questões cinematográficas

SUPRESAS NO É TUDO VERDADE – BERGMAN, LETH E GOLDOVSKAYA

Primeira surpresa no É Tudo Verdade: Ingmar Bergman imitando Groucho Marx – mesmo não estando ausente de todo da obra de Bergman, humor não é gênero ao qual costumamos associar seus filmes.
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Primeira surpresa no É Tudo Verdade: Ingmar Bergman imitando Groucho Marx – mesmo não estando ausente de todo da obra de Bergman, humor não é gênero ao qual costumamos associar seus filmes.

Usando imagens feitas pelo próprio Bergman e por colaboradores, os dois documentários dirigidos por Stig Björkman, exibidos na abertura do festival – “Imagens do playground” (2009) e “…Mas o cinema é minha amante” (2010) –, surpreenderam ao mostrar a atmosfera descontraída que predomina nos bastidores das filmagens.

Diante da pequena câmera de 9.5mm, comprada por Bergman na década de 1950, todos sorriem, o que é natural, comprovando, ao mesmo tempo, que imagens documentais encobrem tanto quanto revelam.

O diário escrito por Vilgot Sjöman – diretor, entre muitos filmes, de “I am curious (Yellow)” – sobre a filmagem de “Luz de Inverno” (1962) permite visão da face menos risonha de Bergman trabalhando:

“Sexta-feira 6 de outubro 1961

No fim da tarde há um incidente penoso. Ingmar dispara críticas e uma mulher no estúdio irrompe em lágrimas. Estou atormentado e assustado com a capacidade de Ingmar agredir, de maneira dura e repentina. Depois de outro incidente semelhante, Ingmar descreve como seus nervos estão à flor da pele: um raio que ele não pode controlar explode. , Bergman diz. E nos olhamos pasmos, como duas espécies diferentes de animais postos por engano na mesma jaula do zoo.”

*

Depois da projeção de “Homem Erótico”, na sessão de domingo do É Tudo Verdade, a primeira pergunta feita ao diretor dinamarquês Jorgen Leth, pareceu expressar o sentimento de espanto e incômodo da plateia feminina: “Por que o senhor não incluiu nenhuma dinamarquesa entre as mulheres que filmou?”

A resposta singela de Leth foi que filmou apenas o que o atrai, abrindo margem para uma possível interpretação psicanalítica do erotismo do diretor, mas desarmando possiveis críticas feministas mais aguerridas por ele só ter filmado mulheres negras, mulatas e orientais – quase todas nuas e deitadas.

O que Leth se propõe parece ser uma missão impossível – encontrar a forma de representar visualmente o erotismo. Documentarista viajante, ele vai do Haiti ao Laos, com mais de uma passagem pelo Brasil, em busca dessa imagem, gravando quase sempre em quartos de hotel impessoais. Seus planos estáticos e cuidadosamente compostos fazem das mulheres meros objetos de contemplação. Elas interagem através do olhar com a câmera, e através dela com o diretor e os espectadores, mas não há contato físico ou emocional.

Leth se interroga, conduz e narra, mantendo-se ao mesmo tempo na posição de observador/interrogador distante e analítico. Quando a haitiana Dorothie simula, ou tem prazer, ela está sozinha em quadro. É o próprio Leth quem está na câmera nesse momento?

“Homem erótico”, que chegou a ter o título mais adequado de “Homem imperfeito”, seria um projeto de antemão fracassado? A dificuldade que levou Krzysztof Kieslowski a abandonar o documentário – a impossibilidade de filmar o que mais o interessava – indicaria que sim: “Nem tudo pode ser descrito. Esse é o grande problema do documentário. Quanto mais perto se quer chegar de uma pessoa, mais essa pessoa se fecha. Se estou fazendo um filme sobre amor, não posso entrar no quarto se pessoas reais estão se amando. Se estou fazendo um filme sobre morte, não posso filmar alguém que está morrendo por que é uma experiência tão íntima que a pessoa não deve ser perturbada.”

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Quem não sabia que Lars von Trier, além de tiranizar suas atrizes, é capaz de gestos de solidariedade, terá sido surpreendido com a informação de foi ele quem, assumindo o papel de produtor, assegurou os meios que permitiram terminar “Homem erótico”, no momento em que Leth vivia crise pessoal e enfrentava críticas na Dinamarca por manter relação com menor de idade haitiana.

Foi reestabelecida, assim, a dupla Leth/von Trier que fez o já clássico “Cinco obstruções”, em 2002.

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A retrospectiva internacional do É Tudo Verdade deste ano é dedicada a Marina Goldovskaya, com a exibição de nove dos seus filmes e um debate com a realizadora, no Rio, no próximo domingo.

Tendo iniciado sua carreira em 1969, depois de formada no Instituto de Cinematografia do Estado (VGIK), em Moscou, tornou-se documentarista fazendo a câmera e fotografia dos seus filmes.

Desde a década de 1980, voltou-se para a tragédia soviética, passando a temas contemporâneos, com os quais está pesoalmente envolvida, a partir da década de 1990.

Em “Anatoly Rybakov: A História russa”, de 2006, o autor de “Crianças de Arbat”, tetralogia antistalinista, marco da glasnost distribuída de mão em mão na década de 1960, e só publicada em 1987, ele diz que para escrever se baseia na “memória e imaginação” – reafirmação do limite ao qual o cinema documentário está sujeito e que Amir Labaki assume no É Tudo Verdade com grande naturalidade.


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