questões cinematográficas
Nov 2010 20h11
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Retomo a série de posts “para meditar”, interrompida desde julho.
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O título, por si só, faz pensar: “Comincio a capire” ( “Começo a entender” ) é o nome do livro de 59 páginas de texto esparso que Michelangelo Antonioni (1912-2007) publicou, em 1999, quando estava com 87 anos.
Começa assim: “Não tenho nada para dizer, mas escrevo. Talvez tenha vontade de mostrar palavras, aqui sobre o branco.”
Adiante, anota: “Não nos iludamos: no mesmo momento em que nos inspira, a realidade se torna nossa pior inimiga.”
Em outro trecho: “Uma coisa que me sobrou é a emotividade. Quando minha mãe me contava fábulas, minha emoção era tanta que ela precisava parar. A minha infância é cheia de fábulas sem final. Hoje também me comovo no cinema se o fraco é maltratado. Mas tento não deixar perceber. Eis uma coisa que perdi com a maturidade: a coragem dos sentimentos.”
E ainda: “Detesto o papel do incompreendido. Se há algo de enigmático no que faço, sou eu que erro. O problema é que os meus erros talvez sejam o que de mais pessoal eu tenha posto nos meus filmes.”
E finalmente: “Estou procurando definir dentro de mim o filme que farei depois do que venho de acabar. A coisa mais difícil é não se interessar por nada, não ler, não se distrair. Alcançar o silêncio e a escuridão. É na escuridão que a realidade nos ilumina, é no silêncio que chegam as vozes de fora.”
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Em uma apreciação panorâmica do cinema brasileiro dos últimos três anos, publicada na “Cult” 151 de outubro, Ilana Feldman identifica
Para Ilana Feldman, um número expressivo de títulos – nem todos bem sucedidos comercialmente – teriam em comum essa “pegada realista”, havendo também outros tantos que “em seu formalismo (termo aqui empregado sem nenhuma conotação negativa) ou delírio subjetivo, recusam esse apelo realista, […].” A produção da era Lula seria caracterizada, nas suas palavras, por uma “guinada de paradigma de dramaturgia nunca antes conhecida”. Mudança definida por personagens mitificados, empreendedores, com trajetórias de ascenção social e espiritual, saídas individuais, escaladas rumo ao sucesso e ‘visão conciliadora de ações afirmativas’”.
“O documentário brasileiro contemporâneo”, por outro lado, nos levaria a pensar, segundo Ilana Feldman, no que vemos na tela: “Realidade, verdade, manipulação, ficção ou tudo ao mesmo tempo?” Por indicarem “dúvidas a respeito da imagem documental”, questionarem “as noções de autêntico, verdadeiro e espontâneo, tão comumente remetidas ao campo do documentário”, e colacarem “sob suspeita seus próprios procedimentos, métodos ou premissas” nos dariam “a ver, às avessas, a impossibilidade de chegar ao real ou de falar em nome dele.”
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Faço esse resumo imperfeito do texto que deve ser lido na íntegra por que, além do seu valor específico, conseguindo dar uma visão de conjunto do que a própria Ilana Feldman define como sendo diversificado e heterogêneo, trata de forma original da relação entre cinema e realidade, mencionada a propósito de “Tropa de elite 2 no post anterior a este, e à qual Antonioni se referiu na citação feita acima.
Creio que o limite de espaço tenha levado Ilana Feldman a generalizar o que pode ser característico dos documentários que ela cita, mas certamente não diz respeito ao conjunto da produção brasileira de filmes não-ficcionais.
Além disso, dizer que há uma “impossibilidade de chegar ao real” talvez seja uma afirmação excessivamente categórica. Afinal, se “a realidade se torna nosso pior inimigo”, como escreveu Antonioni, nem por isso a ficção deixou de demonstrar algumas vezes – sem pensar especificamente na que é produzida no Brasil – maior capacidade de vencer esse terrível antagonista do que muitas obras de caráter documental.