questões cinematográficas

“PECADOS DO MEU PAI” – RP ( I )

“Pecados do meu pai”, documentário de 2009, registra uma operação de relações públicas que parece ter sido instigada pelo próprio realizador e co-produtor argentino Nicolas Entel. Graduado em direção cinematográfica pela Universidade do Cinema, em Buenos Aires, pós-graduado em Administração de Broadcasting na Universidade de Boston, Nicolas Entel divide seu tempo entre Buenos Aires e Nova Iorque. Por formação, e graças à sua base de trabalho multinacional, parece entrosado com a concepção dominante de como deve ser um documentário.
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“Pecados do meu pai”, documentário de 2009, registra uma operação de relações públicas que parece ter sido instigada pelo próprio realizador e co-produtor argentino Nicolas Entel.

Graduado em direção cinematográfica pela Universidade do Cinema, em Buenos Aires, pós-graduado em Administração de Broadcasting na Universidade de Boston, Nicolas Entel divide seu tempo entre Buenos Aires e Nova Iorque. Por formação, e graças à sua base de trabalho multinacional, parece entrosado com a concepção dominante de como deve ser um documentário.

Com apoio do Fundo Jan Vrijman, e contando com coprodução da ARTE/ZDF, Channel 4 e National Geographic, além da distribuição HBO, “Segredos do meu pai” segue fielmente as convenções predominantes nas televisões da Europa e dos Estados Unidos, e na maioria dos festivais internacionais voltados para o cinema documentário – tanto na maneira de gravar, quanto nos enquadramentos, na iluminação das entrevistas, nas encenações, no tom enfático da narração etc. Visto na TV, talvez causasse menos estranheza. No cinema, o servilismo ao formato padronizado causa sensação de estar vendo algo inapropriado, que não foi feito para ser visto projetado numa tela.

Ainda assim, ou exatamente por isso, “Pecados do meu pai” foi acolhido e premiado em vários festivais. Recebeu o Prêmio do Público e o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Miami, foi exibido em competição no Festival de Cinema de Sundance e no Forum Hot Docs, em Toronto.

Exemplo típico de documentário valorizado por tratar de assunto em destaque na pauta da mídia internacional, apesar da sua forma narrativa destituída de interesse, “Pecados do meu pai” vale por algumas imagens de arquivo, em especial a cena do assassinato de Luis Carlos Galán, jornalista e político colombiano, quando chegava a um comício da sua campanha presidencial, em 1988. Assassinato supostamente cometido a mando de Pablo Escobar, chefe do cartel de Medellin, que teria controlado 80% do tráfico de cocaína na década de 1980.

A sequência inicial, desenho animado da fabricação de cocaína, do plantio ao refino e comercialização, é um exemplo da obediência servil do realizador ao padrão convencional entronizado pelas principais emissoras de televisão como modelo a ser seguido.

De maneira deliberada, Nicolas Entel instiga situações que, sem seu estímulo, nunca teriam ocorrido. Não fica claro, mas a impressão é que Juan Pablo Escobar, filho de Pablo Escobar, foi convencido a atuar em “Pecados do meu pai”. Vivendo na Argentina, com nome suposto de Sebastián Marroquín, é através dele, seus arquivos pessoais e os de sua mãe, que o documentário se estrutura. [ continua ]


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