questões cinematográficas
Ago 2010 05h36
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Reconheço que é preciso dedicação para ir ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio, numa linda tarde de domingo como a de ontem, para ver um filme silencioso e incompleto. No caso, estava sendo exibido “Mãe tem que ser amada”, dirigido por Yasujiro Ozu em 1934. O filme integra a retrospectiva que irá até 22 de agosto, depois de ter sido exibida em São Paulo.
A sala não lotou, mas estava quase cheia, com mais gente que eu previra. Mas chama atenção em ocasiões como essa a ausência de profissionais de cinema – o único presente era Vinícius Reis, diretor de “Praça Saens Peña” –, e os raros espectadores que parecem ser estudantes de cinema. Por onde andam os alunos das faculdades e escolas de cinema da cidade? Na praia?
Substituídas por legendas, as partes perdidas do filme lançam o espectador, sem preparação, em pleno enredo e frustram a expectativa do desfecho. Mas o filme resiste bem à mutilação e os temas recorrentes da obra de Ozu lá estão, além dos enquadramentos fixos com a câmera baixa, e a decupagem precisa – algumas das marcas do seu estilo.
O drama tem origem em um segredo que é revelado e envenena as relações familiares. Com a inesperada morte do pai, a verdade vem à tona e será preciso aprender que filhos não devem fazer os pais chorarem para que a harmonia seja reestabecida. A sobriedade do estilo e a contenção dos sentimentos evitam que esse potencial dramalhão descambe para o grotesco.
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Em artigo sobre Yasujiro Ozu, publicado ontem na “Folha de S.Paulo”, Carlos Augusto Calil comenta que para ver a retrospectiva “um público fiel marcava encontro regular na rua Álvares Penteado, no centro de São Paulo, com devoção de iniciados e a certeza de compartilhar uma experiência única.” Seria injusto comparar a recepção nas duas cidades baseado apenas na minha incursão de domingo, mas não percebi nada parecido ontem e tive notícia desanimadora de sessões vazias por aqui nos primeiros dias da retrospectiva. Espero estar enganado.
De qualquer modo, ainda há tempo para os cariocas salvarem a honra da cidade e não desmentirem o vaticínio final da apresentação de Ozu feita por Calil, em que ele afirma ser “ledo engano” dos japoneses pensarem que a obra de Yasugiro Ozu é “incompreensível aos ocidentais”. Leiam o artigo e, a partir de amanhã, não deixem de ir ao CCBB.