questões cinematográficas
Mai 2010 16h16
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Escolhido melhor documentário da competição brasileira do festival É Tudo Verdade deste ano ( 8 a 18 de abril ), “Terra Deu, Terra Come”, produzido, dirigido e editado por Rodrigo Siqueira, é uma proeza. De um lado, revela um personagem singular, morador de uma comunidade isolada, vinculada a valores arcaicos; de outro, elabora linguagem sofisticada, estabelecendo um novo patamar para o cinema que procura desvendar os mistérios do mundo.
Entre outros feitos, “Terra Deu, Terra Come” harmoniza assunto e forma com destreza, evidenciando os limites das duas variantes usuais do documentário – (1ª) mera observação de eventos que ocorrem independente da vontade do realizador e (2ª) depoimentos propiciados pelo observador. Rodrigo Siqueira terá percebido que essas duas possibilidades não dariam conta do que encontrou na comunidade do Quartel de Indaiá, perto de Diamantina, em Minas Gerais. Seria preciso recorrer à terceira alternativa – reconstruir o passado, terreno livre da invenção. Pedro de Alexina, velho garimpeiro, ganhou o merecido crédito de colaborador na direção de “Terra Deu, Terra Come”, ao se tornar protagonista e, junto com Rodrigo Siqueira, maestro dessa reconstrução. A partir de um evento deflagrador, o documentário recupera o ritual para encomendar almas, que Pedro de Alexina é dos poucos remascentes a conhecer. Nesse processo, o evento circunstancial – a morte de um amigo – perde relevância. Prevalece a dimensão mítica, recuperada na narrativa de Pedro de Alexina. Conduzindo o relato, ele dá lições de sabedoria, fala do quotidiano, improvisa explicações, sem esclarecer, em cada caso, quando está fabulando ou sendo factual.
A importância da tradição oral, fundamento do saber na comunidade, é indicada no começo do prólogo, através da supressão da imagem. Livre de apelos visuais, com a tela preta, a atenção pode se concentrar na fala que define o tema de “Terra Deu, Terra Come”. Mesmo “velhos e se arrastando”, não aceitamos a morte, diz Pedro de Alexina. Remontando ao tempo em que “Cristo mais São Pedro andavam pelo mundo”, explica o acordo que levou à preservação da vida de idosos, necessários para dar “conselho aos novos”. Só de vez em quando, a Morte saltava e matava um, diz Pedro de Alexina, ficando culpada por isso. Cristo, então, inventa a desculpa que existe até hoje:
“Quando morre um, ah é, foi do coração. Tomou uma topada? Ah, foi a topada! O que que o freguês arrumou? Ah, não, ele adoeceu, apresentou com isso, aquilo outro, né? Morreu! Né? É a desculpa que Deus pôs… que nós todos, hoje, tá nessa desculpa. Ah, do que morreu? Ah, de repente…ah, é o coração. Nonada, mas tem essa Morte. Né?”
“Mergulhado e enredado” por “Grande Sertão: Veredas” Rodrigo Siqueira viajou “em busca do sertão mítico e profundo retratado por Rosa.” Motivação que o levou à região explicitada no relato da abertura de “Terra Deu, Terra Come”, quando Pedro de Alexina usa a palavra nonada, como é sabido, a primeira do romance de Guimarães Rosa.
Rodrigo Siqueira aparece em alguns planos, e ao longo do documentário pede explicações a Pedro de Alexina. Não querendo ser um observador distante, vence a timidez e procura se integrar à observação; revela, por outro lado, que “Terra Deu, Terra Come” é o registro de uma descoberta, não de algo conhecido de antemão. Para poder apreciar esse processo, o espectador precisa ter disposição para reviver, concentradas em 89’, dúvidas, hesitações, e ambiguidades do longo caminho percorrido na realização dessa obra notável.
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Vai acima um primeiro registro, depois de ter visto “Terra Deu, Terra Come” duas vezes. Estando ainda inacessível, guardarei comentário mais extenso para quando o documentário realizado por Rodrigo Siqueira puder ser visto, o que espero não demore. Por enquanto, saudemos um grande acontecimento cinematográfico.