questões cinematográficas
Set 2010 04h23
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Pedro Costa faz suas as palavras de João Bénard da Costa, crítico e ensaísta, diretor da Cinemateca Portuguesa de 1991 até seu falecimento em 2009: “não gosto do documentário”. Vindo de quem vem, a afirmação é desconcertante.
Como entender o desagrado do diretor de “Onde jaz o teu sorriso?” (2001) e “Ne change rien” (2009), seu mais recente documentário, exibido sábado no Rio, na abertura da mostra “O cinema de Pedro Costa”? (Programação aqui) .
No livro que acompanha a edição francesa do DVD de “No quarto da Vanda” ( “Dans la chambre de Vanda – conversation avec Pedro Costa”. Nantes: Capricci, 2009 ), Pedro Costa associa documentário, denúncias e realidade mostrada tal qual observada – o que está longe de definir o gênero; por outro lado, considera que reencenações e manipulações na montagem seriam do domínio da ficção quando, na verdade, são procedimentos usuais em documentários.
“O que estou fazendo é transformar essas pessoas [os cineastas Danièle Huillet e Jean-Marie Straub no primeiro filme, e a cantora e compositora Jeanne Balibar em ‘Ne Change Rien’] em monumentos. Você pode cortar todas as partes ruins e as coisas que eles não fazem tão bem, porque você quer que eles se saiam bem, como atores, é quase como fazer ficção […] A estrutura que criei foi bem ficcional, porque eles tinham que aparecer como heróis, como as pessoas grandiosas que sempre pensei que fossem, e não houve nenhuma decepção.”
Embora alheio à classificação do cinema por gêneros, Pedro Costa rejeita o documentário e proclama seu compromisso com a ficção. Estranhamente, entende que haveria incompatibilidade entre documentário e personagens aparecerem “como heróis”, “monumentos”, “cortar as partes ruins e as coisas que eles não fazem tão bem”, criar uma estrutura ficcional etc. – todos métodos usuais dos praticantes do gênero.
Referindo-se a “No quarto da Vanda” (2000), afirma ter sido movido por “um desejo de ficção”:
“Fui lá para amar Vanda, o bairro, vê-lo pela primeira vez, fazer o filme mais lindo no quarto, no bairro, em Portugal, no mundo.”
Nada do que corresponderia, na visão dele, a “uma ambição documentária”. Difícil entender por quê. A ficção que, de fato, se infiltra e domina “No quarto da Vanda” vem das atrizes e atores não profissionais que atuam orientados pelo diretor e repetem cada plano exaustivamente; do controle rígido da encenação, da ausência de improvisação e exclusão da espontaneidade. Nada do que é encontrado em “Onde jaz o teu sorriso?” e “Ne change rien”.
Essa seria uma discussão semântica irrelevante se algumas declarações de Pedro Costa não fossem ambíguas, confundindo mais do que ajudando a iluminar seus filmes.
Em “Ne change rien” temos de novo espaços delimitados, longo tempo de observação, intimidade implícita entre o cineasta e seus personagens, claro-escuro, planos fixos e extensos – traços distintivos do cinema de Pedro Costa: “[…] foi preciso que eu descobrisse isso também, que fui feito para filmar em quartos, as portas, os corredores, […]”.
O que fizera em “Onde jaz o teu sorriso?”, registrando o árduo e minucioso esforço para fazer um filme é retomado, agora para revelar o processo de criação musical. Nos dois casos, a ética de Daniéle Huillet, Jean-Marie Straub e Jean Balibar é a mesma de Pedro Costa – disciplina e trabalho, nada a ver com “uma bossa de ‘flâneur’, de poeta, de artista, de adolescente retardado” que ele próprio diz ter sido um dia.
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Na Revista de Cinema Contracampo 94, Alice Furtado escreve sobre “Ne Change Rien”:
“O que faz este realizador português senão desvelar a todo momento a camada mais superficial e a aparência ordinária do mundo e suscitar, do encontro entre seu dispositivo e uma matéria já existente, algo de maravilhoso?”
Referindo-se a uma palestra de Pedro Costa, Alice Furtado diz que para ele
“é dever do cineasta trabalhar para deixar a condição de intruso diante do universo pré-existente no qual entrou e passar a conhecer profundamente o seu funcionamento. É assim que os ensaios e/ou repetições se tornam parte fundamental do processo.
[…]Em tempos como os atuais, em que o cinema é invadido por filmes nos quais a exaltação da forma raramente carrega um real sentido, objetivo ou ‘savoir-faire’, assistir a um filme de Pedro Costa é uma experiência quiçá miraculosa.”
Agradeço a contribuição não autorizada de Alice Furtado para este post. Vale a pena ler a íntegra do seu texto, além de ir correndo, cariocas e brasilienses, ao Centro Cultural Banco do Brasil.