Felipe Perrone pela seleção da Espanha, em duelo contra Montenegro, na Olimpíada de Londres - Clive Rose/Getty Images
Felipe Perrone pela seleção da Espanha, em duelo contra Montenegro, na Olimpíada de Londres - Clive Rose/Getty Images

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A DINASTIA CARIOCA DAS PISCINAS

A saga da família Perrone, que conquistou o circuito internacional do polo aquático

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Faltando um minuto para o juiz apitar o fim da partida, a Espanha vencia a Hungria por 14 a 13 na final de polo aquático no Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos, em Singapura. Nada estava garantido: em um ataque agressivo, os húngaros pressionavam para empatar o jogo e levar a decisão para os pênaltis. Os espanhóis retomaram o controle e partiram para um contra-ataque rápido. A vinte segundos do fim, a bola parou na mão certeira de um carioca do Leme: Felipe Perrone elevou-se das águas para marcar o 15º gol de seu time. Aos 39 anos, o jogador hispano-brasileiro encerrava sua trajetória no esporte consagrado como uma espécie de Messi das piscinas. Seu gol selou a vitória espanhola no mundial de 2025 – e contra a Hungria, maior potência internacional do polo aquático, com quatro campeonatos mundiais e nove ouros olímpicos.

 Pouco depois, com a medalha no pescoço, Felipe Perrone levantava o troféu de campeão do mundo pela segunda vez – a primeira foi em 2022, na casa dos húngaros, Budapeste. Retirava-se do esporte profissional realizado: é dele a mais brilhante carreira de um jogador nascido e criado no Brasil. Seu gol decisivo no título mundial veio consolidar o lugar da dinastia Perrone. O nome da família é sinônimo de polo aquático em qualquer lugar onde o esporte já tenha sido praticado – especialmente, em três cidades centrais da biografia de Felipe: Rio de Janeiro, Barcelona e Dubrovnik.

Nascido em 1976, Kiko Perrone, irmão mais velho de Felipe e também craque do polo aquático, pertence, como eu, à geração que completa 50 anos neste 2026. Na certidão de nascimento, ele tem o mesmo nome do pai, Ricardo, mas ninguém o chama assim nos meios esportivos. Acompanho a carreira de Kiko há décadas. Meu interesse pelo esporte nasceu no final dos anos 1980, quando deixei as aulas de natação para jogar polo aquático. Eu tinha então 11 anos, a idade padrão para os primeiros treinos de bola dentro da piscina (pertencentes a uma família de esportistas, Kiko e Felipe começaram mais cedo).

Há quem diga que o polo aquático é para nadadores medianos, como eu, enquanto os melhores seguem na natação – e os piores abandonam as piscinas para jogar futebol. Tem alguma verdade nessa avaliação, mas ela perde o principal: o polo aquático tem uma magia muito particular, que nos encanta muito cedo. As crianças ficam fascinadas só de ver os treinos desse jogo de bola dentro da água. Nos clubes paulistas que frequentei, são dezenas de meninos e meninas com touca numerada e proteção para os ouvidos nadando atrás da bola amarela e tentando acertar os gols – que, por padrão, são flutuantes nas piscinas olímpicas de 50 metros, ou afixados na parede, nas semiolímpicas de 25 metros. Em geral, a prática ocorre à noite, quando a piscina fica livre dos treinamentos de natação. Na minha infância, estar ali, no meio da piscina, entre outros jogadores, era o sonho.

O polo aquático (alguns praticantes preferem o nome em inglês, water polo) é um dos poucos esportes coletivos praticados dentro da água, e o único deles com categoria olímpica (estreou na segunda edição das Olimpíadas modernas, em 1900). Os times têm sete jogadores, que disputam a bola em uma piscina que pode ter até 3 metros de profundidade (o mínimo regulamentar é 2 metros), o que os impede de colocar o pé no chão. Para manter a sustentação na água, é preciso praticar o que chamamos de “perna alternada”. Os goleiros, que passam mais tempo em um só lugar, são os melhores neste quesito. Os demais jogadores treinam para tirar o corpo da água até a cintura e, com essa impulsão, fazer o arremesso ao gol (no jargão do esporte, esse lance é conhecido como “chute”, embora seja feito com a mão). Esse momento em que o corpo do craque sobe alto sobre a superfície da piscina rende imagens plásticas, eternizadas em muitas fotos da modalidade.

