questões cinematográficas

PEDRO COSTA – “NÃO GOSTO DO DOCUMENTÁRIO”

Pedro Costa faz suas as palavras de João Bénard da Costa, crítico e ensaísta, diretor da Cinemateca Portuguesa de 1991 até seu falecimento em 2009: “não gosto do documentário”. Vindo de quem vem, a afirmação é desconcertante. 
Imagem Pedro Costa – “não gosto do documentário”

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Pedro Costa faz suas as palavras de João Bénard da Costa, crítico e ensaísta, diretor da Cinemateca Portuguesa de 1991 até seu falecimento em 2009: “não gosto do documentário”. Vindo de quem vem, a afirmação é desconcertante.

Como entender o desagrado do diretor de “Onde jaz o teu sorriso?” (2001) e “Ne change rien” (2009), seu mais recente documentário, exibido sábado no Rio, na abertura da mostra “O cinema de Pedro Costa”? (Programação aqui) .

No livro que acompanha a edição francesa do DVD de “No quarto da Vanda” ( “Dans la chambre de Vanda – conversation avec Pedro Costa”. Nantes: Capricci, 2009 ), Pedro Costa associa documentário, denúncias e realidade mostrada tal qual observada – o que está longe de definir o gênero; por outro lado, considera que reencenações e manipulações na montagem seriam do domínio da ficção quando, na verdade, são procedimentos usuais em documentários.

“O que estou fazendo é transformar essas pessoas [os cineastas Danièle Huillet e Jean-Marie Straub no primeiro filme,  e a cantora e compositora Jeanne Balibar em ‘Ne Change Rien’] em monumentos. Você pode cortar todas as partes ruins e as coisas que eles não fazem tão bem, porque você quer que eles se saiam bem, como atores, é quase como fazer ficção […] A estrutura que criei foi bem ficcional, porque eles tinham que aparecer como heróis, como as pessoas grandiosas que sempre pensei que fossem, e não houve nenhuma decepção.”

Embora alheio à classificação do cinema por gêneros, Pedro Costa rejeita o documentário e proclama seu compromisso com a ficção. Estranhamente, entende que haveria incompatibilidade entre documentário e personagens aparecerem “como heróis”, “monumentos”, “cortar as partes ruins e as coisas que eles não fazem tão bem”, criar uma estrutura ficcional etc. – todos métodos usuais dos praticantes do gênero.

Referindo-se a “No quarto da Vanda” (2000), afirma ter sido movido por “um desejo de ficção”:

“Fui lá para amar Vanda, o bairro, vê-lo pela primeira vez, fazer o filme mais lindo no quarto, no bairro, em Portugal, no mundo.”

Nada do que corresponderia, na visão dele, a “uma ambição documentária”. Difícil entender por quê. A ficção que, de fato, se infiltra e domina “No quarto da Vanda” vem das atrizes e atores não profissionais que atuam orientados pelo diretor e repetem cada plano exaustivamente; do controle rígido da encenação, da ausência de improvisação e exclusão da espontaneidade. Nada do que é encontrado em “Onde jaz o teu sorriso?” e “Ne change rien”.

Essa seria uma discussão semântica irrelevante se algumas declarações de Pedro Costa não fossem ambíguas, confundindo mais do que ajudando a iluminar seus filmes.

Em “Ne change rien” temos de novo espaços delimitados, longo tempo de observação, intimidade implícita entre o cineasta e seus personagens, claro-escuro, planos fixos e extensos – traços distintivos do cinema de Pedro Costa: “[…] foi preciso que eu descobrisse isso também, que fui feito para filmar em quartos, as portas, os corredores, […]”.

O que fizera em “Onde jaz o teu sorriso?”, registrando o árduo e minucioso esforço para fazer um filme é retomado, agora para revelar o processo de criação musical. Nos dois casos, a ética de Daniéle Huillet, Jean-Marie Straub e Jean Balibar é a mesma de Pedro Costa – disciplina e trabalho, nada a ver com “uma bossa de ‘flâneur’, de poeta, de artista, de adolescente retardado” que ele próprio diz ter sido um dia.

Na Revista de Cinema Contracampo 94, Alice Furtado escreve sobre “Ne Change Rien”:

“O que faz este realizador português senão desvelar a todo momento a camada mais superficial e a aparência ordinária do mundo e suscitar, do encontro entre seu dispositivo e uma matéria já existente, algo de maravilhoso?”

Referindo-se a uma palestra de Pedro Costa, Alice Furtado diz que para ele

“é dever do cineasta trabalhar para deixar a condição de intruso diante do universo pré-existente no qual entrou e passar a conhecer profundamente o seu funcionamento. É assim que os ensaios e/ou repetições se tornam parte fundamental do processo.

[…]Em tempos como os atuais, em que o cinema é invadido por filmes nos quais a exaltação da forma raramente carrega um real sentido, objetivo ou ‘savoir-faire’, assistir a um filme de Pedro Costa é uma experiência quiçá miraculosa.”

Agradeço a contribuição não autorizada de Alice Furtado para este post. Vale a pena ler a íntegra do seu texto, além de ir correndo, cariocas e brasilienses, ao Centro Cultural Banco do Brasil.


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