questões cinematográficas
Dez 2010 19h33
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No depoimento incluido na primeira parte do documentário “Notícias de antiguidades ideológicas” (2008), dirigido por Alexander Kluge – exibido em novembro no Instituto Moreira Salles –, Oksana Bulgakowa, biógrafa de S.M.Eisenstein, relembra as circunstâncias em que ele leu “Ulisses”, de James Joyce.
Quando “Outubro”, quarto filme do diretor, finalmente ficou pronto no início de 1928 – com meses de atraso para a celebração do 10º aniversário da revolução de 1917 –, Eisenstein escreveu em seu diário:
“Estou de novo muito, muito doente. Histeria. Loucura. Toda Moscou está falando da minha doença! Minha húbris patológica, selvagem, inconsciente. Terrível complexo de inferioridade que provavelmente me levará à loucura.”
A pressão sofrida durante a realização de “Outubro”, filme que valorizava mais do que “O Encouraçado Potemkin” (1925), levara Eisenstein a tomar estimulantes endócrinos, trabalhando sem dormir 48 horas seguidas, na tentativa de acabar o filme no prazo para que a estreia pudesse ocorrer no aniversário da revolução.
Insatisfeito com os 49000 metros filmados, dos quais precisava extrair um filme de 2000 metros, teve uma cegueira temporária. O diagnóstico foi exaustão e Eisenstein recebeu ordem médica para ficar de cama em um quarto escuro.
Segundo as memórias de Grigory Alexandrov, diretor que foi assistente de Eisenstein mas depois rompeu com ele, na manhã de 27 de novembro de 1927, Stalin teria ido pessoalmente à sala de montagem, e exigido ver as sequências em que Trotski aparecia no filme – cenas eliminadas em seguida por Eisenstein.
Para muitos, Alexandrov inventou a visita de Stalin à sala de montagem, mas Eisenstein cortou de fato as cenas de Trostski por ordem superior.
Depois de uma recepção inicial favorável, a crítica se dividiu e o público, em vez de “Outubro”, preferiu ver um filme erótico e uma comédia, lançados na mesma semana do filme de Eisenstein. Consideradas manifestações de esteticismo, suas experiências de linguagem não foram entendidas nem por seus amigos que lançaram uma campanha com o slogan “ ‘Outubro’ precisa ser remontado!”.
Decepcionado e ofendido com a recepção, Eisenstein entrou em crise. Depois de consultar três médicos – um psicólogo, um psicanalista e um clínico – escreveu no diário:
“Decidimos não correr o risco de liquidar minha neurose. Para não ameaçar meu talento.”
Para se recuperar, Eisenstein foi mandado ao Cáucaso. Lá leu “Ulisses” no original, consultando a tradução alemã quando tinha dificuldade com o inglês. Numa carta para Pera Atasheva, jornalista que nas palavras de Oksana Bulgakova veio a ser “gerente doméstica, mãe, amiga e babá” de Eisentein, ele escreveu que Joyce via o mundo como ela: através de um microscópio observa o macrocosmo.
Não há informações se a leitura de “Ulisses” teve algum efeito terapêutico.
Em abril de 1929, Stalin e o Comitê Central do Partido Comunista assistiram o filme seguinte de Eisenstein – “A Linha Geral” – para conferir se estava de acordo com o recém aprovado primeiro Plano Quinquenal que levaria à rápida industrialização da Rússia soviética, e à coletivização da agricultura. O comentário de Stalin teria sido:
“Falta ao filme a linha fundamental do Partido. A vila é mostrada como unificada e imovível. […] No final, o que se quer é ver Marfa Lapkina num retiro na Crimea, no antigo palácio do tsar em Livadia; o amante dela, o tratorista, deveria estar sentado no trono do tsar.”
Depois da projeção, Stalin recomendou a Eisenstein que viajasse pela Rússia para registrar imagens impressionantes de sucesso, além de mudar o título – “A Linha Geral” – que estava ultrapassado; autorizou ainda uma longa viagem ao exterior – se modificasse o filme – sob pretexto oficial de estudar o cinema sonoro.
O novo título – “O Velho e o Novo” – não evitou a recepção negativa de críticos veteranos e humoristas, nem o fracasso de público. Amargurado, Eisenstein deixou a União Soviética, numa época em que viagens para o exterior eram um evento raro.
Em Paris, teve um encontro com James Joyce, quase cego na época. Teriam conversado sobre monólogo interior e maneiras de filmar “Ulisses”. [ continua ]
[Embora sem uso sistemático de aspas, além do depoimento de Oksana Bulgakowa no documentário de Alexander Kluge – “Notícias de antiguidades ideológicas” (2008) –, o texto acima é baseado na biografia de Eisenstein escrita por ela: “Sergei Eisenstein – A Biography. San Francisco: PotemkinPress, 2001]