Nos treinos de natação, os jogadores praticam o “crawl cabeça fora” (ou “crawl de polo”, como dizem os nadadores). Eles não submergem o rosto para exalar, como se faz no nado convencional, pois precisam ver o que está acontecendo no jogo. De longe, dá para reconhecer um jogador de polo aquático não tanto pelos ombros largos, comuns também aos nadadores, mas sobretudo pelos olhos vermelhos e pelo cabelo detonado por causa do cloro.

Nos clubes, os jovens praticantes de polo aquático formam uma tribo pequena, comparados aos que optam por esportes terrestres. Quando Kiko Perrone e eu estávamos na adolescência, os ídolos internacionais do futebol, do tênis e do basquete eram Maradona, John McEnroe e Michael Jordan – no Brasil, Zico, Luiz Mattar e Oscar. São nomes célebres até entre quem não é fã desses esportes. Já o sérvio Igor Milanović e o espanhol Manuel Estiarte, craques do polo nos anos 1990, eram desconhecidos fora do universo das piscinas. Nós, no entanto, víamos repetidamente as raras fitas VHS de jogos europeus que conseguíamos. Escutávamos histórias sobre jogadores húngaros radicados no Brasil do passado, como Szabo, que morou em São Paulo e no Rio de Janeiro e marcou época nos anos 1950 e 1960. Diz a lenda que certo dia ele teria arremessado a bola da piscina do Clube Botafogo para a do Clube de Regatas Guanabara, a 100 metros de distância. Também se falava dos ídolos brasileiros do passado, como Álvaro Pires. Nos clubes de São Paulo que frequentei quando adolescente – eu jogava pelo Club Athletico Paulistano, mas ia com certa frequência ao Pinheiros –, convivi com alguns ex-atletas olímpicos da geração nascida nos anos 1940, como Fernando Nabuco de Abreu, Fernando Sandoval, Farid Zablith Filho, João Gonçalves Filho e Pedro Pinciroli Júnior. Também tive contato com os craques ainda em atividade, nascidos nos anos 1960, como Leo Vergara (conhecido como Léo Paraíba), Eric Borges, Fernando Carsalade (este, de um clube carioca, o Flamengo) e Eduardo Comini.

As categorias em que joguei na adolescência não eram chamadas de “sub”, como se faz hoje, e sim pelo ano aproximado do nascimento. Empregavam-se só anos ímpares. Como nasci em 1976, jogava na categoria 75 (dizia-se “sete-cinco”). Nosso time, do Clube Paulistano, era a terceira força paulista, disputando o posto com o Bauru Tênis Clube, e atrás do Pinheiros e do Paineiras, que dominavam o polo na minha faixa etária entre paulistas. Apesar dessa posição inferior, nós, do time do Paulistano, éramos mimados, mascarados e metidos. Usávamos toucas e sungas importadas, em vez das nacionais fornecidas pelo clube. Nosso técnico era João Alexandre Meyer Pflug, o Alemão. Figura carismática do polo aquático brasileiro, ele passou pelos principais clubes paulistas – Harmonia, Paineiras, Pinheiros, Paulistano – e treinou a seleção brasileira júnior. Com sua franqueza germânica, um dia nos explicou por que éramos jogadores medíocres. Foi nessa ocasião que nos falou de um jovem gênio do polo que jogava pelo Clube Guanabara, do Rio. “Ganha de vocês todos sozinho e de goleada”, me recordo dele dizendo.

O nome do craque: Kiko Perrone. Alguns meses depois, eu o veria em ação.

Kiko (à esq.) e Felipe na Olimpíada de Pequim - Reprodução/ Instagram

Jogadores de polo aquático costumam ter mais de 1,90 metro de altura. Seus ombros são largos, e o corpo é musculoso, pesado. No entanto, um espanhol de cerca de 1,75 metro e 70 kg consagrou-se como um dos melhores jogadores da história do polo – talvez até o melhor de todos os tempos. Entre 1980 e 2000, Manuel Estiarte disputou seis Olimpíadas e foi o artilheiro em quatro delas. Nos jogos de 1992, em Barcelona – cidade próxima do vilarejo natal do craque, Manresa –, a Espanha foi derrotada em uma dramática final com a Itália na icônica piscina Bernat Picornell, no distrito de Sants-Montjuïc. Ficou com a prata. Quatro anos mais tarde, em Atlanta, Estiarte levaria os espanhóis a uma inédita medalha de ouro. Naquele dia, em um voo de São Paulo a Boston, marquei uma escala em Atlanta, só para assistir, ao vivo, à final em que a Espanha derrotou a Croácia por 7 a 5, na piscina do Instituto de Tecnologia da Georgia.

