual é fácil conseguir provas para comprovar qualquer teoria –, libertou o documentário do jugo das doutrinas. Conscientes disso, documentaristas passaram a se dedicar mais a investigar e entender, deixando de lado afirmações peremptórias ao gosto de Charles Ferguson.
É possível que a aposta de Amir seja vencedora no domingo e “Trabalho interno” ganhe o Oscar de melhor documentário de longa-metragem. Nesse caso, a Academia terá consagrado, mais uma vez, um malentendido, o que acontece regularmente e não deve nos preocupar.
Preocupante é Amir Labaki – um dos maiores credores culturais do cinema documentário no Brasil – endossar o engano.
Em tempo: Peço a indulgência de eventuais leitores, em particular do meu amigo Nilton, por ter cedido à tentação de citar Karl Popper.
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