questões cinematográficas
Mar 2011 10h16
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Depois de ouvir Oprah Winfrey anunciar que “Trabalho interno” ganhara o Oscar de melhor documentário de longa-metragem, o diretor Charles Ferguson subiu ao palco com a produtora do filme, Audrey Marrs, recebeu a estatueta e, diante da plateia do Kodak Theatre, em Los Angeles, disse:
“Perdoem-me. Preciso começar indicando que três anos depois da horrífica crise financeira causada por fraude maciça nem um só executivo financeiro foi preso, e isso é errado. Obrigado.”
Ferguson pode ser muitas coisas, menos ingênuo. Não tendo, evidentemente, falado de improviso, foi inconveniente por vontade própria. Apesar de estar de smoking, fez papel de menino mal-educado, sapateando para estragar a festa. O máximo que deve ter conseguido, porém, foi provocar um sorriso condescendente de algum alto executivo das corporações que controlam o cinema americano e têm ligações com o sistema financeiro.
Como escrevi em dois posts anteriores (aqui um e aqui o outro), Charles Ferguson confunde o papel de documentarista com os de policial, promotor e juiz. E ao pretender assumir atribuições judiciais, incorpora a função que, no século XIX, Jules Michelet atribuiu ao historiador – o de ser juiz do mundo.
Ferguson parece ignorar que pelo menos desde a lição da Escola dos Annales, na primeira metade do século XX, prevalece noção de que não cabe ao historiador julgar o passado, mas torná-lo compreensível. Retido no século XIX, o diretor de “Trabalho interno” insiste em passar sentenças.