O contraste entre o baixinho Estiarte e os outros jogadores assustava. Ele parecia um rato entre leões. Dentro da piscina, no entanto, seu domínio era total. Foi um “Maradona das águas”, como ele próprio se definiu quando o entrevistei para a Folha de S.Paulo, em 2000. Ele disputou então sua sexta e última Olimpíada, em Sydney, carregando a bandeira espanhola na cerimônia de abertura. A Espanha ficou em quarto lugar. Retirado das piscinas, Estiarte, de 64 anos, passou a trabalhar nos gramados. Nos últimos dez anos, foi assistente de seu grande amigo Guardiola, técnico do Manchester City – time do qual ambos se desligaram em maio deste ano. Antes da temporada inglesa, a dupla atuou no Barcelona e no Bayern de Munique. O técnico e seu auxiliar são nativos da Catalunha e falam catalão entre si. Guardiola escreveu o prefácio de Todos mis hermanos, a autobiografia de Estiarte. No universo futebolístico, Estiarte tem um amigo brasileiro: Junior, hoje comentarista da TV Globo. Os dois se conheceram no final dos anos 1980, quando o brasileiro jogou no Pescara (o dono do time italiano é o sogro de Estiarte).

Nos anos 1990, quando meu time, o Paulistano, foi jogar contra o Clube Guanabara, no Rio, estávamos todos curiosos para conhecer um jovem brasileiro que lembrava Estiarte. Kiko Perrone também é pequeno e magro para os padrões do polo aquático. E seu estilo ágil é similar ao do craque espanhol. A piscina do Guanabara parecia carente de manutenção: faltavam azulejos em algumas partes. Mergulhamos e nos aquecemos para o “coletivo”, como são chamadas as partidas não oficiais no polo. Eu tinha então a mania provocativa de dar “chapéu” nos adversários, em jogadas esteticamente bonitas, mas pouco eficientes, quando não inúteis. Logo no começo do jogo, se a minha memória não me trai, Kiko veio me marcar. Foi tudo muito rápido: recebi a bola e pensei: “vou dar um chapéu nele”. Em vez disso, foi ele que jogou a bola por cima da minha cabeça, duas vezes, em um contra-ataque que terminou em gol. No Pinheiros e no Paineiras, times que nós já havíamos enfrentado, não havia jogador comparável a Kiko. A diferença era abismal: ele parecia um alienígena, de tão superior. Sua velocidade, sua agilidade, seus movimentos, tudo fluía naturalmente, como se ele fosse um artista, um mágico. Ao fim do jogo, com a vitória fácil do Guanabara, estava encerrado o sonho que nós, do Paulistano, tínhamos de um dia brilhar no polo aquático. Melhor seria se formar em medicina ou jornalismo. Se alguém da nossa geração tinha potencial para ser como o Estiarte, era o Kiko.

 “Kiko se preparou para ser craque de polo aquático desde pequeno”, diz Angelo Coelho, um dos maiores técnicos do Brasil, que, em diferentes ocasiões, treinou Kiko e Felipe Perrone. Ultradisciplinado, Kiko não faltava aos treinos e cuidava da alimentação. Em casa, “passava horas brincando com a bola fora da água e vendo videocassetes de partidas internacionais de polo aquático”, lembra seu pai, Ricardo Perrone, de 76 anos, que pratica a modalidade há seis décadas. Quando tinha tempo livre, Kiko corria para a piscina do Guanabara. “Ele sempre se mostrou muito interessado, dedicado e atento a tudo que diz respeito ao nosso esporte”, elogia Roberto Chiappini, um dos mais respeitados treinadores de polo aquático no Brasil – dirigiu a seleção brasileira feminina na Olimpíada do Rio e recentemente levou o Pinheiros a mais um título brasileiro – e pai de Izza Chiappini, uma das melhores jogadoras de polo do mundo. 

