questões cinematográficas
Jun 2010 12h19
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Em forma de memórias póstumas, o roteiro de “Quincas Berro D’Água” resultou em armadilha da qual o próprio filme não conseguiu escapar.
Ao contrário da adaptação para o cinema, a novela de Jorge Amado não é narrada de além-túmulo. Na terceira pessoa, o narrador declara que tentará, mesmo sendo “impossível”, decifrar o “mistério da morte (ou das sucessivas mortes)” – uma moral e duas físicas – do personagem conhecido como Quincas Berro D´Água. E começa a narrativa literária dizendo que “até hoje permanece certa confusão em torno da morte” dele.
No filme, escrito e dirigido por Sérgio Machado, não há versões divergentes, nem dúvidas, contradições, falta de detalhes ou lacunas a que o narrador da novela faz referência. Empobrecendo o texto de Jorge Amado, a voz do falecido passa a ser unívoca, além de ser obrigada a emudecer quando são encenados acontecimentos que não testemunhou.
Eliminada a ambiguidade – um dos maiores encantos da novela – restou inventar sucessivas peripécias burlescas, dar destaque excessivo ao candomblé e apelar para humor escatológico. Em longa, e constrangedora sequência, o que se resume em “A morte e a morte de Quincas Berro D´Água” a suposto xingamento da irmã pelo falecido Quincas, e referência ao “cheiro de tontear”, no filme se desdobra além da conta em tentativa malsucedida de comédia.
A música circense pretende dar suporte aos episódios da mini-epopeia em que se transforma o curto trajeto entre o quarto de Quincas e o cabaré, onde ele é esperado para comemorar seu aniversário. Mais de uma hora de filme transcorre para narrar esse percurso, tornando patente o artificialismo dos obstáculos encontrados no caminho.
No primeiro plano de “Quincas Berro D’Água”, depois do corpo do personagem ter sido visto afundando na Baía de Todos os Santos, Quincas está no cais do porto, de costas para a câmera, andando em meio às barracas do mercado. O enquadramento, em que não vemos o rosto do ator, parece indicação da dificuldade de mostrar o personagem vivo quando ele acaba de dizer que morreu duas vezes naquele mesmo dia. Mas os planos seguintes desmentem essa impressão. Em todo o filme, morto ou vivo, Quincas é visto de frente, sem nenhuma preocupação em preservar algum mistério em torno do seu verdadeiro estado.
À fragilidade do roteiro e à aposta no valor comercial da vulgaridade, contrapõe-se a qualidade da produção*, no todo irretocável, em especial a fotografia, direção de arte, figurinos e os efeitos recriando a tempestade em alto mar. A lamentar que o alto nível de profissionalismo, além dos recursos investidos, tenham sido postos a serviço de projeto de alicerces tão frágeis.
Desafio supremo de sua carreira, como de hábito, Paulo José sai vencedor do embate, acrescentando mais um personagem da literatura brasileira à sua galeria de grandes interpretações. O elenco, de forma geral, está à altura da qualidade do seu comovente desempenho. Em especial, alguns atores menos conhecidos, como Frank Menezes, no papel de Curió, um dos companheiros do falecido Quincas.
Além da competência artesanal, como cinema nada distingue essa nova tentativa de fazer sucesso recorrendo a Jorge Amado. À bilheteria cabe o veredito final.
*“Quincas Berro D’Água” é produção da Videofilmes, empresa da qual João Moreira Salles, editor da “piauí”, é sócio.