questões cinematográficas
Jul 2010 07h52
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“Ser crítico é melancólico. Crítico de cinema então é desolador a julgar pelos resultados obtidos durante os últimos quarenta anos.” – assim escreveu Paulo Emílio ( 1916 – 1977 ) no artigo “Desnecessidade da inteligência”, publicado em março de 1963 no Suplemento Literário de “O Estado de S.Paulo”.
O que segue é um resumo desse artigo: “Sempre faltou inteligência à crítica cinematográfica […] e se examinarmos historicamente, é bastante provável que encontraremos muito mais inteligência mobilizada nos campos da indústria e do comércio do que no plano da criação artística e da atividade intelectual da critica. […] Se alinharmos D.W. Griffith ou Thomas Ince a Proust ou Shaw, evidencia-se o papel modesto que teve a inteligência no destino artístico dos primeiros e como foi preponderante para os outros dois. Tudo ocorreu como se durante algumas décadas a criação cinematográfica negligenciasse a destreza intelectual indispensável à literatura romanesca e teatral. Nessa ordem de idéias Chaplin é esmagado pelo seu par Molière. […]
[…] O fenômeno global da pouca inteligência na criação cinematográfica durante tantas décadas era expressão de desnecessidade e não de mediocridade. Não influiu na qualidade artística dos filmes. […]
[…] A inteligência faz falta cruel à crítica cinematográfica. […] se vislumbra a mágoa provocada pelo divórcio profundo entre os espíritos mais altos do século e as coisas do cinema. A crítica sem inteligência entrou de tal forma nos hábitos que homens de atividades intelectuais variadas, entre os quais se incluía a apreciação de filmes, reservaram, sempre para esta última, o subproduto de sua capacidade.
[…] Na França, na América, na Alemanha de antes de Hitler, na Itália com ou sem Mussolini, e parece até na Rússia, a crítica cinematográfica se inseria com todas suas limitações numa conjuntura ampla em que eram fabricados filmes, o que assegurava vinculação com algo vivo e permitia um mínimo de função estimulante. No Brasil, dirigindo-se exclusivamente a um público inerte de consumidores de produtos importados, a crítica cinematográfica revelava-se jogo com número irrisório de participantes, autores e leitores, isto é, inútil.
De alguns anos a esta parte […] alterou-se profundamente o panorama, tão melancólico até então da crítica cinematográfica. O fenômeno não se manifestou especialmente no terreno crítico. O que ocorreu aí foi parte de um acontecimento muito mais geral, a inelutável irrupção da inteligência na criação cinematográfica.[…]”
“Gosto pela inteligência” é o título do artigo que Paulo Emílio, publicou na semana seguinte. Os dois estão em Crítica de cinema no Suplemento Literário, volume 2, Rio: Paz e Terra&Embrafilme, 1981. pp. 432-439.