A epopeia dos Perrone começou com o pai. Atleta da seleção brasileira, ele foi um dos mais longevos jogadores da história brasileira. Atuava pelo Guanabara, no lado oposto da piscina do Botafogo, às margens da baía que leva o nome do primeiro clube e da enseada que leva o do segundo. Com a piscina onde Manuel dos Santos bateu o recorde mundial dos 100 metros livre em 1961, o Guanabara sempre se distinguiu dos demais times em que o polo aquático é praticado no Brasil. É um clube de classe média do bairro de Botafogo. Embora mantenha uma sede aquática – o Mourisco Mar, vizinho ao Guanabara –, o clube que carrega o nome do bairro dedica-se sobretudo a seu time de futebol profissional, como também fazem o Flamengo e o Fluminense. O Guanabara nunca teve a ambição de conquistar os gramados. Para atrair as crianças da região, criou, nos anos 1980, uma escola de polo aquático. Nessa época, Ricardo e sua mulher, Ema, levavam regularmente o filho mais velho, Kiko, e a filha Roberta – que se tornaria recordista sul-americana dos 200 metros costas – ao clube.

No Rio, há uma divisão entre os clubes mais dedicados ao esporte e as associações sociais de classe alta, como o Country, o Caiçara e o Iate Clube. Em São Paulo, é diferente: os clubes de elite também investem em esportes competitivos (afora o futebol profissional, domínio dos populares Corinthians e Palmeiras). O Pinheiros está entre os clubes que mais formam esportistas olímpicos no Brasil, empatado com o Minas Tênis e atrás apenas do Flamengo. O Paulistano, com sede desenhada por Gregori Warchavchik e ginásio de Paulo Mendes da Rocha, disputa ligas profissionais de basquete e vôlei e monta equipes de futebol (em nível amador), remo, esgrima, judô e até pelota basca, entre outras modalidades. O polo aquático costumava ser praticado sobretudo nesses clubes chiques. Mas coube ao Guanabara, um clube de bairro, bem menos elitista – um equivalente paulista seria o Juventus, tradicional associação da Mooca –, revelar o talento do clã Perrone.

Atualmente, instituições como o Sesi do estado de São Paulo, a Associação Bauruense de Esportes Aquáticos (ABDA), em Bauru, e o Rio Aquatics, no Rio de Janeiro, mantêm projetos sociais que ajudam a popularizar o esporte.

Quando ingressou no curso de economia, na Universidade Federal do Rio do Janeiro, Kiko já fazia parte da seleção brasileira de polo. Mas ele ambicionava jogar nas grandes ligas internacionais, fora do Brasil, país que tinha pouca tradição no jogo aquático. Ainda hoje, os times mais competitivos encontram-se na Europa. As nações da ex-Iugoslávia – Sérvia, Croácia e Montenegro – estão entre as mais poderosas. Juntas, acumulam sete medalhas de ouro olímpico: três da extinta Iugoslávia, três da Sérvia e uma da Croácia. Acima delas, impera, soberana absoluta, a Hungria. Entre seus nove ouros no polo aquático, entrou para a história a medalha conquistada na campanha dos Jogos Olímpicos de 1956, em Melbourne. A semifinal foi contra a União Soviética, que semanas antes havia reprimido uma insurgência em Budapeste. Tenso, violento, o jogo foi capa da revista Time e tema de um documentário, Freedom’s Fury. Itália e Espanha de tempos em tempos ameaçam essas seleções. Ambas já conquistaram o ouro. A Grécia avançou bastante nos últimos anos. Os Estados Unidos entram no páreo graças sobretudo aos times universitários da Califórnia, além de ter o domínio do polo feminino.

Antes de Kiko, alguns grandes talentos brasileiros jogaram em equipes médias da Itália – nunca em grande time. A carreira internacional de Kiko deslanchou a partir do Mundial de 2001, no Japão, onde ele chamou a atenção pela habilidade e pelo número de gols – chegou a liderar a artilharia do torneio. Pará, o goleiro da equipe brasileira, alertou Kiko para uma oportunidade imperdível. “Em conversa com um jogador da Espanha, ele soube que o Barcelona, maior time espanhol, estava para perder o seu principal atacante para o Pescara. Imediatamente, ele me recomendou”, conta Kiko. O carioca mudou-se para a Catalunha, junto com a mulher, a bióloga Ana Garrido, filha do célebre fotógrafo Luiz Garrido.

O Barcelona do polo aquático não é o mesmo Barcelona do futebol. Trata-se do Club de Natació Barcelona, localizado na praia de Barceloneta, ao lado do Club de Natació Atlètic Barceloneta, que também tem seu time de polo. Localizada junto ao Mediterrâneo, Barceloneta é um oásis para o amante de esportes aquáticos, com excelentes clubes, piscinas, times de polo e equipes de natação. “Era um bairro de pescadores que se tornou turístico”, explica Felipe Perrone, que jogaria lá anos depois do irmão mais velho. Em Barcelona, os esportes aquáticos são cultivados pelo menos desde 1907, quando Bernat Picornell fundou o clube de natação da cidade e organizou o primeiro campeonato espanhol de nado. O complexo de piscinas em que foram disputadas as provas aquáticas da Olimpíada de 1992 leva o nome desse pioneiro desde a sua inauguração, em 1970.

Como tem um antepassado espanhol, a avó Nuria Heras Viñas, Kiko obteve a cidadania no país. Era um momento de transição no polo aquático da Espanha: a geração de Estiarte, que ganhara o ouro em Atlanta em 1996, estava saindo de cena. Kiko conta que decidiu jogar com a seleção espanhola, abandonando a brasileira, pelo sonho de ganhar uma medalha olímpica. O polo brasileiro enfrentava, e ainda enfrenta, dificuldades para chegar aos Jogos Olímpicos, que reserva poucas vagas para as Américas – geralmente, só os Estados Unidos conseguem se classificar. 

Assim como Emerson Fittipaldi na Fórmula 1, Kiko abriu as portas para que outros atletas no futuro pudessem atuar no polo aquático profissional europeu – em particular, para seu irmão, Felipe, dez anos mais novo, que começou a treinar no Guanabara com 7 anos. Aos 13, já era da seleção júnior. Aos 15, disputou o mundial adulto como um dos maiores jogadores da seleção brasileira. Os espanhóis tentaram levá-lo para jogar com o irmão, mas o pai achou melhor que o caçula terminasse a escola no Rio de Janeiro. Aos 17, Felipe trocou o bairro do Leme pelo Barceloneta.

Embora já fosse um dos maiores jogadores da Espanha, Kiko ficou fora da Olimpíada de 2004. Em 2008, estava, ao lado do irmão, entre os craques da seleção espanhola. Semanas antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, no entanto, Kiko sofreu uma contusão no olho durante um jogo e precisou passar por uma cirurgia. Felipe ficou desesperado com a perspectiva de jogar na China sem a companhia do irmão. “Ele ficou mais impactado do que eu”, diz Kiko, que afinal se recuperou bem a tempo para os jogos. Eliminada pela Sérvia nas quartas de final, a Espanha ficou em quinto lugar. O ouro foi para a Hungria. Anos depois, Kiko retornou ao Brasil. Estabeleceu-se em São Paulo, onde atuou no time principal do Paineiras até os 47 anos. Ainda treina no clube.

Felipe continuaria sua carreira vitoriosa na Espanha. Mudou-se do Barcelona para o clube vizinho, o Barceloneta, como líder de um projeto que levaria o time a se converter em uma potência europeia. Foi praticamente imbatível na Espanha, onde conquistou por duas décadas seguidas o título de campeão nacional, quase todos os anos com Felipe como capitão e artilheiro do torneio – e também da Champions League do polo aquático europeu.

Em sua longa temporada europeia, Felipe também jogou na Itália, primeiro pelo Savona e, mais tarde, pelo Pro-Recco. Base da seleção italiana, esse time reúne alguns dos maiores craques do mundo e já conquistou onze títulos da Champions League da Europa. Sua sede fica próxima a Gênova, em um trecho do Mediterrâneo conhecido pelas belas praias de Santa Margherita e Portofino. Felipe ajudou o Pro-Recco a conquistar a Champions League na temporada de 2011-2012.

Na Itália e na Espanha, o polo aquático não chega a ser uma modalidade popular. O esporte tem seu público cativo, mas Felipe conta que conseguia andar pelas ruas de Barcelona e Savona sem ser assediado por fãs. Isso mudou quando o jogador bandeou-se para o Jug Dubrovnik, time da histórica cidade croata no Mar Adriático. “Polo é o esporte mais popular da cidade e os jogadores são de Dubrovnik. Eles têm muito orgulho da história e de ter um time tão forte”, relata Felipe, que foi um dos raros estrangeiros no time. “Todos falavam em croata. Minha mulher, que é croata, ficou em Barcelona. Tive de aprender a língua na raça, indo aos bares, conversando com as pessoas.”

O polo aquático faz parte da identidade da costa adriática. Adolescentes jogam polo no mar como os brasileiros jogam futebol na areia. Quando estive em Herceg Novi, na entrada da mística baía de Kotor, para nadar maratonas aquáticas, descobri que toda essa cidade montenegrina – quase colada à cidade croata onde Felipe atuou – vive ao redor da piscina olímpica do poderoso time local, o Jadran, em frente ao mar, com arquibancada para centenas de pessoas. O mar está cheio de “campos” do esporte, com gols flutuantes, estendendo-se até Dubrovnik, do outro lado da fronteira.

Em Dubrovnik, os jogadores são celebridades locais, e virtualmente toda a cidade acompanha os jogos do time – que é, afinal, um dos melhores do mundo. No Instagram, há vídeos virais de suas torcidas fanáticas, que lembram as do futebol argentino ou do basquete grego, fazendo muito barulho nos jogos de verão, disputados no porto. Os brasileiros certamente se recordam da torcida da Croácia, com toucas quadriculadas de polo aquático, festejando depois de eliminar nossa seleção na Copa do Mundo de futebol em 2022, no Qatar.

Na Croácia, Felipe fez o caminho inverso do sérvio Petkovic, que, nos anos 1990, saiu de uma nação onde o polo é uma paixão popular para jogar no Flamengo. O feito do craque do Leme, porém, alcançou uma escala bem maior. Caso quase inédito de estrangeiro que alcança a consagração no polo croata, ele levou o Jug Dubrovnik para a vitória na Champions League da Europa na temporada de 2015-16 – e assim conquistou o título do maior torneio de clubes de polo aquático por três equipes de três países diferentes.

Em registro de 1995, Ricardo Luiz Perrone treina com o filho Kiko em piscina montada na praia de Copacabana - Luciana Whitaker/Folhapress

Em 2016, os Jogos Olímpicos foram no Rio de Janeiro, e Felipe tomou a decisão de disputá-los não pela Espanha, mas pelo Brasil. Naquele ano, ele deixou as grandes ligas europeias para jogar uma temporada pelo Fluminense. A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) montou uma grande equipe, buscando craques brasileiros que atuavam no exterior. Também naturalizou alguns estrangeiros que atuavam em times brasileiros e, em atitude polêmica, trouxe até atletas sem conexão com o Brasil.

O Brasil foi tido como um dos favoritos, ao lado de times fortes como Hungria, Sérvia e Croácia. E começou bem, derrotando a Austrália, o Japão e, em sua maior vitória na história olímpica, a Sérvia. “Na arquibancada, estavam todas as pessoas que eu via com 10, 11 anos de idade no Rio. Toda a comunidade do polo na arquibancada, e o Brasil ganhando da Sérvia no Maria Lenk [complexo de piscinas da Olimpíada]”, recorda Felipe. Como as “zebras” são bem mais raras no polo aquático do que no futebol, essa vitória confirmou o poderio brasileiro. Mais adiante na fase de grupos, porém, o Brasil perdeu para a Grécia e para a Hungria. Classificado em terceiro lugar, perdeu para a Croácia nas quartas de final, terminando em sexto lugar. Ironicamente, a Sérvia, que perdeu para o Brasil na fase de grupos, conquistou o ouro.

Foi a única vez em que Felipe representou seu país natal em Jogos Olímpicos. Ele pensou em desistir de vez das Olimpíadas, mas foi convencido a continuar pelo técnico David Martín Lozano, com quem já havia trabalhado na seleção espanhola e no Barceloneta. Nas Olimpíadas de Tóquio, realizadas com um ano de atraso, em 2021, por causa da Covid, o carioca levaria a Espanha para o primeiro lugar na fase de grupos, em uma campanha impecável. Derrotaram os Estados Unidos nas quartas, mas perderam por um gol da Sérvia na semifinal. Na disputa do bronze, nova derrota para a Hungria. Os sérvios conquistaram mais uma vez o ouro, derrotando a Grécia na final. Em 2024, de novo Felipe comandou a Espanha para uma campanha invicta na fase de grupos. Mais uma vez, o sonho olímpico esbarrou em uma derrota para uma ex-República iugoslava – desta vez, a Croácia. O ouro, de novo, iria para os sérvios, que venceram os croatas na final.

Em mundiais, a história seria diferente. Aos 36 anos, o capitão da Espanha comandou a seleção na conquista do título de 2022, em dramática disputa de pênaltis contra a Itália na final. Na trajetória até lá, a seleção espanhola, liderada pelo jogador carioca, derrotou Montenegro, nas quartas de final, e a Croácia, na semifinal. A segunda conquista do mundial veio no último jogo da carreira de Felipe, contra a Hungria, em 2025. Nas fases anteriores, a Espanha venceu mais uma vez Montenegro, e depois a Grécia.

Felipe diz que só conseguiu “liberar a emoção” depois de marcar o gol que selou a vitória contra os húngaros: “Antes tinha de me controlar. Com aquele gol, ganhamos. É um alívio acabar a carreira bem, com um gol valendo o mundial. Sabia que aquele momento seria o último”. A hora havia chegado: “Eu já me sentia quase como um avô dos mais jovens.”

Os dois títulos mundiais de Felipe convidam a compará-lo com Zico: o genial jogador de polo ficou sem o ouro olímpico, assim como o camisa dez da seleção canarinha não colocou as mãos na Copa do Mundo. As seleções da Espanha que ficaram fora do pódio nas últimas Olimpíadas equivalem ao Brasil de 1982: eram o melhor time, encantaram a todos, mas acabaram perdendo. Ninguém jamais questionaria a genialidade de Felipe, assim como não há como questionar a de Zico.

Técnico do time de polo aquático do Sesi de São Paulo, Rudá Franco afirma que Kiko e Felipe quebraram uma barreira para os brasileiros que buscam fazer carreira internacional no esporte. Antes deles, o Brasil era visto nos times europeus com “um certo preconceito”. Franco, que também jogou na liga espanhola – além de ter sido capitão da seleção brasileira –, acredita que parte do sucesso dos irmãos Perrone se deve ao DNA. Mas, para além da genética, o termo inclui a cultura familiar: “O Ricardo, pai dos dois, foi um grande jogador. A mãe, Ema, foi uma grande incentivadora. Além disso, o fato de terem cidadania espanhola contribuiu muito para que eles pudessem seguir a carreira na Espanha em alto nível.”

Kiko e Felipe se retiraram do esporte profissional, mas o DNA segue adiante. Na mesma época em que Felipe, no seu último jogo, levava a Espanha ao título mundial de 2025, seu sobrinho Tomás, filho do Kiko, liderava a seleção espanhola na conquista do mundial sub-20. Nascido em Barcelona, ele cresceu entre o Rio e São Paulo. Na adolescência, voltou à cidade catalã que marcou as carreiras de seu pai e de seu tio. Agora, aos 20 anos, estuda, com uma bolsa para esportistas, na Universidade da Califórnia em Berkeley, uma das melhores dos Estados Unidos tanto no ensino quanto nas quadras e piscinas. Felipe tem dois filhos, que já se encaminham para o esporte: Giovanna, de 15 anos, está na equipe de natação do Barceloneta, e Nikola, de 9, joga basquete no time de sua escola.

O avô de Tomás, Ricardo, já teve problemas cardíacos sérios, que exigiram um transplante de coração – o que parece inexplicável para um homem saudável, que além de dedicar a vida ao polo aquático, também surfava no Leme e era faixa-preta de jiu-jítsu. Mesmo depois do transplante, Ricardo segue jogando polo na categoria 70+ do Flamengo. Em 2024, jogou o Mundial Master na categoria 65+. A carreira internacional dos filhos completou, de certa forma, um sonho interrompido de Ricardo, que teve negada a oportunidade de participar das Olimpíadas de 1972, em Munique. O Brasil estava classificado para a competição de polo aquático, mas, na última hora, os dirigentes brasileiros decidiram não enviar o time à Alemanha. 

Felipe Perrone tornou-se um embaixador do polo aquático. Viaja por todos os continentes para difundir a modalidade. Mas, em seu próprio país, ainda não recebeu o reconhecimento que merece. O Brasil se orgulha de ter alguns dos melhores jogadores de vôlei e de futebol da história. Oscar Schmidt é celebrado como um dos maiores cestinhas do basquete internacional. Felipe e Kiko Perrone podem ser colocados no mesmo patamar destas estrelas.


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é comentarista em Nova York da GloboNews, TV Globo, CBN e O Globo. Mestre em relações internacionais pela Universidade Columbia e professor da ESPM.